Luz que nunca se apaga
Sandra Carneiro
(esprito Bento Jos)

Serginho, o jovem que inspirou esta obra, nos far conhecer inmeras histrias. Sua experincia exemplifica a de milhares de outras vidas; muitos jovens e suas famlias 
esto passando agora pelas mesmas dificuldades que ele enfrentou.
No entanto, a luz que se acendeu no corao dele e de seus familiares, em meio  dor e ao sofrimento, comprova que a vida, dom de Deus, jamais se apaga. E onde h 
vida, h alegria, construo e renovao.
Serginho  um exemplo para ns, no s pelos seus acertos, mas tambm pelas suas dificuldades e fraquezas, que nos so comuns a todos.
Num mundo onde se alastram a dvida, a insegurana e o medo,  confortador saber que o amor e o conhecimento das leis de Deus podem nos inundar de esperana, iluminando 
nossa alma e fortalecendo-nos ao longo da jornada eterna.
Deus  amor e fonte de todo o bem, e para sua luz infinita caminhamos, luz que nunca se apaga!

Bento Jos


" para ns motivo de alegria e satisfao apresentar esta obra, assim como ver afinal nosso irmo Bento Jos desenvolvendo sua maior aptido, traduzida neste trabalho 
de amor especialmente dedicado aos jovens..."

Lucius

O caminho em direo a Deus e  felicidade  o caminho do amor. No entanto, preferimos criar nossos sistemas de felicidade baseados no orgulho e na vaidade, onde 
Deus e o prximo no encontram espao.
Alguns homens corajosos, porm, j fizeram a escolha pelo amor e ensinam  Humanidade que esse caminho  possvel. Transformam a vida por onde passam, o mundo onde 
vivem, as pessoas com quem convivem. So astros de luz num mundo sob a escurido do orgulho.
Juntemo-nos a eles! Faamo-nos luz para extirpar as trevas de nosso planeta, permitindo que a luz de Jesus brilhe atravs de ns.
Desejamos que este projeto, que ora nasce, possa trazer um pouco dessa luz de amor e conhecimento aos coraes que buscam instruir-se e compreender um pouco mais 
da vida.
Que Deus nos abenoe em nossas tarefas, que Deus abenoe a todos que trabalham na disseminao do bem e na renovao do homem.
Hoje, mais do que nunca, posso dizer com toda a convico de meu esprito que a luz nunca se apaga; por isso, todos os esforos que fizermos para o nosso bem, ou 
daqueles que nos cercam, ainda mesmo as pequeninas coisas, permanecero vibrando pela eternidade.


Serginho









Sandra Carneiro, nascida em 16 de maio de 1963,  casada e reside na cidade de So Paulo. Aos quatorze anos, e ainda desconhecendo os princpios espritas, teve 
sua primeira experincia com a psicografia, recebendo um livro infantil.
Mais tarde, aps alguns anos se dedicando ao estudo da Doutrina Esprita, teve a oportunidade de iniciar o trabalho de psicografia atravs do romance Cinzas do Passado, 
de autoria espiritual de Lucius.
Desta vez, colaborando com o esprito Bento Jos, nos traz a todos mais este romance medinico.
Desde 1994 freqenta o ncleo esprita Lar de Jesus onde, ao lado de muitos companheiros de ideal cristo, colabora nas atividades de atendimento aos irmos de caminhada 
evolutiva.
Participa tambm do Grupo Cristo Assistencial Casa do Po em Atibaia -entidade voltada ao atendimento da comunidade necessitada do bairro do Maracan.




ndice
Prefcio Introduo
Primeira Parte: O Tombo
1. Serginho
2. Paixo arrasadora
3. O sonho se torna realidade
4. Momento de unio
5. Livre escolha
6. Lvia
7. Enfim, o nome
8. Final de campeonato
9. Ocultando a teimosia
10. Advertncia
11. Outro aviso
12. Celebrao inconseqente
Segunda Parte: Do Outro Lado da Vida
13. Perturbao        
14. Chico Xavier        
15. 0 socorro , 
16.  Difcil despertar        
17. 0 Evangelho no Lar
18. Terceira Parte: O Aprendiz
18.Novas lies        
19. Uma inspirao        
20. Morada luminosa        
21. Uma nova chance        
22. Experimentando        
23. A primeira misso        
24. Paulo        
25. ltimos preparativos        
26. Pedi e obtereis, buscai e achareis...        

Notas complementares e indicaes de leitura



Prefcio
 para ns motivo de alegria e satisfao apresentar esta obra, assim como ver afinal nosso irmo Bento Jos desenvolvendo sua maior aptido, traduzida neste trabalho 
de amor especialmente dedicado aos jovens: jovens que caminham inseguros e assustados vendo o mundo em que vivem desmoronar em sofrimento e aflio; vislumbrando 
um futuro que se desenha sem esperana, sem estmulo e sem algo que lhes d foras ou justificativas para lutar.
Entretanto, h luz e esperana em Jesus, nosso Mestre amado. Ele nos trouxe a real percepo da vida, do amor de Deus nosso Pai, fonte inesgotvel de todo o bem. 
Mas como enxergar em meio  dor e  agonia, onde est Deus, por que razo sofremos, onde est o amor do Pai que nos permite viver num mundo em tais condies!1 So 
perguntas que pairam, com razo, na mente de todo aquele que pensa, que reflete. H, porm, respostas para todas essas interrogaes.
Atravs da doutrina de luz que juntos Allan Kardec e os Espritos nos legaram, temos compreenso profunda dos ensinamentos de Jesus, da vida espiritual - a verdadeira 
vida que Jesus veio nos mostrar, e a que tantas vezes se referiu enquanto esteve fisicamente entre ns.
Essa doutrina nos ilumina a conscincia, e nos faz perceber igualmente a responsabilidade que temos por nosso destino, mesmo sendo to difcil aceitar que somos 
o resultado de nossas obras, quer quando sofremos ou quando estamos felizes.
Deus, em sua bondade e sua misericrdia infinitas, nos oferece o presente do amor todos os dias. O seu amor nos convida todas as horas, em todas as situaes, a 
recomear, a progredir, a ter mais alegria de viver; at quando sofremos, seu amor est convidando a nos conhecermos melhor e a modificarmos em ns o que nos faz 
sofrer, o que nos leva  dor. um amor sem fim, que perdoa e compreende ainda quando ns prprios no somos capazes de nos amar e perdoar. Ele sabe que somos imperfeitos 
e que necessitamos de apoio constante para conseguirmos acreditar em ns e seguir em frente.
Podemos confiar nesse amor incondicional, que est sempre ao nosso redor, porquanto  a essncia do prprio Universo. Deus quer que todos os seus filhos encontrem 
o caminho da felicidade, que no  outro seno o caminho do amor e da fraternidade.
E foi movido pelo sentimento de amor e fraternidade que nosso irmo Bento Jos desenvolveu este projeto que ora toma forma. Foi desejando utilizar seu conhecimento 
e sua experincia a servio de Jesus e de sua causa de regenerao da Humanidade que nosso irmo se entregou a este e a outros projetos na Espiritualidade. O amor 
 sua inspirao e os jovens so sua principal preocupao.
Assim, mais uma vez, desejamos que Deus abenoe esta iniciativa h tanto planejada e a faa frutificar em luz, paz e reencontro de almas com nosso Mestre Jesus, 
atravs da Doutrina dos Espritos, fonte de verdadeira compreenso para todos aqueles que tm olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Luz, paz e amor.

Lucius
Introduo
Melancolia e tristeza ainda me inundam a alma quando vejo tantos e tantos jovens destruindo suas vidas  procura de alguma coisa que lhes preencha o corao e lhes 
alivie a ansiedade.
Com toda a vida pela frente, repleta de possibilidades, e ao mesmo tempo de percalos, sentem que h algo mais alm da perpetuao de uma existncia medocre, sem 
propsito, cheia de violncias e disparidades. As desigualdades, as dores dos semelhantes tocam o corao dos jovens, que no sabendo explicar o porqu de tanto 
sofrimento, de tanta indiferena, fogem da realidade que os esmaga e vo  procura do que lhes traga prazer, satisfao...
Buscando alegria, muitas vezes encontram frustrao e desiluso. Buscando modificar a realidade, freqentemente reproduzem aquilo que de pior viam nos pais e na 
sociedade em geral. Buscando uma nova realidade, alienam-se e negam ao mundo o bem que poderiam construir. Por isso sofro ao ver os jovens perdidos e desesperados, 
tristes e angustiados, procurando sem saber onde nem como um mundo melhor, que querem acreditar possa existir. A intuio lhes diz que a vida no pode ser uma experincia 
sem sentido; mas onde encontrar as respostas que resolvam suas angstias? Quem sabe em uma carreira brilhante? Quem sabe com muito dinheiro? Quem sabe agindo ao 
contrrio de tudo o que aprenderam de seus pais? Quem sabe no sexo desenfreado e totalmente livre? Quem sabe entre amigos e uma turma bem animada? Como achar o que 
possa alivi-los e dar significado  existncia?
Cada vez que me aproximo de um jovem a se debater em sofrimento e angstia, compreendo sua dor e trabalho incessantemente para inspirar-lhe a idia de que  possvel 
encontrar harmonia e paz na vida. Para isso, porm,  preciso elevar o pensamento e o olhar acima das aparncias, acima do que  puramente material;  preciso deixar 
o corao conduzir a mente e permitir que nos leve por caminhos melhores.  s uma questo de acreditar e consentir que nova f, novos conhecimentos, postos em prtica, 
nos proporcionem novas experincias.
 assim que, de alma para alma, vou transmitir a vocs minhas experincias deste lado da vida, que demorei a aceitar completamente. Agradeo a Deus pelos amigos 
que fiz aqui, pois so eles que me do foras para seguir em frente e continuar lutando para que a vida se renove e se transforme.
Tudo o que era importante j foi dito dois mil anos atrs. No entanto, ainda negamos sistematicamente e no vivemos o que Jesus de Nazar nos ensinou, que  simples 
e to poderoso: o amor. Ele nos deixou o caminho todo aberto em direo a Deus e  felicidade; mas preferimos criar nossos sistemas de felicidade, baseados em orgulho 
e vaidade. Imagine se ns, seres humanos to cheios de conhecimentos e capacidades, to cheios de ns mesmos, vamos aceitar esse ensinamento to simples, e pr de 
lado o egosmo para amar nossos semelhantes! Parece impossvel.
Entretanto, alguns homens corajosos o fizeram, esto fazendo, e ensinam  Humanidade que  possvel. Transformam o caminho por onde passam, o mundo onde vivem, as 
pessoas com quem convivem. So astros de luz num mundo sob a escurido do orgulho - quase sempre astros solitrios, mas imprescindveis ao nosso crescimento. Juntemo-nos 
a eles! Faamo-nos luz para extirpar as trevas do nosso planeta, permitindo que a Luz de Jesus brilhe atravs de ns, trazendo finalmente o Reino de Deus para a 
Terra pelos nossos coraes.
Espero que este projeto, que ora nasce, possa trazer um pouco dessa luz de amor e conhecimento aos coraes que buscam, que desejam instruir-se e compreender um 
pouco mais da vida. Por meio dele iremos compartilhar a experincia verdadeira de tantos e tantos jovens, famlias, pais e mes pelos caminhos da vida terrena e 
tambm da vida no mundo dos espritos...
Conheci Bento Jos algum tempo aps iniciar minhas tarefas. Ele, que j trabalhava na elaborao deste projeto, entrevistou-me e a muitos outros jovens; conheceu 
suas famlias, suas lutas e vitrias, suas propostas de renovao e trabalho, seus acertos e desacertos.
Bento Jos alterou os nomes de quase todos os envolvidos e manteve apenas os de personagens famosos, para que todos possam conhec-los ainda melhor. Dessa forma, 
foi possvel compartilhar as experincias desses jovens e de suas famlias pelos caminhos do crescimento espiritual sem exp-los ou a seus entes queridos.
Que Deus nos abenoe em nossas tarefas. Que Deus abenoe a todos os que trabalham na disseminao do bem e na renovao do homem. E estejamos certos de que a luz 
nunca se apaga.


Serginho



O Tombo
Primeira Parte
Serginho

Serginho entrou em casa como um raio, batendo a porta estrondosamente. Sua me, que na cozinha preparava o almoo, ouviu quando chegou barulhento. Alm de bater 
a porta com fora e entrar com toda a energia de seus quase dezoito anos, cantava em voz alta e afinadssima uma msica do grupo Paralamas do Sucesso, uma de suas 
bandas favoritas, usando o fone de ouvido e um disk men.
Se havia uma coisa de que Serginho realmente gostava, era msica. E ele tinha sempre um tipo preferido para cada ocasio: gostava das agitadas quando estava nas 
baladas com sua turma; j em casa, enquanto estudava, preferia as mais calmas. Ao dormir (porque sempre adormecia ouvindo msica), em geral buscava as suaves para 
embalar seus sonhos. Msica! Ele vibrava com os sons e harmonias das melodias. E as letras... Adorava as letras... Achava fascinante os artistas traduzirem em palavras 
e poesia exatamente aquilo que ele sentia e no conseguia expressar! Sem dvida, a msica tinha o poder de enriquecer a vida!
Skank era a sua banda predileta. Era grande f do grupo e sempre que a banda se apresentava fazia o possvel e o impossvel para ir ao show. Curtia muito aquele 
som! No obstante sua "fanatice" pelo Skank, o rapaz apreciava todo estilo de msica, desde que fosse de qualidade, bem elaborada, e que agradasse ao seu ouvido 
exigente. Isso inclua reggae, rap, rock, canes romnticas, samba... Enfim, ele apreciava tudo que fosse bem feito.
A me, que vivia corrigindo os comportamentos exagerados do filho quando os julgava inadequados, apareceu na porta do quarto e pela milionsima vez (ou sei l que 
vez era aquela) pediu:
 Creio que  mais do que a milsima vez que peo para voc no bater a porta. Quanto ainda vou ter de pedir que entre em casa como gente?
 Mas gente no bate a porta?
 Serginho, no se faa de engraadinho. Voc sabe muito bem do que estou falando. Outro dia quase derrubou a porta, meu filho! Tenha d de seu pai que trabalha 
duro para cuidar de tudo e de todos!
        O, me... No precisa apelar...
E abraando a me amorosamente, Serginho mais uma vez desarmou completamente dona Eugnia. Mas ela, que adorava o carinho do filho, tentou dar uma de durona:
No adianta vir abraando, no, Serginho! Eu canso de pedir,enada! Puxa vida! Quando vou ver voc mudar, meu filho?
Apertando a me ainda mais forte, Serginho quase a sufocava...
 No vai adiantar me abraar assim, no! Vou continuar falando a mesma coisa para voc. Nem que tenha de repetir mais de um milho de vezes! Seja cuidadoso. Entre 
em casa com calma!!
 E etc. etc. etc... J sei, me... J sei....
Serginho continuava abraando a me com muita ternura. Finalmente vencida, dona Eugnia soltou-se e voltou para a cozinha resmungando para si prpria que era sempre 
amolecida pelos chamegos do filho.
Quando dona Eugnia era dura com Serginho, ele nada dizia. Agarrava-se ao pescoo dela com carinho, enchia seu rosto de beijos, beijava-lhe as mos, os braos, cobrindo-a 
de afagos. Desse modo, sempre conseguia abrandar a irritao da me.
Porm dona Eugnia se preocupava muito com o filho. Era bom rapaz, tinha um corao de ouro. No! Um corao que reunia todos os tesouros! Era bom e carinhoso para 
com todos. Apesar disso, tinha um defeito que fazia a me perder noites e noites de sono: era muito, mas muito teimoso. Quando punha uma idia na cabea, nada (nem 
ningum) tirava. Ela fazia de tudo, tentava de todas as formas conversar com Serginho; utilizava todos os argumentos para mostrar-lhe quando estava indo numa direo 
que poderia prejudic-lo. No adiantava! Ele no ouvia ningum. Fazia s aquilo que queria, quando e como tinha vontade.
Por causa daquela teimosia, vinha criando srios problemas. No colgio em que estudava, por exemplo, vrias vezes a diretora chamara dona Eugnia para conversar. 
E esta era obrigada a explicar que corrigia o filho, sim! Fazia o mximo que estava ao seu alcance como me. Mas desde pequeno Serginho era desobediente e teimoso. 
Fazia tudo o que lhe dava na veneta. Ela e o pai, seu Felipe, ficavam desnorteados, malucos.
Dona Eugnia explicava tudo  diretora e depois de longas conversas saa com algumas orientaes dela, dos professores, dos psiclogos da escola embaixo do brao, 
para tentar novamente mudar a conduta do filho. Sabia que Serginho teria muitos problemas ao longo da vida se no procurasse escutar mais os outros, em especial 
aqueles que o amavam e queriam o seu bem.
Toda vez que saa do colgio ela suspirava fundo e pensava que o filho iria melhorar. A medida que fosse ficando mais velho, passaria a compreender melhor e ento 
iria se corrigindo, sendo mais flexvel e aceitando orientaes.
Que nada! Ao invs disso, a cada ano Serginho se tornava mais teimoso e arredio. Agia como queria, sem escutar conselho de ningum. Que monto de problemas teria 
se no tentasse dominar aquele gnio impetuoso! E ela continuava fazendo o que podia para ajudar o filho a compreender... Mas o que fazer? Pacincia, pensava. Precisava 
continuar tendo pacincia!
Dona Eugnia refletia sobre tudo isso quando ele entrou na cozinha e foi logo beliscando uma batata frita:
 O almoo vai demorar a sair, me? Tenho treino
hoje!
 Hoje? Seu treino no  somente s teras e quintas?
 Era. Agora resolvi treinar todos os dias. O colgio vai participar do campeonato interescolar e todas as equipes esto intensificando os treinos!
 Mas voc tem tantas coisas para fazer, meu filho... Precisa estudar para o vestibular, no?
 Ah, me! Eu estudo  noite, e presto mais ateno s aulas... No se preocupe com isso! Sabe que sempre vou bem na escola, no sabe? Isso a senhora no pode negar!
 , mas...
 Est vendo? No tem o que dizer! Afinal de contas, eu sempre fui bom aluno. Aprendo fcil, fcil. E voc sabe o quanto eu gosto de vlei.
Dona Eugnia no disse nada. Terminou de preparar o almoo e o serviu. Preferia que o filho estivesse praticando esportes, de que tanto gostava, a andar aprontando 
por a.
Iam comear a almoar quando chegaram Sueli e Fbio, os irmos mais novos de Serginho. Fbio tinha apenas nove anos. Era magrinho, espevitado e muito curioso. Seus 
olhinhos pretos estavam sempre atentos. Adorava o irmo e imitava todos os seus hbitos, parecia um Serginho em miniatura. J Sueli era uma menina quieta e fechada. 
No falava muito, chorava  toa e era muito sensvel, como todo mundo dizia; uma garota meiga e delicada. Seu Felipe adorava a filha, que estava com doze anos.
Assim que entraram, correram os dois para a mesa e comeou a baguna. Dona Eugnia pensou: "Pronto! Acabou o sossego! Pensei que ia conseguir almoar com Serginho 
e falar um pouco com ele, mas... Assim so as famlias..."
O quarteto almoou conversando animadamente. Serginho era um heri para Fbio, que queria ser igual ao irmo. J com Sueli vivia brigando. No se entendiam, e tudo 
logo se transformava em motivo para discrdia e discusso. No fundo, no fundo, porm, eles se gostavam muito, pois no desgrudavam um do outro.
Quando Serginho comentou novamente, em meio ao almoo, que iria intensificar seus treinos, Fbio berrou:
 Tambm quero, me! Quero treinar! Tambm gosto de vlei e sei jogar!
 Como sabe jogar, Fbio? Voc j jogou alguma vez? -J!
 Quando?
Fbio pensou um pouco, depois concluiu:
 Aquela vez l na praia foi uma delas!
 Fbio, d um tempo, vai! Aquela vez l na praia no vale! Era s uma brincadeira. Nem a bola era mesmo de vlei! A bola de vlei  muito mais dura do que aquela. 
Voc no d conta, no.
 Fbio - interveio a me ao ver o filho srio e de testa franzida, sem arredar os olhos do irmo, procurando uma resposta  altura para devolver a Serginho -, nem 
pense nisso! Voc j est fazendo natao, e foi o mdico que recomendou. Quando ficar um pouco mais velho, voc treina, meu filho. Espere chegar o momento certo!
 Quero treinar, me, que nem o Serginho!
A me olhou para o filho mais velho e acenou com a cabea pedindo ajuda. Serginho tomou um gole de gua e depois falou com firmeza:
        Olha, Fbio, s vou mesmo treinar porque temos o campeonato da escola. E daqui a um ms e meio. Por isso vou treinar. Estou quase sendo obrigado, entende? 
Voc entende? Tenho de ajudar a escola.
 Tem campeonato?
 Tem.
 Daqui a dois meses?
 , quase...
 E depois? Vai continuar treinando?
Serginho no acreditava que o irmo estava tentando peg-lo na curva e, olhando para a me, falou sorrindo:
 Se ganharmos, participaremos de outro campeonato. Se perdermos, samos. Tudo vai depender do resultado.
Fbio no disse mais nada. Ficou calado at terminar o almoo. Serginho piscou para a me, dizendo:
 Fbio, quando vocs vo ter competio na natao?
 Na natao tem competio?
  claro que tem!
 E tem prmios tambm?
 Tem medalhas, seu bobo - falou Sueli, que permanecera calada at aquele momento.
 Fica quieta, Sueli. Estou falando com o Serginho!
 Tem medalhas e prmios.
 Oba!!! Vou perguntar ao professor quando vai ter competio.

  isso a, Fbio, vai fundo! Voc vai ter de treinar bastante para essas competies!
 Oba! Oba!
Fbio, que havia terminado o almoo, saiu da mesa exultante. Ele tambm teria sua competio!
Serginho acabou de almoar e aps algumas ligaes voltou  cozinha, onde dona Eugnia ainda conversava com Sueli.
 Bom,' me, vou indo. Vou chegar bem tarde hoje, no se preocupe! Temos ensaio da banda.
 Serginho, seu pai e eu j falamos vrias vezes que no queremos voc chegando tarde quando tem aula logo cedo no dia seguinte. Prejudica seus estudos; voc fica 
cansado durante a aula e no consegue prestar ateno a nada... Fica displicente...
 Me, chega de sermo por hoje, t? Puxa! Deixa eu viver minha vida! Gosto tanto de msica, gosto dos meus amigos, quero fazer tudo de que gosto! Voc sabe que 
eu sempre consigo me recuperar nas matrias em que tenho dificuldade uma vez ou outra! Alm disso, me, tem um monte de aulas chatas, de professores que parece que 
nem sabem o que esto dizendo...
 Serginho...
Ele no deixou a me concluir o que estava dizendo... Deu tchauzinho para os irmos, um beijo no rosto dela e saiu pela porta descendo as escadas rapidamente.
 At mais tarde, dona Eugnia, o almoo estava timo!
Dona Eugnia voltou para dentro contrariada. Serginho no tinha conserto!

Captulo 2
Paixo arrasadora
Serginho chegou ao colgio, foi direto para o vestirio e num instante trocou de roupa. Tirou a cala jecms e a camiseta, embolou tudo e jogou dentro do armrio. 
Ele estava ansioso para chegar logo na quadra e treinar. Depois de vestir o uniforme oficial da escola, fechou o armrio e saiu. Seus amigos j estavam por l, treinando 
alguns saques, algumas cortadas. Serginho aproximou-se deles e cumprimentou como de costume:
 E a? Tudo bem, Renato? O que est rolando?
 Tudo beleza! Estamos aquecendo pra comear o treino, Serginho.
 Legal! E a, Marcelo? Tudo em cima?
 Tudo! Como foi em casa? Sua me concordou com os treinos?
 E voc acha que eu ia dar mole? J cheguei comunicando e pronto! No dei nem chance pra ela falar nada. At que tentou, mas eu j estava pronto com todos os argumentos. 
No tem jeito, Marcelo. Quando a gente quer alguma coisa tem de ir l e conquistar. No d pra marcar passo, no!
 T certo, Serginho! E isso a.
 E a, brother, tudo bem?
 Tudo certo, Tiago. T louco pra gente ganhar essa competio!
 Nem fala, Serginho! T muito a fim de ganhar essa parada!
 Ns vamos levar essa, pode crer!
  isso a, Marcelo. Firmeza que vai dar tudo certo! Depois de mais alguns minutos de aquecimento o
treino comeou. O professor de educao fsica, e treinador do time, era enrgico e cobrava o mximo de desempenho dos jovens. Eram garotos saudveis e o professor 
vinha preparando-os fsica, tcnica e psicologicamente para ganhar. Na verdade, Dirceu era um apaixonado pelos esportes. Quando jovem treinara para ingressar na 
seleo brasileira de vlei, mas por problemas sucessivos de contuses no joelho acabara desistindo de seguir carreira, sem nunca perder a paixo pelo esporte. Seu 
sonho era descobrir jogadores com potencial e desenvolver seus talentos, encaminhando-os para jogos profissionais. J tivera sucessos e alguns de seus melhores alunos 
estavam treinando em clubes, preparando-se para jogar profissionalmente. Por conhecerem bem a histria de Dirceu, os estudantes o respeitavam muito. Era talvez o 
professor mais respeitado pelos rapazes do colgio -ao menos os que apreciavam esportes.
O treino ia comear quando Serginho, de sbito, tornou-se impaciente. Olhava de um lado para outro a procurar por algum... Comearam a treinar e ele no conseguia 
concentrar-se. Perdeu alguns saques e deu pontos para o time adversrio. Levou uma tremenda bronca do professor e treinador:
        Assim no d, Serginho! Mais ateno! Mais ateno, rapaz! Voc quer ou no quer jogar? Concentrao!
Os amigos, com olhares indignados, fizeram-no suspirar fundo e tentar concentrar toda a ateno na bola. Ao abrir os olhos, porm, ele viu Paula entrando na quadra. 
Finalmente chegara! Seus olhos se encontraram, Paula sorriu e Serginho sentiu-se totalmente confiante outra vez! Da para a frente foi somando pontos e mais pontos 
para o time. Era incrvel! Quando estava na rede saltava como se tivesse molas nos ps e suas cortadas eram incrivelmente precisas. Normalmente, seu desempenho era 
fantstico e ele era um dos jogadores mais admirados no time.
Paula sentia muito orgulho de Serginho. Afinal, no o escolheria se no fosse um vencedor. Ela e outras garotas acompanhavam os treinos com freqncia. Paula adorava 
assistir aos treinos junto de amigas, assim todas podiam ver quanto seu namorado era especial, de dar mesmo inveja...
O treino prosseguiu at quase o fim da tarde. Alm do jogo em si, treinaram saques, cortadas e diferentes jogadas. Dirceu sabia tudo do esporte e levava o treinamento 
muito a srio. Ao final elogiou o desempenho de Serginho, o que no era nada usual, pois Dirceu sempre economizava elogios:
 Muito bom, Serginho. No comeo fiquei um pouco preocupado e pensei que hoje voc no estivesse em condies de jogar; mas depois que esquentou, voc deu um baile. 
Muito bom! Parabns!
 Legal, Dirceu! Valeu!
Serginho dirigiu-se at a namorada, que o olhava satisfeita:
 Legal, Serginho! Mandou muito bem! O Dirceu, que  difcil de elogiar algum, se amarrou no seu jogo.
Tiago passou por eles interrompendo a conversa:
 Serginho,  noite na casa do Renato?
 Com certeza, cara! As oito t legal?
 T timo! At! Tchau, Paula!
 A noite nos vemos, Tiago.
 Legal!
Os amigos se despediram e Serginho seguiu com Paula. Levou-a at o carro e despediram-se.
 Te vejo  noite na casa do Renato.
 Voc no vai me buscar?
 No vai dar, Paula. Meu pai no me emprestou o carro.
 E sua me?
 Tambm no quis emprestar. Eles querem que eu tire a carta primeiro, j te falei. No querem que eu dirija sem carteira por a.
 Que chato, hein, ter de ficar andando por a de carona! Afinal, daqui a dois meses voc j completa dezoito anos!
 ... Eu sei, Paula,  muito chato, mas... Vou esperar um pouco mais...
 Acho voc muito devagar s vezes, Serginho. No acredito que tenha tanta personalidade em alguns momentos e em outros se deixe dominar desse modo pelos seus pais...
 S faltam dois meses... Ento poderei pegar o carro  vontade.

 Ser que vai poder mesmo? Ou vo inventar histrias? Seu pai vai te dar um carro?
 Espera a, Paula, a gente j falou sobre isso... Meu pai t trabalhando pra caramba. Os negcios esto difceis. Eu j falei isso pra voc...
 Eu sei, Serginho, eu sei, mas  que acho muito chato voc estar sem carro. Acho desagradvel ter de ir muitas vezes buscar voc com meu carro, e outras voc ter 
de ir de carona... Sei l, pega meio mal...Voc fica meio infantil, entende?
 Infantil?
 , infantil. Parece que precisa dos outros...
 No  nada disso, Paula. Assim que completar dezoito anos, vou ter mais autonomia. Sei dirigir e no dia do meu aniversrio j estarei com minha carteira de motorista 
nas mos.
 S que a carteira no adianta nada se voc no tiver o seu carro. Por que no compra uma moto? No tem aquela grana guardada? Aquela grana que voc foi ajuntando?
 Tenho... Mas no acho legal moto agora. Prefiro esperar um pouco mais e pegar o carro.
 Quero s ver, Serginho... Duvido que seus pais liberem o carro pra voc... Bom, vou indo. Passo  noite na sua casa.
 No precisa, Paula. J combinei com o Marcelo. Ele me pega e a gente se encontra na casa do Renato.
 T bom. At mais.
Paula entrou no carro e bateu a porta, contrariada. Ligou o carro e saiu rapidamente, sem olhar para Serginho, que ficou observando at a namorada desaparecer ao 
virar a esquina.
"Como  linda!", pensava. Serginho adorava Paula. Era uma das garotas mais cobiadas do colgio. Um ano mais velha do que ele, sabia bem o que queria. Namoravam 
h pouco mais de quatro meses, e ela era um verdadeiro furaco, uma revoluo em sua vida. No entanto, Serginho sentia-se pressionado. Pensava em comprar moto, porm 
vacilava. Paula j havia sugerido isso umas duas vezes, mas ele preferia esperar pelo carro; especialmente porque seus pais se mostravam completamente contra o uso 
de moto.
Foi para casa acabrunhado. No gostava de brigar com Paula. Sentia-se fascinado por ela, e sempre que pintava um clima como aquele ficavam meio distantes; ele detestava 
quando isso acontecia.
Sem perceber, Serginho continuou refletindo. Talvez Paula tivesse razo, talvez fosse melhor resolver aquilo de uma vez. A moto com certeza seria uma soluo, at 
que ele pudesse comprar seu prprio carro. Ao mesmo tempo no tinha total convico de que fosse o melhor caminho, e seguiu para casa pensativo.



Captulo 3
O sonho se toma realidade
Serginho acabava de engolir um sanduche preparado por dona Eugnia, quando Marcelo encostou o carro e comeou a buzinar chamando pelo amigo.
  o Marcelo, preciso ir.
 o v chegar muito tarde, Serginho. Amanh voc acorda cedo e precisa descansar.
Eu sei, me. Caramba! Eu sei me cuidar. Puxa
vida!
Serginho desceu rapidamente as escadas, pulando os degraus de dois em dois. Despedindo-se da me, entrou no carro do amigo que o esperava ansioso.
 E a? Tudo em cima?
 Tudo certo!
 onseguiu as msicas pra gente ensaiar hoje? -perguntou Marcelo.
E acha que no? Esto todas aqui. - Puxa! Conseguiu todas?

 Todas, e ainda t levando algumas outras pra gente analisar se quer incluir no repertrio.
  isso a! T sentindo firmeza! Assim d gosto ensaiar! Comea a parecer srio!
 E tem de ser srio, n, Marcelo? Afinal, todos temos talento! J testamos isso! Tem tanta gente ruim se dando bem... Por que  que ns no poderamos conseguir? 
Quantos j comearam assim, de brincadeira, no fundo do quintal ou na garagem, e no final esto por a, fazendo o maior sucesso!
 Pode crer, Serginho. A gente tem o talento, que  fundamental, tem o grupo unido e tem muita vontade de dar certo. Ento acho que devemos ir mesmo em frente e 
continuar ensaiando. Uma hora, chega a nossa vez!
 Seus pais esto achando legal a idia da banda?
 No esto botando muita f, Serginho. Sabe como so pai e me, n? Sempre preocupados com alguma coisa, sempre ansiosos pelo nosso futuro, sei l... Sempre estressados!
 E, meus pais tambm so assim. Esto sempre preocupados! Por que ser, n? No entendo. A vida  to curta! A gente tem tanta coisa pra fazer e eles ficam preocupados 
com tudo o tempo todo! Ser que no esto botando f na gente?  isso?
 Mais ou menos. Acham que  legal, mas que  s diverso. Acho que eles pensam mesmo  que no vai dar em nada.
 P, cara! No fica triste, no! Ns vamos mostrar a eles, voc vai ver. Eles tero de admitir que somos bons pra valer!
 Legal! E isso a!
Os dois amigos seguiram conversando animados. Faziam planos para os prximos ensaios, para o futuro da banda, para a apresentao de estria. Sonhavam e planejavam 
o que fariam se tudo fosse como desejavam. Foi ento que Marcelo teve uma idia:
Serginho, estou pensando aqui uma coisa. E se a gente fizesse uma apresentao pra todo mundo ver que a gente no est brincando?
 Onde, Marcelo? Ainda no conseguimos nenhum lugar legal pra tocar!
 , eu sei... E se ns aproveitssemos uma data especial, uma festa, pra apresentar a banda a todo mundo?
 Como? A gente no tem grana, Marcelo.
 Eu sei. Mas e se a gente se organizasse pra tocar no seu aniversrio? E daqui a dois meses, no ?
 . Daqui a dois meses.
 A tia Eugnia vai querer fazer alguma coisa, no vai?
 Ela j est organizando tudo com meu pai e combinamos fazer alguma comemorao bem legal nos meus dezoito anos.
 Ento,  perfeito! Podemos aproveitar a sua festa, Serginho, e lanar oficialmente a nossa banda! Ensaiamos j com um objetivo certo. Treinamos a seleo de msicas, 
pensando nas pessoas que vo estar por l, preparamos tudo! Acho legal a gente ensaiar com um objetivo definido, t me entendendo?
 ! Da damos um jeito de levar algumas pessoas que poderiam ajudar a banda a conseguir um lugar pra tocar!
 S! Podemos at preparar uma fita demo! Que voc
acha?
 tima idia! Assim podemos estar mais preparados para todas as portas que vo se abrir!
  isso a!
Serginho e Marcelo continuaram sonhando com o futuro promissor que os aguardava. Encontraram o restante da turma na casa do Renato e contaram a idia de Marcelo 
aos amigos, que imediatamente concordaram:
  disso que estvamos precisando - afirmou Paula, confiante -, ter um objetivo claro. Assim vai ficar mais fcil a gente se concentrar, se dedicar.
 Tambm acho legal. Vamos poder nos preparar pra valer!
 , t ficando entusiasmado de verdade! T comeando a achar que essa parada vai vingar!
 E voc tinha alguma dvida, Tiago?
 P, cara, achava que ia ser s curtio... No tava botando f que a gente ia fazer isso pra valer!
 Cara, voc t de brincadeira, n? Eu sempre quis fazer isso pra valer!
 Eu sei, Paulinha, eu sei. T ligado que voc sempre quis cantar pra valer!
 Ento! A gente tem de pensar a mesma coisa, cara! Tem de trocar mais e todo mundo tem de pensar a mesma coisa. Do contrrio, no vai dar certo, no!
 Concordo com a Paula! - falou Serginho, enrgico.
 Ah! Voc sempre concorda com ela... Renato interrompeu, firme:
 No, Tiago, pera a, tambm concordo com a Paulinha. Se a gente no tiver a mesma cabea, pensando como um grupo, vai ficar mais difcil. Sei que parece um sonho, 
mas tudo na vida nasce de um sonho, de uma idia. A gente no pode desprezar as idias, no! Pelo contrrio, cara. Acho que tem mais  de apostar nelas, dando fora 
e lutando pra que se tornem realidade.
Serginho concordou emocionado, de tanto que desejava fazer de sua banda um sucesso:
 isso a, Renato! T contigo! Eu no t nessa parada de brincadeira! T muito a fim de que d certo! Que a gente seja uma banda de sucesso pra valer!
 T nessa tambm! - confirmou Marcelo, quase falando junto com Serginho e com Paula, que beijou o namorado, satisfeita.
Paula era a vocalista do grupo. Na verdade a idia de terem a banda fora dela, que adorava cantar e desde pequena sonhava viver profissionalmente da msica - e, 
sobretudo, fazer sucesso, muito sucesso. Aos oito anos comeou a estudar violo. Tinha muita facilidade com a msica e tambm uma boa voz, educada e agradvel. No 
foi difcil juntar os amigos em torno da idia da banda, e inclusive ajudar na compra dos instrumentos que faltavam.
Serginho j tinha comprado a bateria, que instalara na garagem de sua casa. De vez em quando ele tocava, mas quase sempre sozinho. Quando Renato comprou a guitarra 
nova e contou aos amigos, o sonho comeou a ganhar corpo. Paula ficou louca logo que soube e imediatamente sugeriu a formao de um grupo para tocarem juntos.
 Bom, agora que estamos de estria marcada, precisamos encontrar um nome pra nossa banda. Isso  fundamental!
 Tem razo, Paula - concordou Renato -, isso  fundamental. Enquanto a gente estava aqui dentro no fazia tanta falta; agora vamos mostrar nossa cara para o mundo 
e temos de aparecer j com um nome.
 E tem de ser a nossa cara! - falou Serginho solenemente.
 Com certeza, Serginho. Tem de ser a nossa cara.
 Vamos dar uma ou duas semanas pra gente pensar. Vamos ver se aparece uma idia legal para o nome da banda.
 E! E no vamos mais perder tempo, galera! Vamos ensaiar que temos muito trabalho pela frente!
  isso a! Vamos nessa! - concordaram quase em coro. Ensaiaram arduamente naquela noite, at muito tarde, j que mais do que nunca tinham um objetivo claro e o 
sonho estava prestes a se realizar.
Ao final do ensaio se sentiam cansadssimos. Repassaram algumas msicas diversas vezes. Todos estavam mais tensos e mais exigentes consigo prprios; o ensaio deixou 
de ser uma diverso e ganhou ares de seriedade.
Serginho, tambm muito cansado, esperava que Paula o levasse, pois Marcelo queria ir direto para sua casa, que ficava perto da de Renato.
 Serginho, acho que no vai dar pra te levar. T muito cansado, cara. Voc se importa?
 No, Marcelo, no tem problema, no. Eu me viro!
 S que  tarde pra voc ir de conduo!
 A Paulinha me leva!
Paula, que guardava a guitarra cuidadosamente, ouviu a conversa e ficou calada.
 Voc me leva, n, Paulinha?
Paula levantou a cabea, olhou para o namorado e no respondeu. Continuou guardando sua guitarra. Serginho acabou de arrumar a bateria, cobrindo todos os instrumentos; 
depois, pegando seu material e olhando para a namorada, falou em tom de voz um pouco mais baixo, para que os amigos no escutassem:
 Voc vai me deixar na mo, Paula?
 Deveria, Serginho! Estou supercansada e hoje mesmo voc me disse que se virava, que no precisava do carro dos seus pais. J cansei de falar que voc precisa ser 
mais independente! A moto seria uma soluo, mas voc  teimoso!
 Poxa, Paula, que custa voc me dar uma carona? Parece que tem preguia de me fazer um favorzinho!
 Voc  que no compreendeu, Srgio! Eu estou cansada pra caramba, vou ter de levantar cedo amanh!
 Eu tambm!
 Ento se vira, e resolve seu problema!
Os dois estavam levantando a voz e os amigos logo perceberam o motivo da discusso. Renato interveio em favor do amigo:
 Pode deixar que eu te levo, Serginho. Vou pegar a chave do carro do meu pai.
 No, Renato, no tem cabimento voc sair de casa a esta hora pra me levar!
 No tem problema, Serginho. Num instante te levo e j estou de volta!
 No, cara!  muito chato isso! P! Voc tem de sair daqui e ir at o outro lado da cidade, enquanto a Paula vai passar por l!
 T muito cansada, Serginho. Moramos longe pra chuchu, tambm tenho de levar voc pro outro lado da cidade e depois voltar tudo de novo! E sou mulher, puxa vida! 
Voc no se preocupa mesmo comigo, no ?
Serginho saiu de perto de Paula irritado. Tinha vontade de lhe falar umas boas. Egosta, isso sim  que ela era! Uma garota mimada e egosta! Onde j se viu? Fazer 
o amigo sair de casa s para lev-lo, se ela, sua namorada, bem podia fazer isso! Paula era mesmo muito birrenta!
Ela no se importou com o olhar irritado que o namorado lhe dirigiu. Depois que terminou de guardar a guitarra, pegou a bolsa, fuou dentro dela e achou a chave 
do carro. Deu trs beijinhos em todos os amigos, menos no namorado. Despediu-se de Serginho com um aceno formal e distante. Virou as costas e saiu.
Ela queria mesmo que Serginho passasse por aquele mal-estar, queria que ficasse envergonhado para ver se ele enfim resolveria o problema.
Serginho viu a namorada sair, sem dizer nada. Estava danado da vida com ela. No queria brigar na frente dos amigos e deixou que Paula fosse embora. Logo Renato 
estava com as chaves do carro do pai e em alguns minutos tomavam o caminho da casa de Serginho.
 P, Renato, desculpa, foi mal tirar voc de casa.
 Tem problema no, Serginho. T muito tarde pra voc ficar andando por a sozinho.
 Mas  chato, cara! Que custava a Paulinha me dar uma carona?
 Vai ver ela estava muito cansada mesmo, Serginho. Sei l! Vai ver que  algum problema de mulher...
 Chatice, isso sim  que ... Chatice de menina mimada. Ela quer que eu pegue o carro do meu pai ou o da minha me de qualquer jeito. No aceita que eu espere s 
mais alguns meses!
 T ligado que ela cobra isso de voc. Seus pais no deixam, n, Serginho?
 Puxa, vou ficar brigando o tempo todo com eles?
 Mas  ruim mesmo no poder ir aonde voc quer, na hora em que quer, no ? Sei disso, porque briguei muito antes de ter minha carta de motorista. Meus pais acabavam 
por me deixar dirigir. Armava o maior barraco.
 Voc acha que a Paula tem razo, Renato? -perguntou Serginho, inseguro.
 Sei l, cara. S sei que ter independncia foi a melhor coisa que me aconteceu! Poder dirigir, sair para os lugares na hora em que eu quero  muito bom!
Quando Renato o deixou na porta de casa, Serginho sentiu claramente que o amigo, de certa forma, concordava com Paula. Renato o trouxera apenas por gentileza, mas 
achava chato ele depender sempre de um e de outro. Sentiu que, para o amigo, ele ter de tomar conduo tambm pegava mal.
Ao subir as escadas de sua casa, que levavam  porta principal, sentiu-se um idiota, dependente de todo mundo.
Sentiu-se criana e ridculo. Pensou que talvez Paula, afinal, tivesse razo. Ele deveria ser independente o mais rpido possvel. Estava comeando a pegar mal e 
no queria que os amigos pensassem que era um boboca medroso. Eram seus amigos mais prximos e ele no agentaria que o achassem fraco ou infantil! Talvez devesse 
comprar a moto; se comprasse, tudo estaria resolvido! Teria sua locomoo e iria para onde quisesse, na hora em que bem entendesse, sem depender de ningum! Seria 
livre. E no teria de dar satisfao aos pais, ao passo que aguardando que liberassem o carro sempre teria de dar explicaes e no poderia us-lo  vontade. Paula 
tinha razo: ele no iria fazer o que quisesse, quando quisesse... E para comprar um carro no tinha dinheiro... Alm do mais, seus amigos iriam achar o mximo ele 
ter uma moto!
Serginho entrou e encontrou a me assistindo  televiso na sala.
 Poxa, meu filho! Por que chegou to tarde?
 Tivemos de esticar um pouco mais o ensaio, me.
 Mas, Serginho,  perigoso ficar at tarde na rua! E voc levanta cedo amanh. Pelo menos poderia ter avisado, ligado!
 Sabe como , me: s mais uma msica, s mais uma vez, e a coisa foi indo sem que a gente percebesse. T cansado pra caramba!
 Ento v descansar, meu filho. V deitar-se logo. A me desligou a televiso e foi deitar-se tambm. Serginho adormeceu com aquele pensamento fixo e na manh seguinte 
j havia definitivamente decidido.




Captulo 4
Momento de unio

Serginho acordou atrasado e apareceu na cozinha cambaleando de sono. Dona Eugnia j estava a todo vapor preparando o caf da manh. Ele se aproximou da me e beijou-a 
com carinho.
 Bom dia, me.
 Bom dia, meu filho.
 Estou atrasado.
Mas d tempo de tomar seu caf. J est tudo pronto. Senta.
Seu Felipe, quase pronto para sair, entrou na cozinha.
 Bom dia, Serginho.
 Oi, pai.
Seguiu-se prolongado silncio. Dona Eugnia queria chamar a ateno do filho por chegar to tarde. Sabia que aquele ano era muito importante para seu futuro, uma 
vez que estava prestes a escolher sua profisso! E a profisso das pessoas  algo essencial, que define todo um futuro. Dona Eugnia tinha isso muito claro e seu 
Felipe tambm, mas como fazer o filho entender? Foi Serginho que rompeu o silncio:
 Poxa! Que silncio! T tudo bem por aqui?
 O que voc acha, Serginho?
 Sei l, pai. Que silncio chato!
 Voc j sabe da nossa opinio quanto a esses ensaios at to tarde. Pode ensaiar, ter sua banda, tudo bem, meu filho. Ns entendemos. Mas precisa aprender a perceber 
os limites e manter tudo em equilbrio.
 T tudo certo, seu Felipe. Que coisa! Vocs se preocupam demais. Demais! No tm motivo pra isso, no!
 Sei, Serginho, sei. Voc  que sabe de tudo, no ?
 P, pai, no  isso! Mas t tudo sob controle. T tudo certo. Eu t feliz! Isso no  o mais importante? T curtindo muito a banda, os ensaios. E ainda mais agora, 
que tivemos a brilhante idia de estrear oficialmente a banda no meu aniversrio!
Dona Eugnia se animou:
 E uma boa idia, meu filho. Estou pensando em fazermos naquele salo, Felipe, naquele que conhecemos outro dia.
 Pode ser. O lugar  bom e o preo, razovel.
 Onde fica? - perguntou Serginho entusiasmado.
 Perto da sua escola. E um salo especial para eventos que inauguraram h uns trs meses. Muito bonito.
 Legal. Pra mim t timo. Se der pra instalar a banda... D pra fazer um palco?
 J tem palco no salo, por isso acho que o lugar vai ser timo para vocs apresentarem a banda...
 Maravilha! Vou falar pro pessoal que j decidimos o lugar. Vai ser fantstico!
 , filho, est tudo perfeito; s insisto com voc para que no chegue to tarde em casa. Vocs tm de aprender a equilibrar tudo na vida. E alm do mais,  perigoso 
voc ficar por a, tomando conduo tarde da noite.
 Eu vim com o Renato. Ele me deu carona. Mas vou resolver isso logo, logo. Quero ter minha independncia e j sei como resolver esse problema. Vocs no precisam 
se preocupar, no vou mais depender da carona de ningum, nem vou precisar de conduo tarde da noite.
 ... Logo voc tira sua carta e poder usar o carro; mesmo assim, teremos de nos organizar...
Levantando-se da mesa Serginho beijou a me e disse:
 No se preocupa, me. No vou precisar do carro de vocs. Quero ser realmente dono do meu nariz. Vou resolver de outro jeito.
 Como?
Serginho no deu tempo para que a me dissesse mais nada. Entrou no quarto e em alguns minutos j estava pronto para sair.
 Serginho - insistiu dona Eugnia -, do que voc est falando?
 Depois conversamos, me. Estou atrasado.
 Apenas me diz, meu filho: como voc pretende resolver seu problema de conduo? - insistiu dona Eugnia preocupada, pois tinha muito medo de que o filho decidisse 
comprar moto.
 Vou comprar uma moto - respondeu Srgio, batendo rapidamente a porta de entrada atrs de si, descendo as escadas da casa e sumindo na esquina.
No deu tempo de ningum responder. Dona Eugnia voltou para a cozinha desconsolada.
 Ah, meu Deus! Era isso que eu temia, Felipe!
 No se preocupe, Eugnia.
 Como no me preocupar, Felipe? Como? Voc sabe os perigos que correm os jovens por a, dirigindo essas motos sem qualquer responsabilidade?
 Ele no vai comprar moto alguma, Eugnia.
 Mas voc ouviu. Ele falou que vai e voc sabe como  esse menino quando pe uma coisa na cabea! Teimoso! Teimoso demais!
 Ele no vai comprar moto nenhuma! Ah, no vai mesmo! No enquanto morar nesta casa. No quero e no vou autorizar! Pode ficar tranqila, Eugnia. Converso com 
ele depois e deixo as coisas bem claras.
Dessa vez, dona Eugnia no respondeu nada. Suspirou fundo e sentou-se para tentar tomar o caf da manh. Logo Fbio e Sueli apareceram e ela distraiu-se com os 
dois. Contudo, a preocupao no abandonava seus pensamentos, zunindo como um mosquito na sua orelha:
 Que vou fazer? E se ele comprar mesmo a bendita moto? A  que eu no durmo mais...
Dona Eugnia passou o dia preocupada com Serginho. A noite ela participava de um grupo de estudos do Evangelho, em um centro esprita. Chegou sentindo-se cansada 
e impotente, mas determinada a pedir orientao e ajuda para o filho e a famlia.
A noite transcorreu de maneira especial. Dona Eugnia, que entrou pesada e inquieta, sentiu-se cada vez mais leve ouvindo a leitura do Evangelho da noite, que coincidentemente 
falava sobre a famlia - esses fortes laos que nos unem uns aos outros muito antes de virmos para a Terra. A lio realava a importncia da realizao do Evangelho 
no Lar, como forma de estabelecer momentos de maior troca e entendimento entre as pessoas de uma famlia, cultivando o amor e a tolerncia, incentivando uns a apoiarem 
os outros, transmitindo foras e consolo nas situaes difceis.
Dona Eugnia, que em casa fazia o estudo do Evangelho quase sempre sozinha, saiu naquela noite sentindo que tinha recebido uma orientao clara e capaz de ajud-la.
Era isso mesmo! Ela iria insistir para que sua famlia participasse do Evangelho no Lar, e assim, unidos, poderiam conversar sobre seus problemas. Seria um momento 
em que, alm de estudar os ensinos de Jesus e de orar juntos, poderiam discutir suas experincias, a vida pessoal de cada um. Dona Eugnia sentiu-se mais aliviada, 
imaginando a ajuda que o Evangelho no Lar poderia significar para todos.
Ao chegar em casa, seus filhos j estavam l. Ela respirou mais aliviada e se perguntou como no havia tido essa idia antes.  claro que o Evangelho seria um momento 
perfeito para estar mais perto dos filhos, participando da vida deles e podendo compartilhar com todos o que sentia e pensava. Sabia que naqueles minutos de recolhimento 
e preces poderiam receber auxlio! Agora precisava saber como organizar as coisas de modo a envolver a famlia. E logo pensou que deveria escolher dia e hora em 
que todos pudessem participar: segunda-feira  noite todos estavam disponveis; Serginho no tinha ensaio e nenhum outro compromisso. Estavam na quinta-feira e teria 
alguns dias para todos se organizarem. Na prxima segunda-feira  noite iniciaria o Evangelho no Lar1, juntamente com a famlia.
Comeou naquela mesma noite, conversando com o marido:
 Felipe, estive pensando muito sobre o Serginho, e os nossos outros filhos. As famlias vm sofrendo muitas dificuldades, voc no concorda?
 Sem dvida, Eugnia. Sinto que as famlias esto se tornando cada vez mais vulnerveis, mais frgeis, sei l...
 Acho que entendo. E cada vez mais difcil ensinarmos aos nossos filhos aquilo que sabemos ser importante para eles. No  mais possvel impor sem conversar, e 
conversar tambm tem se tornado difcil.
 Concordo com voc. Mas o que fazer?
 Eu tive uma idia. Voc sabe que j h algum tempo venho estudando o Evangelho aqui em casa, com dia e hora marcados, e isso me tem feito muito bem. Gostaria de 
estender esse estudo a todos; quer dizer, gostaria que estudssemos juntos o Evangelho.
 Mas o que isso tem a ver com as questes de famlia, Eugnia? Isso  uma questo religiosa!

10 Evangelho no Lar: mais informaes em notas complementares
 No, Felipe. Esse pode ser um momento precioso para orarmos juntos, estudarmos os ensinos de Jesus, e termos ocasio de conversar e discutir os problemas de todos! 
Voc no v?  perfeito!
 Sei que voc quer o melhor para todos ns, e aprecio muito seu empenho, porm voc conhece meu ponto de vista. No quero obrigar meus filhos a terem religio!
 No se trata de ter religio, Felipe. Trata-se de abrirmos um tempo em nossas vidas para juntos buscarmos Deus e, sob sua orientao, o amor e a unio!
 Voc pode fazer o que quiser, Eugnia, no vou impedir, mas no gostaria de participar. Eu me sentiria obrigado, e no quero fazer nada obrigado.
Eugnia baixou a cabea entristecida e no disse mais nada. Permaneceram os dois em silncio. Percebendo a frustrao da esposa, Felipe considerou que no haveria 
mal algum, e lhe disse por fim:
 Olhe, Eugnia, embora sem participar, eu posso apoi-la. Comece com as crianas. Quem sabe me animo e tambm participo?
 Mesmo, Felipe?
  claro! Voc inicia esse... como se chama?
 Evangelho no Lar.
 Isso. Comece a fazer o Evangelho no Lar com eles. Tente com cuidado, no force nada. Todos iremos respeitar, mantendo o silncio na casa.
 Isso  importante.
 Ento. Apoio voc em seu empreendimento. O que
acha?
Eugnia sorriu, abraou o marido e afirmou, pensando
alto:
 J  um comeo! Vou conversar com eles amanh. Estou planejando para segunda-feira. O que acha?
 Acho timo.
 Ento est decidido. Segunda-feira. Obrigada pelo apoio, Felipe.
Eugnia no perdeu tempo e no dia seguinte, durante o almoo, informou os trs filhos da nova atividade que se desenvolveria em casa.
 Ah, me! Que coisa chata!
 Vai ser muito bom para todos, Serginho!
 Ficar rezando, me? Voc acha isso bom? Eu no acho. E uma coisa muito ntima! Cada um tem de fazer por si!
 Concordo, meu filho, sem dvida alguma, o que no impede que tambm faamos isso juntos. Vai ser muito bom para todos ns!
To veemente e enftica foi dona Eugnia que Serginho no disse mais nada. Ela informou a todos dia e horrio, para que ningum se atrasasse. A partir da prxima 
segunda-feira se reuniriam semanalmente para orar, estudar e conversar. Eugnia sentiu-se feliz! Tinha muita esperana de que aqueles momentos ajudassem a manter 
sua famlia unida e forte diante dos desafios da vida.
O final de semana passou rapidamente e logo j era segunda-feira. O horrio se aproximou e dona Eugnia ficou ansiosa. Serginho no aparecia e no chegou at a hora 
combinada. Apesar disso, ela estava determinada.
 Vamos comear. Fbio, Sueli, venham para a sala.
 E o Serginho, e o pai?
 Seu pai tem muitos compromissos, meu filho. Talvez seja difcil para ele participar. Seu irmo, sim, deveria estar aqui. Mas isso no importa, vamos comear sem 
ele.
 Tambm no quero, me...
 Fbio, meu filho, antes de sermos contra alguma coisa que no conhecemos, e que nos dizem que pode ser muito boa, precisamos conhec-la.
 ...
 Ento, meu filho. Vamos comear hoje uma coisa muito boa para todos ns. Voc vai ver, vai me agradecer depois.
 Acho que ser bom mesmo, me. Acho muito boa a idia de orarmos juntos.
 Tenho certeza de que vai ser muito bom, Sueli. Dona Eugnia, Sueli e Fbio fizeram o Evangelho no
Lar em conjunto pela primeira vez e foi uma experincia agradvel para todos. No final, Sueli afirmou:
 Puxa, achei legal, me. Senti um calor aqui no peito!
 E voc, Fbio, o que achou?
 ... Foi legal! Gostei.
Dona Eugnia sentiu-se satisfeita! O primeiro passo havia sido dado.




Captulo5
Livre escolha
Entre os treinos para o campeonato de vlei e a msica, o tempo ia passando. Os preparativos para o aniversrio de Serginho e a apresentao da banda se intensificavam.
 Estou exausto, me!
 Estou vendo, meu filho, estou vendo. Como vo as
aulas?
 T tudo certo. As notas esto razoveis.
 Voc acha que passa no vestibular com notas razoveis, Serginho?
 Sei l, me. Tenho de passar!
 Voc sempre acha que tudo vai acontecer do jeito que quer, no  mesmo, meu filho?
 Claro, me! E como haveria de ser?
 Serginho, voc no  mais criana. As coisas no so sempre do jeitinho que a gente quer. Precisamos aprender a entender a vida, por que e como as coisas acontecem!
  Me, eu vou chegar aonde sonho, voc pode ter certeza!
 Claro que vai. No estou dizendo o contrrio. Apenas tem de aprender que existem leis maiores e que tais leis no so controladas por ns!
 T bom, me! T bom! Ah! J ia me esquecendo: hoje vou assistir a um show do Skank. Voc me empresta o carro, me? S desta vez!
 Nem pensar, Serginho. Voc j sabe minha posio. Enquanto no estiver com a carteira de motorista no posso deixar voc com o carro, filho. Sou responsvel!
 Me, voc sabe que dirijo bem!
 Eu sei, filho. Mas  a lei!
 Vocs no me entendem, n, me?! Sempre os outros, a lei, tudo  mais importante do que eu!
 No  isso, filho. O problema  que se pegam voc dirigindo sem carteira ou se - Deus me livre! - acontece alguma coisa, ns, eu e seu pai, seremos os responsveis. 
No posso de jeito nenhum, filho. E no se discute mais.
Dona Eugnia saiu da cozinha e continuou seus afazeres, deixando bem claro para ele que no adiantava insistir.
Serginho saiu de casa revoltado e, batendo a porta com fora, desceu as escadas falando baixinho:
 Eu vou comprar essa moto e acabar de vez com este suplcio! No agento mais!
Quando o show terminou, os amigos estavam ainda mais entusiasmados com a banda; sabiam que um dia poderiam estar em cima de um palco, fazendo um espetculo como 
aquele a que acabavam de assistir.
Serginho combinou voltar com o pai de Tiago, que iria busc-los e deixaria Paula e ele em casa. Como o show terminou um pouco antes do previsto, tiveram de ficar 
aguardando o pai do amigo. Paula, ento, insistiu novamente com o namorado:
 Que desagradvel ter de ficar aqui plantada, esperando!
 No reclama, Paula. Ainda bem que o pai do Tiago vem buscar a gente.
 Por qu? Se voc tivesse a moto a gente j estaria em casa.
 Meu pai chega logo, Paula. J liguei avisando que o show terminou. Ele est a caminho.
 Tudo bem, Tiago. No  esse o problema, cara. Acho teu pai legal, um barato!  que acho que o Serginho j podia estar mais independente!   isso que me enche a 
pacincia!
 Ele j tem quase dezoito, Paula. Logo essa parada estar resolvida.
 Duvido! Os pais dele no vo liberar o carro sempre que ele quiser.
 Paula, que coisa! A gente falou sobre isso tantas vezes que j cansei!
 Eu vou continuar falando. No vou desistir! Vou continuar buzinando na sua orelha. No agento mais! No quero nem saber! No vou agentar at voc completar dezoito 
anos!
 T bom, Paula. Voc me venceu pelo cansao. Amanh vou comear a pesquisar os preos, ver quanto tenho exatamente, e vou procurar a moto! T bom assim?
 Voc t falando srio, Srgio? Ou t tirando uma com a minha cara?
 T falando srio! Alguma vez eu disse que ia comprar a moto?
 No, nunca.
 Ento pode levar a srio!
 E a sua famlia? - perguntou Tiago.
 O que  que tem?
 Seus pais vo deixar?
 , Tiago, qual ? D uma fora pro teu amigo ficar mais independente, vai!
 S estou perguntando se os pais dele vo deixar, porque os meus fizeram o maior escndalo quando apareci em casa com essa mesma idia.
 Eles no podem me impedir, Tiago. J tenho o dinheiro. S preciso encontrar uma que esteja boa e com um preo legal, a fecho o negcio.
 Ento est timo! Parabns pela deciso! Serginho ficou satisfeito com a reao do amigo e da
namorada, que o abraou apertado e aconchegando-se ao seu peito lhe falou:
  isso que espero de voc, Serginho. Atitude! Aguardaram mais um pouco e o pai de Tiago chegou, levando-os para casa.
No dia seguinte, sem pensar duas vezes, Serginho saiu da cama decidido a dar prosseguimento a seus planos. Logo cedo foi abrindo o computador e verificou no site 
de carros e motos como andava o valor das motocicletas usadas no mercado; sim, porque ele sabia que no ia conseguir comprar uma nova. Aproveitou e verificou o saldo 
em sua caderneta de poupana, constatando que tinha economizado o suficiente para comprar uma moto quase nova, com uns dois ou trs anos de uso. O dinheiro que tinha 
disponvel daria para comprar uma de baixa cilindrada; e ele nem queria que fosse das mais potentes, pois assim a manuteno ficaria mais barata.
Quando se certificou de todos os valores, desligou o computador entusiasmado, ao mesmo tempo em que uma pontinha de medo surgia. Serginho, porm, no queria deixar 
a dvida domin-lo. Estava decidido e pronto! Agora, nada mais o deteria. Queria de todo jeito acabar com aquele incmodo de depender de tudo e de todos. Queria 
ser livre! Fazer o que quisesse sem pedir mais nada a ningum! E, conversando consigo prprio, relacionava as vantagens que teria se comprasse a moto. Enumerava-as 
mentalmente e sempre pensava em Paula. Tinha certeza de que ficaria ainda mais apaixonada por ele!
Ao chegar ao colgio foi direto ao painel de anncios classificados dos alunos e professores. Estava com sorte. Havia muitos anncios de motos. Um deles chamou sua 
ateno, pois parecia perfeito, sob medida para ele. Era aquela a moto que desejava: uma tipo street, com 350 cilindradas. O preo estava em cima e sentiu, pelo 
tom do texto, que ainda conseguiria negociar um pouco o valor e o pagamento. Ligou para o celular citado no anncio e conversou com o rapaz que era dono da moto. 
Marcaram de se encontrar para que ele a visse.
Quando encontrou Paula, j tinha dado todos os passos para concretizar o negcio. Calculava como iria negociar com o rapaz. Convidou-a a acompanh-lo naquela tarde 
a um lugar especial.
 O que vamos fazer, S?
  surpresa, Paula. No vou falar. Voc vai saber quando chegarmos l.
 Ah... Fala logo, voc sabe que no gosto de surpresas...
 No vou contar, no.
 Mas  surpresa boa?
  tima. Tenho certeza de que voc vai adorar.
 O que ? Me conta, vai. Ou nem vou conseguir prestar ateno direito  aula!
 Trate de se controlar, Paulinha, pois s vai saber na hora. Pode ter certeza de que vai gostar.
 No tem jeito de voc me contar?
O sinal tocou interrompendo a conversa. Serginho levantou-se, pegou seu material e subiu as escadas correndo:
 Espere e ver. Voc vai gostar.
E no deu tempo de Paula dizer mais nada. Ela tambm pegou seu material e subiu pensativa e entusiasmada. Tinha quase certeza de que era a moto. S podia ser...
Paula passou a aula inteira distrada, imaginando qual seria a surpresa, se era mesmo a moto. No intervalo ainda tentou fazer o namorado falar; mas ele fugiu, conversando 
com Tiago e Renato, e avisou que iria chegar mais tarde ao ensaio daquela noite. Tambm dos amigos Serginho escondeu o que pretendia fazer. E s conseguia sonhar 
com a moto. Ficou pensando nela, em como seria estar completamente livre para ir a qualquer lugar. Junto com a ansiedade vinha certo receio que ele afastava a todo 
momento. Estava escondendo da famlia aquela deciso e sabia que poderia causar dor aos pais; a despeito disso, j se via indo para c e para l com seu prprio 
meio de transporte e ficou alucinado com a sensao de liberdade j antecipada.
Ao final da aula confirmou com Paula se podiam encontrar-se no metr. Ela torceu o nariz, pois detestava andar de nibus ou de metr, mas, curiosa, concordou sem 
maiores perguntas. Percebeu que no adiantaria insistir com o namorado, que continuava fazendo ares de mistrio.
Antes do horrio marcado Serginho j estava l e mal conseguira comer. Paula chegou um pouco atrasada, e logo se puseram a caminho. Serginho estava com as mos frias 
e suava.
 O que voc tem, Serginho? Suas mos esto to frias!
 Estou meio nervoso, Paula.
 Por qu?
 S estou meio ansioso, poxa vida. No  todo dia que eu compro...
 Compra o qu? Conta logo! Vamos ver uma moto, no ?
 Voc estraga toda a surpresa, Paula!
  mesmo, meu amor, vamos comprar sua moto?
 Vamos ver se est boa.
 Puxa, Serginho! Que mximo! E verdade? Vai finalmente comprar a moto?
Serginho sorria satisfeito com a reao da namorada.
 Que remdio?
 Voc vai ver como vai ser legal! Tudo vai ficar mais fcil!
 S no vai dar pra carregar a bateria nela!
 Ah... No faz mal, Serginho... No tem problema! Se precisarmos, alugamos uma Van pra transportar os nossos equipamentos! Isso por enquanto, pois no futuro teremos 
nosso prprio nibus.
 E s para os equipamentos! Ns vamos em outro nibus, quando tivermos turn!
  isso mesmo! Podemos ter um caminho enorme para os equipamentos e um nibus pra ns. Tudo com adesivos gigantescos, fazendo a divulgao da banda.
 J pensou?
 Falando nisso, j pensou no nome para a banda?
 Ainda no. E voc?
 Tambm no, mas precisamos achar um nome. E tem de ser muito forte, para que ningum esquea!
 Vamos achar, Paula, vamos achar. Falando em achar, chegamos.  aqui.
 Neste prdio?
Serginho conversou com o rapaz na portaria e em alguns minutos estavam no estacionamento do prdio com Evandro, um rapaz de seus vinte e poucos anos, que mostrava 
a moto aos dois.
Serginho observou todos os detalhes atentamente, assim como Paula. No deixaram escapar nada, nenhum detalhe que fosse. Perguntaram tudo. Serginho deu algumas voltas 
na garagem junto com Paula e j se sentia dono da moto. Quando encostou, disse ao rapaz:
 Bom, Evandro, qual  o melhor preo que pode me fazer?
  aquele que conversamos, cara. No d pra tirar nada.
 Voc disse que podamos conversar.
 , cara, mas voc viu a moto, t novinha!
 T nova, mas o preo t meio alto.
E ficaram l negociando e conversando. Paula j estava at entediada, quando finalmente Serginho disse ao rapaz:
 Pense nessa minha oferta. Amanh voc me responde.
 No d, cara, no d.
 Pense, cara. Pago em dinheiro vivo.
 No d.
 Pense. Amanh te ligo e voc me d a resposta. Se topar, fechamos na hora.
Antes que Evandro pudesse responder, Serginho despediu-se e, puxando Paula, saram do prdio.
 P, Serginho, e se ele no quiser vender?
 Vai vender, Paula. Essa moto  minha!
 Acha mesmo?
 No tenho dvida. Sinto aqui dentro. Paula sorriu satisfeita.
***
Dona Eugnia, seu Felipe, Sueli e Fbio jantavam animados quando Serginho chegou. Estava srio e logo se juntou  famlia, mantendo-se, entretanto, calado. Seu Felipe 
contava algumas de suas difceis reunies daquele dia e falava dos problemas que vinha enfrentando com os hospitais. Ele vendia equipamentos mdicos e os hospitais, 
especialmente os pblicos, estavam com pagamentos atrasados. De quando em quando dona Eugnia observava o filho, que permanecia calado, pensativo. O jantar ia terminando 
quando Fbio perguntou:
 E o show do Skank, foi legal?
 Foi fantstico, Fbio, s a volta  que foi complicada -emendou Srgio rapidamente, aproveitando a deixa do irmo.
 Por qu?
 Tive de ficar plantado mais de uma hora esperando o pai do Tiago ir buscar a gente.
Dona Eugnia, j imaginando onde o filho queria chegar, foi logo dizendo:
 E da? O que tem isso de mais? Antigamente a gente ficava horas esperando conduo, no , Felipe?
 . Antigamente no tnhamos tantas facilidades quanto vocs tm hoje em dia.
 T legal, pessoal, t legal. No vai adiantar. Eu j decidi. Vou comprar a moto. No quero mais ficar de carona pra l e pra c.
 Filho, ns j falamos sobre isso - interferiu enrgico seu Felipe.
 E eu j disse o que quero fazer, pai. Daqui a algumas semanas tenho dezoito anos, da tiro a carteira do carro e da moto e tudo certo.
 Serginho, esse no  o ponto. Moto  muito perigoso. Muitos jovens perdem a vida todos os dias em acidentes. Eu me canso de ver isso acontecer, e s vezes do meu 
lado.
 Que horror, pai.  mesmo?
 , Sueli.
Dona Eugnia reforou, preocupada:
 Pudera! Parecem uns loucos dirigindo. Andam no meio dos carros, costurando, agem como se fossem inatingveis, como se nada lhes pudesse acontecer.
 Tambm acho errado quem dirige desse jeito. Eu vou ser muito mais cuidadoso, me.
 Voc no vai andar de moto, no , Serginho? Por favor! - pediu Sueli.
 No se preocupe, Sueli. Vou dirigir bem devagarinho. No vou fazer nenhuma ultrapassagem...
Seu Felipe interrompeu o filho, irritado:
 J disse que no quero moto aqui em casa, Serginho. No vou admitir. E muito perigoso. Voc estar pegando o carro em alguns dias,  s aguardar um pouco mais.
 E vou poder ter um carro s pra mim? Ir aonde eu quiser, na hora em que eu quiser?
 Teremos algumas regras para que as coisas funcionem bem.
 Sempre as regras, as normas, as ordens... J tenho dezoito anos! Sei muito bem cuidar de mim! E quero comprar a moto! Quero cuidar da minha vida do meu jeito!
 Olha, Srgio, no vou repetir. No vou admitir esse tipo de atitude aqui dentro. No quero que voc compre moto alguma. E ponto final! No se discute mais o assunto!
Sueli pediu, chorando:
 No quero que voc ande de moto por a, Serginho,  perigoso! O pai tem razo! No quero que voc morra!
 Que morrer, que nada, Sueli! Eu sei me cuidar! Serginho gritava. Levantou-se e, indo para o quarto,
bateu com toda a fora a porta atrs de si. Seu Felipe ergueu-se imediatamente aps o filho e dirigiu-se a Sueli:
 No precisa chorar, ele no vai comprar moto nenhuma!
Abrindo a porta do quarto do filho, disse firmemente:
 E no quero que bata a porta! Estvamos conversando, mas parece que voc no sabe o que  isso. S sabe gritar e impor sua vontade!
        Sou eu que estou impondo minha vontade ou  voc?
 Estou tentando explicar as minhas razes, conversando. Acontece que s vezes  impossvel conversar com voc, filho! Voc fica irracional!
 Voc quer que eu faa tudo o que voc quer! Do jeito que voc quer! A ento fica contente!
 Isso no  verdade! Dou fora em tudo o que voc quer fazer! Veja o caso da banda. O que me diz? Alm de dar a bateria, vamos fazer tudo para que possam se apresentar 
no seu aniversrio! Mas sou seu pai, e estou tentando preservar voc.
 Eu j sei tomar minhas decises, pai. E voc no quer deixar.
 No est pensando em todos os aspectos, filho. Usar moto  muito perigoso e, numa cidade grande, no d! Eu no vou mais discutir isso com voc. E assunto encerrado 
e no adianta me aparecer aqui com moto nenhuma, pois eu sumo com ela!
Seu Felipe saiu e fechou a porta. Serginho permaneceu fechado no quarto at a hora do ensaio, quando Renato chegou buzinando e ele saiu apressado.




Captulo 6
Lvia
Dona Eugnia se deitou cedo, mas rolava na cama, pensando e repensando sem poder dormir. Um aperto no peito a fazia pensar no filho e sentia medo. Sabia que quando 
Serginho colocava uma idia na cabea, ningum tirava; no aceitava nenhum tipo de conselho. Por isso temia pelo futuro. Afastava os pensamentos ruins da cabea, 
tentando crer que dessa vez convenceria o filho a no comprar a dita moto. Ao mesmo tempo, sabia que no iria adiantar e que mais cedo ou mais tarde ele apareceria 
com a tal em casa. E ento, como seria? A preocupao agora era com o marido. Pai e filho iriam se desentender de novo! E ela queria muito que a harmonia se fizesse 
em sua casa. Em determinado instante, preocupada e aflita, comeou a orar a Deus pelo filho e pela famlia. Pedia proteo, ajuda. Foi orando que ela pouco a pouco 
se acalmou e adormeceu.
Teve, ento, um sonho agradvel e inesquecvel: Lvia, a. sobrinha do marido que havia partido para a ptria espiritual h quase quinze anos, aproximava-se dela 
e conversavam. Despertou sentindo uma suave serenidade a envolv-la, recordando o rosto meigo de Lvia a sorrir e falar com ela. Embora se esforasse, no lembrava 
o que haviam conversado; s a expresso de Lvia no lhe saa da mente.
Enquanto tomava o caf, naquela manh, continuou pensativa, tentando lembrar o que Lvia lhe havia dito. No conseguia. Somente a imagem de Lvia permanecera clara 
em sua memria. Para dona Eugnia, aquilo poderia ter sido mais do que apenas um sonho. Sabia, pelos livros que lia e pela prpria experincia, que muitas vezes 
 possvel, quando se dorme, contatar de verdade com aqueles que j partiram para o outro lado da vida2. E se Lvia houvesse vindo lhe dizer algo importante? No 
conseguia parar de pensar no sonho, principalmente porque sentia uma imensa suavidade, ao recordar o rosto da sobrinha.
Durante o caf, no comentou nada com ningum, porm todos perceberam que estava mais calada do que o normal. No entanto, ainda quietos por causa da discusso da 
noite anterior, e apreensivos com a histria da moto, no perguntaram nada. Sueli e o pai sabiam que ela devia estar preocupada com Serginho, que ainda dormia quando 
todos saram, aps terminarem o caf da manh.
Durante o jantar dona Eugnia mantinha-se pensativa e quase no conversava. Seu Felipe e Fbio falavam sobre futebol, esporte de que o pai gostava muito. Sueli, 
em silncio, observava a me. Quando estavam na sobremesa, seu Felipe perguntou:
 Ainda preocupada com Serginho, Eugnia?
 Estou, Felipe.
 No se inquiete tanto, ele no fica um dia sequer com uma moto dentro desta casa.
 , me! Voc est pensativa o dia inteiro.
 No  s o Serginho que ocupa meus pensamentos,
Sueli.
2 O contato com o plano espiritual durante o sono: mais informaes em notas complementares
 O que  ento, me?
 Tive um sonho, Felipe, muito estranho...
 Foi de medo, me? - indagou Fbio, que morria de pavor de ter pesadelos.
 No, Fbio, foi um sonho bom.
 Como foi, me? Conta!
 Sonhei com Lvia, Felipe. Ela estava linda e sorria para mim.
 Aquela prima nossa que morreu faz anos, me? -perguntou Sueli, interessada.
 Quem, me, quem? - interrogou Fbio, curioso.
 A filha da tia Zulmira, irm do papai.
 Ela tambm morreu, n, me?
 Tambm, no ano passado; a Lvia foi embora antes, filho, bem antes.
 , faz... Quanto tempo? Sueli franziu a testa e fechou momentaneamente os olhos, esforando-se para recordar o rosto da prima, que havia visto muitas vezes em 
fotografias.
 Acho que uns quinze anos, Sueli. O Serginho era bem pequeno, tinha uns trs anos...
 E por que ficou to impressionada com esse sonho, Eugnia? Voc sonha tanto!
 E que nunca havia sonhado com ela antes, Felipe. E foi um sonho bom...
 Ento por que a preocupao?
 No sei... Talvez por no me lembrar do que conversamos, do que ela falou... Gostaria de saber por que sonhei com ela... E acho que... Bem...
        O que, me? Fala! - insistiu Sueli, curiosa.
  Acho que no foi somente um sonho...
 Como assim, me? - perguntou Fbio, assustado. Dona Eugnia observou o olhar do marido, que
sempre reprovava quando ela vinha com histrias de espritos, de mortos, desse tipo de coisa. Sueli ficava interessada e queria saber mais; j Fbio morria de medo 
e s vezes, depois de conversas assim, tinha pesadelos. Por isso seu Felipe tinha pedido  esposa que no falasse desses assuntos na frente dos filhos. De nenhum 
deles.
 Deixa pra l, Sueli. Foi um sonho bom, isso  o mais importante. Fiquei feliz em ver a Lvia,  s isso. Estava com saudade dela.
Mais tarde, os filhos j deitados, dona Eugnia e seu Felipe conversavam outra vez sobre o sonho.
 No sei por que voc ficou to perturbada com o sonho, no entendi.
 E que no me pareceu um sonho, Felipe. Foi como se tivesse me encontrado com Lvia de verdade!
 Acho que voc est impressionada, Eugnia. Est preocupada com o Serginho, com aquela conversa da moto e tudo o mais. Acho que ficou abalada e acabou sonhando 
com ela.
 No sei, no, Felipe. Foi como se a tivesse visto.
 Tem uma coisa que no entendo, Eugnia. Se voc diz que o sonho foi bom, que Lvia estava bem, bonita, por que ficou impressionada?
 Porque foi muito real, Felipe, foi real como agora converso com voc. E tambm porque sou incapaz de lembrar o que conversamos. Tento, mas no consigo.
 Vai ver ento que no conversaram!
 Conversamos, sim, estou certa! S no consigo lembrar!
 Deixa pra l, Eugnia! O importante  que foi um sonho bom!
Seu Felipe sorriu para a esposa e ela concordou com a cabea, dizendo:
 , Felipe. Foi um sonho bom.
 Ento esquece!
 Difcil esquecer aquele rosto de anjo!
Ele olhou a esposa outra vez e sorriu, depois continuou organizando o material para o trabalho do dia seguinte. Sabia que a esposa e Lvia eram grandes amigas e 
conhecia muito bem o carinho que dona Eugnia dedicava  sobrinha.
Quanto a dona Eugnia, no conseguia parar de pensar em Lvia. Depois que o marido deitou-se, foi at o armrio onde guardava lembranas da famlia e procurou fotos 
da sobrinha. Encontrou algumas. Sentou-se no sof da sala com todas as fotos nas mos e comeou a record-la.
Lvia fora uma jovem alegre e entusiasmada pela vida. Adorava os tios e os primos, Serginho em particular. Dona Eugnia olhou as fotos de Lvia com Serginho no colo. 
Contava vinte anos quando o primo nasceu e adorava cuidar dele. Serginho tinha igualmente grande carinho por ela; era sua preferida dentre todos os primos e tios 
que o paparicavam. Eugnia e Lvia tambm se queriam muito bem, e Zulmira chegara a ter at certo cime do afeto entre tia e sobrinha. Ela havia sido uma pessoa 
especial, refletia dona Eugnia, observando as fotos.
Lvia nascera prematura, com oito meses de gestao, e era portadora de um problema cardaco que a deixava sempre cansada. Sua sade frgil exigia cuidados e ateno 
constantes, sendo obrigada e estar em hospitais quase semanalmente. Os mdicos haviam prevenido aos pais que a menina poderia no passar da adolescncia, e para 
chegar at l talvez precisasse de algumas cirurgias. Apesar de muitos exames e tentativas dos pais para tratar o problema, era um mal que no tinha como ser totalmente 
sanado. Sua vida foi curta e ao mesmo tempo marcante. Sua ternura para com os amigos e familiares a fazia querida por todos. Quando, na adolescncia, os pais queriam 
que fosse operada sem garantias de superar a cirurgia, ela resolveu que no passaria por aquela situao e que confiava em Deus e entregava a Ele a deciso sobre 
sua vida. Alguns anos depois sua sade tornou-se mais fraca e aos vinte e trs anos ela se foi, deixando em todos muita saudade e um carinho enorme.
Dona Eugnia rememorava e estava com lgrimas nos olhos quando Serginho chegou. Encontrou-a na sala, distrada com os pensamentos e to distante que no lhe percebeu 
a entrada. Ao ver a me emocionada, aproximou-se tmido:
 Oi, dona Eugnia. O que est fazendo a sozinha?
 Oi, filho - disse ela enxugando rapidamente os olhos -, estou aqui pensando em sua prima Lvia. Lembra dela?
 Um pouquinho... Deixa eu ver.
Sentou-se ao lado da me e comeou a olhar as fotos. - Era bonita, n, me?
 Era. Por dentro e por fora.
 Como por dentro, me?
 Tinha uma alma linda, meu filho.
 Como voc sabe, se a alma no se v?
 Mas a gente via as atitudes de amor e carinho dela para com todos. Era um anjo!
 ... Tenho poucas, mas boas lembranas dela... Serginho e a me permaneceram por mais algum tempo
olhando as fotos e relembrando. S bem mais tarde, depois de recordar momentos e rever muitas fotos, resolveram dormir.
Naquela noite, Serginho teve sono agitado, sonhando muito. Acordou diversas vezes e depois voltou a dormir. Nos momentos em que dormia, via-se correndo atrs de 
alguma coisa que no podia identificar. Acordou pela manha de mau humor - aquele mau humor caracterstico de quem no dormiu direito e tem um longo dia pela frente!
Apesar de a me no ter falado da moto, ele sabia que isso a estava incomodando. Chegara tarde de propsito na noite anterior, a fim de evitar mais discusses em 
torno do assunto.
Pulou da cama cedo. O caf ainda no estava pronto quando saiu. No queria conversar com ningum. Sua deciso j estava tomada e ele desejava evitar que os pais 
brigassem com ele. At porque no adiantaria nada, seria perda de tempo.
A me ainda tentou conversar, mas ele saiu rapidinho, a pretexto de que precisava estudar um pouco antes da aula. Quando desceu as escadas e fechou a porta atrs 
de si, sentiu-se aliviado por no ter de voltar ao assunto da bendita moto!
Seguiu para a escola refletindo: por que os pais eram to intransigentes? Matutava que o mesmo ocorria com seus amigos. Os adultos davam a impresso de ser todos 
iguais. Parece que se esqueciam de que j haviam sido jovens um dia. Ele no queria ser adulto; parecia muito chato: o tempo todo preocupado com alguma coisa, correndo 
atrs de alguma coisa, sem se divertir, sem curtir a vida. S responsabilidades, responsabilidades e responsabilidades! Como lhe parecia cansativa a vida de adulto! 
E o pior  que ele prprio estava sentindo o peso da responsabilidade com o vestibular se aproximando, a necessidade de escolher a profisso e tudo aquilo! Como 
era chato! Ele gostava mesmo era de tocar, de namorar, de viajar, de curtir a vida! Adorava as baladas com os amigos! Isso sim  que era bom! E encasquetava sempre 
por que os adultos tinham de ser to preocupados com tudo. Devia haver alguma coisa errada com eles...
Aps a aula, Serginho e Paula encontraram-se novamente com o rapaz que estava vendendo a moto. Serginho convencera-o a vender por um preo ligeiramente mais baixo, 
e a parcelar em duas vezes o pagamento.
 Estou to feliz, Serginho! Nem acredito que voc tomou uma atitude firme e resolveu esse problema!
 Eu disse a voc que iria resolver, no disse?
 Mas disse que no ia comprar a moto, n, Serginho?
 Disse, s que mudei de idia.
 Eu ajudei um bocadinho, no foi?
 Claro que no, Paula! Decidi porque achei que era melhor pra mim, pra ns.
Paula sorriu e no respondeu. Tinha certeza de que tinha contribudo, e muito, para a deciso do namorado.
 S tem uma coisa que no consegui resolver, ainda. Talvez precise de voc pra me ajudar.
 O que ?
 No quero chegar com a moto em casa. Meus pais ainda no aceitaram completamente a idia.
 Srio? T brincando!
 No. Eles no querem que eu compre a moto, foi uma briga danada l em casa quando falei que ia mesmo comprar.
 Pais s vezes so chatos mesmo!
 , mas no quero ficar brigando o tempo todo. Acho que  uma questo de tempo at eles se acostumarem. Posso deixar a moto por uns dias na sua casa?
Serginho no quis contar que o pai ameaara sumir com a moto, caso ele chegasse em casa com ela, e sabia que seu Felipe estava falando srio.
 Tenho uma idia melhor, S. Uma amiga minha mora perto da sua casa. A Suzana, lembra dela? Voc conheceu no dia do campeonato.
 Lembro. Ela tem espao pra guardar a moto l?
 Tem. A casa  grande e tem garagem pra quatro carros. D pra deixar, tenho certeza. Ela  legal e os pais dela tambm no vo se importar. E o melhor de tudo  
que a casa fica a duas quadras da sua!
Poxa, perfeito!
Abraou a namorada, sentindo-se a um s tempo entusiasmado e ansioso. Estavam se aproximando do prdio. Quando chegaram, foi tudo rpido e fecharam o negcio em 
dois minutos.
Serginho saiu de l todo orgulhoso, com a namorada na garupa, e foi assim desfilando at a casa dela. Estava radiante! Antes, porm, passaram onde residia Suzana 
e combinaram tudo; a me dela autorizou sem problemas. Serginho no deu muita explicao: s disse que no tinha lugar para guardar a moto e que seria por pouco 
tempo, at arrumar um espao em sua casa.
Quando deixou Paula, os olhos da namorada brilhavam de contentamento:
 Valeu, Serginho! T feliz! Agora tudo vai ser mais fcil! Que mximo!
Despediram-se. Serginho combinou busc-la mais tarde para o ensaio da banda. "Agora sim - pensava ele -, nada vai atrapalhar meus planos..."




Captulo 7
Enfim, o nome
Os ensaios da banda prosseguiam e se intensificavam, fazendo o grupo melhorar a cada novo encontro. O repertrio para a estria j havia sido escolhido e era ensaiado 
com crescente dedicao e ateno aos detalhes. O entrosamento dos integrantes igualmente aumentava. Tambm, no dava tempo para muitas discusses: o dia da apresentao 
se aproximava rpido. S uma coisa no fora ainda definida: o nome da banda. Todos os dias algum vinha com uma sugesto, sem que chegassem a um consenso. Ora a 
Paula trazia uma idia, outra vez era o Tiago ou o Renato, mas ao analisarem as sugestes no concordavam. Sempre achavam que o nome ainda no era o mais apropriado. 
Entretanto, aquela ausncia do nome j estava dando nos nervos de todos eles. Como iriam apresentar a banda, sem um nome? A ansiedade tambm crescia:
 Como vamos achar o nome certo? Estamos quase no dia da estria, do nosso primeiro show, e ainda no temos nenhum nome legal. Como vamos resolver isso?
 Sei l, Renato! Sei l! - resmungava Tiago, confuso.
 Sei l? No vai fugindo, no, Tiago. Precisamos de um nome!
Paula permanecia pensativa. Tambm estava preocupada. Serginho, que parecia distante, de repente veio com esta:
 E se chamarmos nossa banda de "Os sem nome"?
 Como sem nome? Sem nome o qu? - perguntou Paula.
 A Banda dos Sem Nome. E diferente,  criativo! -defendeu Serginho.
 Ah, Serginho, d um tempo! Parece at coisa de quem no quer pensar!
 Mas, gente...
A idia do rapaz foi unanimemente descartada e ele quase foi linchado pelo grupo. Veja l a que ponto chegavam sem conseguir escolher o nome adequado!
Mais alguns ensaios se passaram e a ansiedade crescia mais e mais. Logo iriam precisar do nome para colocar nos convites, o tempo escasseava e nada de ele aparecer. 
Tinham idia para tudo, menos para isso!
E o nervosismo crescia, insuportvel.
Naquele dia Serginho chegou irritado, sem perceber que uma msica de sua banda preferida no lhe saa da cabea. Ele no deu muita ateno, e a msica continuou 
martelando o tempo todo. Mal conseguia ensaiar, porque a todo momento a cano vinha  sua mente.
Em um intervalo no ensaio, Serginho cantarolava baixinho, sem perceber o qu.
 "Se duvidar eu tenho mais de um mar de provas, se duvidar..."
Aquilo chamou a ateno de Paula, que indagou ao namorado:
 Que msica  essa a, Serginho? T cantando desde que chegou!
 Cantando? Eu no estou cantando.
 T, sim, cantando baixinho. Espera a, acho que sei que msica .
Paula esforou-se para lembrar, e por fim disse:
 E "Siderado". Voc no pra de cantar essa msica hoje, no sei por qu.
  do Skank? - perguntou Tiago acercando-se do amigo.
 . Do CD com o mesmo nome - afirmou Paula, lembrando-se precisamente -, canta mais um pedacinho!
 "Porque eu te espero na neblina, porque eu te espero no saguo, aeroporto ou esquina e no sol de vero..."
E ele cantou a msica inteira. Dessa vez, todos estavam interessados e Renato perguntou:
 Qual  mesmo o nome dessa msica, Serginho?
 "Siderado".
Sem pensar duas vezes, Paula gritou:
  isso a, gente! Vocs no percebem?  esse o nome do nosso grupo!
 Como assim?
 O nome da msica! Esse ser o nome da nossa banda!
 Por qu? O que tem a ver?
 Voc tem um dicionrio a, Renato?
 Tenho, por qu?
 Pega pra mim.
Sem entender nada, Renato entregou o dicionrio a Paula e todos ficaram em volta esperando para ver o que ela diria.
 Eu sabia! J tinha lido em algum lugar, acho que numa aula de Portugus, o significado dessa palavra. Siderado quer dizer fulminado, aniquilado, perplexo, atordoado. 
E assim que todos vo ficar quando ouvirem nossa banda: siderados!
Surpresos, no sabiam ao certo o que dizer, mas finalmente concordaram satisfeitos que aquele era o nome perfeito para a banda. Estava decidido: Siderado.

Captulo 8
Final de campeonato
Era a final do campeonato interescolar e o colgio estava alvoroado, com um entra-e-sai de gente sem tamanho. Com as portas abertas, a escola do Serginho recebia 
os pais dos alunos, que com outros parentes vinham, corujas, apreciar os dotes dos filhos: todos admirados com as qualidades dos rebentos, que certamente haviam 
puxado a eles nessa ou naquela qualidade!
Ah! Os pais... Esses seres angustiados e em permanente conflito entre o que querem e o que devem fazer... Estavam todos l, entusiasmados e cheios de expectativas. 
Parecia, enfim, uma grande festa.
Dona Eugnia, seu Felipe, Fbio e Sueli compareceram para participar do evento e prestigiar o filho e o irmo. Quando chegaram, as arquibancadas que ladeavam a quadra 
estavam quase lotadas. Foram caminhando devagar entre os degraus tentando encontrar um lugar mais prximo da quadra, pois era exatamente ali que todos queriam ficar, 
o mais perto possvel dos jogadores. Finalmente se ajeitaram junto a alguns pais de outros jovens, que j conheciam. Serginho estudava naquela escola desde pequeno, 
desde o incio de sua vida escolar, e por isso tinha muitos amigos de longa data e as famlias tambm se conheciam.
A algazarra ia aumentando. As torcidas organizadas compostas por garotas uniformizadas foram entrando e aumentando ainda mais a animao. Uma equipe fazia mais barulho 
do que a outra, porm tudo fora ensaiado, antecipadamente preparado. Faziam tudo direitinho, igualzinho. Os pais corujas iam ficando mais e mais animados.
Uma campainha estridente, ensurdecedora, anunciou que a hora do jogo se aproximava. O time adversrio entrou momentos depois. Na realidade, era o favorito. Vinha 
ganhando todos os jogos, desde o incio do campeonato. E ganhava de lavada. As torcidas aumentaram a algazarra, uns para recepcionar e outros para vaiar. Era um 
barulho ensurdecedor.
Depois foi a vez do time da casa, o time do Serginho, e a gritaria foi at maior, embora as torcidas tivessem quase o mesmo nmero de pessoas de um lado e de outro.
Dirceu entrou na frente da equipe, todo empinado. Ele tinha muita confiana de que poderiam vencer os favoritos. Sabia que tinham time para isso; s precisava fazer 
com que acreditassem, confiassem em si prprios. As vezes  difcil crer na prpria capacidade. E mais fcil se achar fraco e incapaz, assim no  preciso se esforar 
tanto, e justificar o fracasso fica mais confortvel. Contudo, Dirceu sabia que se confiassem realmente neles prprios, em quanto j haviam treinado, se tivessem 
muita garra e determinao, acabariam vencendo o jogo. No era contra o adversrio que deveriam lutar, e sim contra as prprias dvidas, os prprios medos; esses 
 que de fato deveriam ser vencidos.
Este havia sido o trabalho dele, como tcnico, nos ltimos dias: fortalecer a segurana da equipe e a f dos atletas em si prprios, to necessria para vencer qualquer 
obstculo. Ele mesmo vira time antes invictos serem derrotados por equipes menores, nas quais a autoconfiana e a vontade de vencer haviam ultrapassado dificuldades 
tcnicas aparentemente insuperveis. E ele confiava naquele time, sabia que todos eram bons de verdade.
Logo atrs do Dirceu seguia Serginho, igualmente confiante. Sabia que poderiam vencer.
Novamente a campainha irritante soou, perdendo-se nos gritos e na barulheira da torcida. Ela avisava que o jogo ia comear.
Todos se posicionaram e o juiz apitou o incio da partida. Primeiro set. Sacava o time adversrio. A princpio ainda um pouco nervoso, gradualmente foi ganhando 
firmeza e comeou a fazer pontos. Marcava sem parar, um aps outro. E o time da casa, o time do Serginho, perdeu feio aquele primeiro set. No conseguiu marcar mais 
de seis pontos.
Durante o pequeno intervalo, a torcida da casa, apesar de assustada, apoiou o seu time. "Ser que vo perder de lavada?" Era o pensamento de muitos nas arquibancadas, 
que no obstante incentivavam a equipe de jovens. Sabiam que seria um jogo difcil, e seguiam estimulando os seus.
O jogo recomeou. Saques e cortadas pra c, saques e cortadas pra l. O time da casa continuava a errar e dava pontos e mais pontos para o outro time, justificando 
sua posio de favorito e fazendo crescer cada vez mais a confiana da equipe, para desespero de Serginho e sua turma, que viam o to sonhado ttulo de campees 
ir desaparecendo de suas mos.
Dirceu sentia que precisava fazer algo, precisava enfraquecer aquela crescente confiana do outro time. Era s isso, pois a competncia tcnica seus jogadores tinham.
Gritava para um e para outro pedindo que se concentrassem, e nada acontecia. De sbito lembrou-se de que o time adversrio, quase com a mesma equipe, perdera feio 
dois sets no campeonato de trs anos atrs, antes de vencer o jogo final. J havia comentado algumas vezes o fato com a equipe, sem nunca reforar seu significado. 
"Como faz-los perceber que podem ganhar?" - pensava Dirceu, insistentemente. Mas no deu tempo de mais nada: quase sem marcar pontos, perdiam o segundo set.
Saram da quadra cabisbaixos e j se deixavam envolver pelo desnimo. Parecia at que os favoritos tinham crescido de tamanho - tinham ficado gigantes.
A torcida da casa ainda tentava incentivar, porm j estava desanimando diante de tantas dificuldades.
Quando os jogadores saram, Dirceu no perdeu tempo e foi logo dizendo:
 Muito bem! Vocs esto indo bem!
 Como assim? Estamos perdendo de lavada, Dirceu! T louco?
 No, vocs esto indo bem! Excelente! Ningum entendeu nada; acharam que o treinador
tinha pirado.
 Vocs no esto lembrados? Foi justamente assim que eles venceram a final do campeonato, trs anos atrs. Esqueceram? Contei a vocs.
 O que voc disse foi que jogaram mal - afirmou Tiago, ofegante.
 No foi s isso! Eles perderam de lavada os dois primeiros sets e depois viraram o jogo e ganharam, exatamente como vocs vo fazer, ao retornarem para a quadra. 
Quero que esqueam que  o terceiro set. Ser o primeiro. Vocs agora j se habituaram com eles, j sabem como jogam e tambm onde falham. No sabem? J conseguem 
pressentir como eles iro devolver a bola. Sigam o instinto, deixem que ele fale mais alto; vocs j sabem, s precisam prestar ateno no que sabem. Esqueam que 
 o terceiro set, pensem apenas que os dois outros foram treino, s isso. Vocs esto prontos, preparados para ganhar! Vo l e ganhem! No deixem que um s pensamento 
de derrota cresa dentro de vocs; ao contrrio, pensem que eles tambm viveram precisamente isso que vocs esto vivendo, e venceram. Joguem tudo o que sabem e 
venam!  a vez de vocs!
Os rapazes olhavam para o tcnico e sentiam a energia crescer dentro deles. Deixaram-se envolver pelas palavras do treinador e comearam a acreditar que poderiam 
fazer o que ele sugeria.
Quando voltaram  quadra, atendendo s sugestes de Dirceu, todos se fixaram simultaneamente na idia da vitria. Logo de sada o time adversrio marcou ponto. S 
que ento, ao invs da dvida, apegaram-se ao desejo de vencer e no desanimaram. Pensavam que o outro time no era infalvel e passaram a aproveitar melhor as falhas 
que cometia. Logo um ponto foi marcado pelo time da casa. E outro, depois outro, mais um e mais outro. O placar foi registrando pontos e mais pontos. A recuperao 
era incrvel. O time crescia dentro da quadra, acreditando que podia vencer, e comeou a virar a partida, para espanto do time favorito. O time da casa venceu o 
terceiro set, jogando como se aquele fosse o primeiro.
Ao sarem para o intervalo, Dirceu reforou que a estratgia estava dando certo e que podiam confiar inteiramente neles, pois eram bons de verdade, sabiam jogar.
Retornaram  quadra sob o barulho ensurdecedor da torcida, que parecia haver crescido em nmero, tal o incentivo que dava  equipe.
Dessa vez foi mais difcil, pois o time adversrio estava mais atento. Porm, para piorar ainda mais a situao deles,
Serginho, que jogava na rede, parecia ter asas nos ps; saltava e cortava com tanta preciso e rapidez que o outro time ficava perdido. Marcou, quase a um s tempo, 
mais de seis pontos e o time da casa venceu o quarto set, com tranqila vantagem.
Ao sarem, Dirceu recebeu-os mais srio. Era a hora da deciso, do tudo ou nada. A torcida, nervosa, estava em p. Ele pediu a todos que dessem as mos. Todos obedeceram. 
Disse, ento:
 Sintam como vocs so fortes juntos, unidos. Joguem assim, com o mesmo sentimento, e vencero.
Ao soar da campainha para o quinto set, o time da casa no podia se conter, tamanho o entusiasmo e to grande a fora que sentia. Os atletas voltaram  quadra e 
ganharam sem deixar que o outro time, antes favorito, fizesse mais do que oito pontos.
Aquele era o primeiro campeonato interescolar que o colgio de Serginho vencia e a alegria dos professores e especialmente do diretor, alm dos pais e dos prprios 
jovens, era contagiante.
No final, subiram ao pdio para receber as medalhas e saram dali naquela tarde como verdadeiros vitoriosos, pois haviam dominado no apenas o time adversrio, como 
a si prprios, tornando-se claramente mais fortes.
Serginho foi carregado pelos colegas como heri, por ter jogado brilhantemente, e da arquibancada, sem perder nenhum detalhe, os pais vibravam ainda mais e no cabiam 
em si de to orgulhosos. Olhavam ao redor como a dizer:  meu filho! Fbio saiu correndo e juntou-se  farra dos amigos do irmo; queria participar.
Foi uma tarde alegre e animada! Paula no poupava elogios ao namorado, que deixou a quadra plenamente satisfeito: havia conquistado definitivamente o corao da 
namorada, sentia que podia alcanar muitas outras vitrias, sua vida era perfeita!




Captulo 9
Ocultando a teimosia
As comemoraes prosseguiram no domingo e ao longo da semana. Seu Felipe queria falar com Serginho sobre a questo da moto, mas evitou o assunto, pois queria que 
o filho curtisse aquele momento de alegria e vitria. Todavia, a preocupao o incomodava. Como uma pulga atrs da orelha a coar-lhe as idias, ele pressentia que 
o filho tivesse feito alguma bobagem. Igualmente dona Eugnia sentia que o filho fizera ou estava prestes a fazer uma grande besteira. Os dois conversaram algumas 
vezes sobre o assunto. Em uma dessas vezes, tomando o caf da manha, dona Eugnia disse:
 Estou preocupada, Felipe. Serginho no tocou mais no assunto da moto. Anda muito feliz para ter desistido. Sei que ele fez ou est planejando fazer alguma coisa...
 Sinto o mesmo, Eugnia. Vou falar com ele. S no fiz isso antes porque queria deixar a alegria da comemorao prevalecer...
 Eu sei, Felipe. Foi por isso que tambm no toquei no assunto. Mas fica martelando em minha mente...
 Na minha tambm... J est na hora. Vou ter uma conversa sria com nosso filho hoje, sem falta! Agora vou indo,  noite falo com ele.
Naquela noite, seu Felipe chegou mais cedo do que era seu costume. Queria garantir que se encontraria com o filho. Serginho se preparava para sair, depois do jantar, 
quando o pai lhe disse:
 Vai ensaiar novamente, Serginho?
 Vou, pai. A banda est ficando sensacional! Vocs nem imaginam! O show de estria ser um grande sucesso, tenho certeza!
Aposto que sim, meu filho. Do jeito que vocs andam ensaiando sem trgua, sei que vai ser timo. S que hoje, antes que voc saia, precisamos ter uma conversa, 
ns dois.
Serginho, que vinha tentando fugir do assunto e de qualquer oportunidade que os pais tivessem de descobrir que comprara a moto, fez meno de sair. O pai segurou-o 
pelo brao:
 E srio, Srgio. Hoje, vamos conversar. Vamos at seu quarto.
 Pai...  que...
 No tem escapatria, Srgio. Para o seu quarto, precisamos conversar.
O jovem olhou a me, tentando descobrir qual era o assunto. Quando percebeu que dona Eugnia no o olhava nos olhos, teve certeza de que a moto seria o tema. Levantou-se 
lentamente, com ar aborrecido e entediado, e dirigiu-se ao quarto, onde o pai j o aguardava:
 Feche a porta, Srgio. Vamos conversar.
 P, que srio, hein, pai!
  muito srio e vou direto ao assunto. Duas semanas atrs tivemos uma conversa sobre uma tal moto, est lembrado?
 T.
 Disse que queria comprar e deixei bem claro que no vou admitir que faa isso. Quero apenas ter certeza de que voc entendeu bem o que quis dizer.
 Entendi.
 E...
 E o qu, pai?
 Serginho, eu conheo voc muito bem. Se no tocou mais no assunto,  porque est aprontando alguma coisa.
 No  nada disso, pai...
 Voc no nos engana, nem a mim nem a sua me, que est preocupadssima.
 Vocs se preocupam muito,  toa! Moto no  assim to perigosa...
 Eu no vou mais discutir a questo da moto, Srgio.  muito perigoso, e no sou eu que digo, so as estatsticas dos hospitais e delegacias de polcia. Quem quiser, 
 s procurar e encontra. Ento no vou mais falar sobre isso. O que quero saber  se voc entendeu meu ponto de vista, se est tudo claro para voc e se sabe as 
conseqncias, caso insista em teimar conosco.
Serginho emburrou. Aquela conversa o irritou profundamente. Por que o pai tinha de voltar ao assunto? Seu Felipe insistiu:
 E ento?
 Olha, pai, se achar que devo comprar a moto, eu compro e pronto! Daqui a vinte dias completo dezoito anos e j poderei tomar minhas prprias decises.
 No quero saber se voc tem dezoito, vinte ou trinta anos, Srgio. Enquanto estiver aqui, sob minha responsabilidade, precisa respeitar as regras, e esta  clara: 
sem moto.
Serginho ficou em silncio. E como seu Felipe sentia que o filho permanecia inflexvel, finalizou a conversa com a deciso:
 Muito bem, voc quer continuar insistindo nessa histria, no ? Ento terei de tomar minhas providncias. A partir deste ms, nada de mesada para voc. Est suspensa.
O pai saiu do quarto antes que Serginho dissesse qualquer coisa. Fechou a porta e dirigiu-se  sala. Ouviu quando Serginho berrou no quarto:
 No  justo! No  justo!
Dona Eugnia estava na sala e perguntou com a cabea o que havia acontecido. Ele contou, mas ela no ficou satisfeita:
 Isso no me deixa mais tranqila, no, Felipe. Acho que ele est preparando uma daquelas...
 Eu sei, Eugnia, vamos fazer tudo o que pudermos, tudo o que estiver ao nosso alcance.
Serginho deixou o quarto batendo a porta com fora. No olhou os pais quando passou pela sala e ao sair bateu tambm a porta de entrada da casa. Estava furioso e 
desceu as escadas pensando: "Ainda bem que tomei minha deciso! Agora preciso achar um jeito de arranjar dinheiro para o combustvel!".
Foi  casa de Suzana, onde guardava a moto, e saiu irritado. Acelerando com tudo, dirigiu-se para o ensaio na casa do Renato.
Dona Eugnia continuou preocupada e pensativa. Buscava, mentalmente, uma forma de influenciar o filho, sem, no entanto, encontrar nenhuma sada. Sueli juntou-se 
 me e logo percebeu que estava aflita:
 Me, t preocupada com o Serginho?
 , Sueli, seu irmo no tem jeito.
 Ser que ele vai comprar a moto, me? Ser que vai?
 Acho que sim, filha, se  que j no comprou...
 Ser, me? Por que acha isso?
 Um palpite, pelo jeito que ele evita tocar no assunto... Acho que j comprou, sim...
 E o que vamos fazer, me? Fico com medo por ele...
 Eu tambm, Sueli. Vamos continuar pedindo a Deus por seu irmo. Que nosso Pai cuide dele e o proteja. E o que podemos fazer. E se voc descobrir alguma coisa, 
me conta, no ?
 Claro, me! Com certeza!
Era o dia do Evangelho no Lar e dona Eugnia pediu a seu Felipe que participasse. Sem discutir muito, ele aceitou, e pela primeira vez os quatro juntos tiveram uma 
noite de oraes e estudos dos ensinos de Jesus.
Quando voltou para casa, Serginho j tinha uma idia de onde conseguir o dinheiro.
Entrou bem devagar e percebeu que todos j estavam deitados. Foi at o quarto do irmo e viu a luz acesa. Entrou. Fbio, escondido dos pais, jogava videeo gwme. 
Dona Eugnia j tinha dito vrias vezes que no era para fazer aquilo, e ele teimava. Serginho sabia que a me proibira, que tudo deveria ter sua hora certa. Fbio 
tinha o horrio em que podia jogar, e no era aquele. J passava da meia-noite e se a me soubesse que ele a desobedecia, tiraria a televiso do seu quarto. Por 
isso o menino assustou-se quando o irmo entrou no quarto; tentou desligar tudo, mas no deu tempo.
 Bonito, hein, Fbio, jogando videogame a esta hora?
 Voc no vai contar pra me, n, Serginho?
 No sei, no... Estou aqui pensando...
 No conta, por favor... Ela vai tirar a TV do meu quarto...
 Eu sei. Ela j disse isso... E estou ainda pensando o que fazer...
 No conta, Serginho, por favor... Fao qualquer coisa, fao o que voc quiser; ela vai me deixar de castigo...
 E tirar a TV do seu quarto, e proibir voc de sair por umas duas ou trs semanas, e...
 Vai contar pra ela?
 Isso depende de voc.
 Como de mim!1
 Estou precisando de uma grana extra, s at meu aniversrio... Preciso da sua mesada...
 De jeito nenhum! Minha mesada, no! Voc tem a sua...
 Tudo bem - disse Serginho, fazendo meno de sair do quarto -, fica a com sua mesada, sem poder sair de casa...
 T bom, que chantagista voc ! S porque sou o mais novo!
 Depois do meu aniversrio eu te devolvo.
 Devolve mesmo?
 Devolvo.
 Ento t bom. O pai vai me dar amanh  noite, a te entrego.
 Fechado!  bom fazer negcio com voc!
 Voc me obrigou!
 No, foi voc que aceitou.
Serginho despediu-se do irmo e saiu satisfeito do quarto. Conseguira seu intento. No precisaria parar a moto por falta de gasolina.



Captulo 10
Advertncia
 medida que o grande dia da estria se aproximava, os ensaios tornavam-se mais longos, fazendo com que os quatro amigos dedicassem mais e mais horas a se preparar; 
queriam muito que tudo fosse perfeito!
Serginho andava feliz com sua moto pra baixo e pra cima; tomava, entretanto, cuidados para que ningum da famlia descobrisse. Escolhia caminhos alternativos e parava 
a moto longe da escola, para que a irm no o visse.
Em casa,  conversa entre seu Felipe e o filho seguiu-se silncio sobre o assunto. Dona Eugnia e o marido desconfiavam, intuam que o rapaz j houvesse comprado 
a moto. Os pais sempre sentem; por mais que os filhos pensem esconder o que fazem, eles percebem. E o sexto sentido, resultado do amor e da responsabilidade que 
tm para com os jovens. s vezes, para Serginho e para seus amigos, parecia chatice e implicncia, especialmente quando os pais insistiam em determinado assunto 
que os jovens queriam a todo custo esconder. Sempre h os pequenos segredos, e os grandes tambm, e nunca se sabe quais so os mais perigosos. Mas os pais sabem, 
e de um momento para outro aquilo que parecia to bem guardado aparece de maneira descontrolada.
Dona Eugnia sofria com aquele silncio e orava muito pelo filho, compartilhando seus temores e receios com o marido e algumas vezes com Sueli, que, sempre junto 
da me, percebia-lhe a angstia. No entanto, ela sabia que ficar insistindo com o filho seria pior. Precisava descobrir o que estava acontecendo e permanecia atenta 
a todos os seus movimentos.
Ainda que notasse a preocupao dos pais, Serginho procurava no pensar naquele mal-estar que o acometia ao entrar em casa. Sempre que se sentava  mesa com a famlia, 
escondendo de todos o que estava fazendo, sentia-se estranho, incomodado. Mas to logo descia as escadas de casa, dobrava a esquina e subia na moto, o mal-estar 
desaparecia. Ao dirigir, crescia sua sensao de liberdade e a sede de aventuras aumentava.
A namorada - ignorando os perigos - o instigava mais a agir com imprudncia. Paula era uma jovem de olhos cor de mel, bonita e atraente. Seu rosto era contornado 
por cabelos castanho-escuros que contrastavam com a pele clara e sedosa. Porm tinha o olhar triste, o qual escondia com atitudes audaciosas e irreverentes. Em sua 
famlia, em seus pais, no encontrava o carinho e a compreenso de que necessitava. Diversos problemas de relacionamento se intrometiam naquela famlia complicada. 
Paula era filha nica e herdeira de uma pequena fortuna, que os pais j haviam herdado e encorpado. Mesmo assim, aquilo tudo no a satisfazia. Queria sempre mais, 
para preencher alguma coisa dentro dela que desconhecia.
Paula parecia no ter medo de nada e agia como se desafiasse a vida. Delirava quando Serginho dirigia em alta velocidade ou quando fazia manobras perigosas com a 
moto. Comearam a viajar de improviso aps o ensaio, para algum lugar mais ou menos distante, e retornavam quase ao amanhecer.
Serginho se deixava envolver pela deliciosa sensao que lhe vinha de fazer aquelas maluquices e ia aprimorando o controle sobre a mquina, que obedecia cada vez 
melhor a seus comandos.
Certa noite, Paula sugeriu que ele desse potncia mxima na moto, para ver at onde agentava, e da garupa gritava:
 Vai mais rpido, cara! Mais rpido!
Ele acelerava e a garota berrava, entusiasmada:
 Urraaaaa! Que mximo! Mais depressa! Vamos ver at onde chega, Serginho! Vamos ver at onde esse motorzinho agenta! Voc tem coragem?
Sem dizer nada, Serginho acelerou mais. Percebendo que o motor respondia, aumentou a velocidade. E ainda mais e mais um pouco. Estava determinado a conseguir o mximo, 
e no diminua nem nas curvas, que eram de fato seu maior desafio. Para a direita, depois para a esquerda, outra vez para a esquerda. Serginho conhecia bem o caminho, 
e antes de chegar  curva se preparava mentalmente para o movimento que tinha de fazer. Paula vibrava na garupa, agarrada ao namorado.
Num momento em que a velocidade estava altssima, ela soltou as mos e abriu os braos, para sentir melhor o vento. A sensao de liberdade era maravilhosa! Serginho 
desconcentrou-se ligeiramente, preocupado com a namorada, e quando entrou na curva seguinte... Que derrapada!
Ele perdeu o controle da moto, que entrou mal na curva e tombou, derrubou cada um de um lado e continuou se arrastando pela rua, at parar alguns metros  frente. 
Foi um tombao daqueles! Tudo aconteceu to rpido que o rapaz no conseguiu fazer nada e em um breve segundo estavam os dois no cho.
Assim que conseguiu se refazer um pouco do susto, ele se levantou, branco como papel alcalino, e correu at a namorada. Paula estava meio zonza e totalmente trmula. 
Serginho tirou-a da rua e sentou-a na calada.
Em poucos segundos, outros motoqueiros pararam e um carro que seguia mais atrs tambm. Sem demora os dois estavam cercados de pessoas. Serginho lembrou-se, ento, 
de que no tinha documentos e procurou se livrar depressa de todo mundo, garantindo que estavam bem, embora Paula ainda se mostrasse atordoada.
Por sorte, a moto estava inteira, tinha sofrido somente alguns arranhes. Ao se ver livre, o rapaz subiu na moto com Paula e sumiu. No caminho, falava todo o tempo 
com ela, perguntando se estava mesmo bem. Ao deix-la em casa, naquela noite, retornou pensativo e assustado.
Entrou cabisbaixo - a cor ainda no lhe voltara completamente ao rosto. Ao passar pela sala, deu de cara com a me, a irm e o irmo. Estavam prontos para comear 
a leitura semanal do Evangelho que realizavam juntos.
Serginho, que percebeu no olhar da me a indagao sobre o que acontecera, sentou-se no sof. Resolveu participar com eles e, desse modo, calar na me qualquer pergunta. 
De mais a mais, naquele momento sentia uma vontade enorme de colo.
Durante a orao da me, foi envolvido por um sentimento estranho e teve vontade de chorar. Enquanto a me lia um pequeno trecho do Evangelho, ele pensava e pensava 
no que acabara de ocorrer. Aos poucos se acalmava e dava-se conta do perigo pelo qual passara.
Pensou na vida, na famlia e em tudo de bom que possua. Refletiu que devia cuidar mais de si prprio, pois tinha ainda muito a realizar, sua vida estava apenas 
comeando. Olhou para a me e os irmos com carinho e percebeu, naquele momento, quanto gostava deles. Ficou mais triste por estar mentindo para eles, enganando-os 
daquela forma.
Ao se deitar, naquela noite, sentiu que tinha alguma coisa a fazer com sua vida, que era mais do que aquilo que podia enxergar. Incomodado com o fato de estar escondendo 
da famlia a histria da moto, e preocupado com o tombo que levara, decidiu que na manh seguinte iria contar tudo  me; ela teria de compreender e ele prometeria, 
de todo o corao, ser mais cuidadoso, mais atento ao dirigir.
Prometendo a si prprio os cuidados que teria dali por diante, Serginho adormeceu.
Na manh seguinte, mal dona Eugnia se levantara, o telefone tocou. Era uma ligao da Paula para o namorado. Ela bateu na porta do quarto do filho e avisou:
 Serginho, telefone.
Nenhuma resposta. Serginho ainda dormia. Batendo outra vez, a me falou um pouco mais alto:
 Serginho,  a Paula.
O jovem abriu a porta meio sonado e pegou o telefone das mos da me.
 E a, Paula, tudo bem?
 No, Serginho, no estou nada bem. No preguei os olhos a noite toda com dores no peito. Parece que tem alguma coisa quebrada aqui dentro.
Ainda atordoado, o rapaz tentava compreender bem o que Paula lhe dizia:
 O que poderia ser?
 No sei, Serginho; estou pensando que pode ser do tombo de ontem. No quero contar nada a minha me para no assust-la. O que voc acha que devemos fazer?
 Estou indo pra a agora mesmo. Arrume-se, vamos ao hospital. Precisa ver o mdico. J devamos ter ido ontem!
  que ontem eu me sentia bem... E voc, como est?
 Bem, Paula. Fiquei assustado, mas estou legal agora. Te pego em uma hora.
 T bom. Fico pronta.
Serginho desligou o telefone preocupado. Teria acontecido algum dano a Paula, no acidente? Lembrou-se de que s vezes, logo aps um susto grande, o organismo camufla 
leses, de tanta adrenalina que joga no sangue, para manter a pessoa alerta. E se fosse isso? E se Paula tivesse algum problema srio? Ele teria sido o causador 
de tudo! Com o medo e a culpa rondando a mente, terminou de arrumar-se e saiu sem tomar o caf. Tinha pressa de ver Paula.
Quando a me, ao v-lo sair, questionou se tudo estava bem, respondeu disfarando a ansiedade:
 Lgico, me, t tudo bem.  que temos algumas coisas importantes pra conversar, sobre o show, e Paula pediu que fosse mais cedo para o colgio, pra trocarmos umas 
idias antes da aula. Vai dando um nervosinho em todo mundo, voc sabe, n?
 E, filho, imagino! O momento que vocs tanto esperavam est chegando!
 Nem fala, me.  daqui a trs dias! Todo mundo t ficando ansioso!
 Vai dar tudo certo, filho.
Sem dizer nada, Serginho sorriu. Dona Eugnia era uma me muito amorosa. Mais uma vez, envergonhado por esconder dela os ltimos acontecimentos, saiu depressa.
Sem perda de tempo, Serginho levou Paula ao mdico e contaram todos os detalhes do acidente. Aps examin-la minuciosamente sem nada encontrar, ele solicitou uma 
srie de exames; poderia ainda haver algum tipo de leso interna que s seria detectada atravs de uma tomografia completa do trax.
 Faam o exame, peguem o resultado e retornem o mais breve possvel. Se houver algum problema interno, saberemos aps o resultado.
Assustados, os dois deixaram o consultrio mdico e foram imediatamente fazer os exames. Quase no conversavam, angustiados e com medo do que poderia estar ocorrendo 
com Paula. Ao sarem, o enfermeiro lhes assegurou que no dia seguinte os resultados estariam prontos.
Do hospital, Serginho e Paula dirigiram-se  casa dela e passaram a tarde juntos. Eles concordaram em no contar nada a ningum at receberem os resultados. Entretanto, 
no dia seguinte Paula se sentia muito melhor, a dor quase desaparecera. Embora o namorado pedisse cautela, j estava bem disposta e queria ensaiar.
 V com calma, Paula. No force.
 No t forando, Serginho. T bem melhor. Quase no sinto dor; s uma pontadinha.
 Espera at amanh, Paula. Os resultados saem mais tarde e a teremos certeza de que tudo est bem.
 E os ensaios, Serginho? Ontem quase no consegui cantar e a apresentao j  depois de amanh! No vai dar tempo, no!
 T bom, Paula, mas pega leve, sem forar!
 Pode deixar. E como esto os preparativos para a festa? T tudo pronto?
 Quase. Minha me t cuidando de tudo. Ela contratou uma moa que organiza festas e t ajudando, t ficando legal. Escolhi os detalhes da decorao, lembra que 
conversamos semana passada?
 , e ficou legal?
 Acho que sim, pois no vi tudo finalizado. Minha me disse que ficou legal.
 E o salo? Precisamos ir l amanh pra levar todos os equipamentos e fazer um ensaio geral, verificar a acstica, essas coisas.
 T tudo acertado tambm. Amanh, depois do almoo, j podemos comear a levar os equipamentos pra l. E podemos ensaiar at a hora em que quisermos!
 Maravilha! Vai ser maravilhoso, Serginho, tenho certeza!
 Claro que vai! Quem tem dvida?
Mais uma vez os ensaios acabaram tarde da noite. A banda estava afinadinha e tocando muito bem. A dedicao e os esforos do grupo vinham dando frutos e o show de 
estria prometia ser um sucesso.
Paula estava cada vez melhor como vocalista e Serginho, que j era apaixonado pela namorada, tinha ficado fascinado com o talento dela para a msica.
Rapidamente o dia to esperado se aproximava.



Captulo 11
Outro aviso
A famlia se preparava entusiasmada para aquela festa: Serginho ia completar dezoito anos.
Enquanto providenciava o caf naquela manh de sexta-feira, dona Eugnia pensava se todos os detalhes da festa estavam em ordem. Repassava mentalmente tudo o que 
precisava finalizar para que no sbado a comemorao fosse muito especial, inesquecvel. Acima de tudo, desejava ver o filho feliz e realizado. Sabia que para ele 
a apresentao da banda seria o ponto alto da festa; mesmo assim, queria que tudo o mais sasse perfeito.
Entre um item e outro da lista mental que seguia, pensava no filho. Lembrava-se dele desde pequeno: seus primeiros passos, suas primeiras palavras, seu primeiro 
dia na escola, as primeiras dificuldades com os colegas, a primeira namorada. Seu filho estava tornando-se um homem e ela sentia uma pontinha de receio por ele. 
Sabia que a vida era como uma jornada desafiadora, e pensava se estaria fazendo sua parte, como me, no sentido de preparar o filho para enfrent-la com sabedoria. 
Achava-se responsvel, s vezes, pela teimosia de Serginho. Recordou de sbito a questo da moto, que continuava a incomod-la, e imediatamente um estranho calafrio 
percorreu-lhe o corpo. Eugnia, aflita com o pressentimento, interrompeu o que estava fazendo e foi at o quarto para orar. Desejava que aquela ansiedade desconfortvel 
desaparecesse.
Aps alguns instantes de prece silenciosa, retornou  cozinha. Serginho j estava tomando o caf da manh.
 Bom dia, me.
 Bom dia, filho. Tudo bem? Voc no est atrasado?
 T tudo certo, dona Eugnia. Hoje no vou ao colgio; vamos levar os equipamentos de som e todo o material para o salo. Vamos ensaiar a tarde toda. Afinal,  
amanh o grande dia!
 , meu filho,  amanh, seu aniversrio. Ser mesmo um dia muito especial...
Notando um tom de melancolia na voz da me, Serginho perguntou:
 O que foi, me? Parece triste...
 Triste, no, estou preocupada.
 Com o qu? - insistiu ele, enquanto comia o po e engolia o leite.
 Com voc, Serginho, apesar de no saber ao certo o porqu. Cuide-se, meu filho, cuide-se!
 O, me, que coisa! Por que essa preocupao agora?
 No sei... Estava aqui pensando em voc, desde pequeno, em como est se transformando em um homem e, de repente, lembrei toda aquela histria da moto e fiquei 
triste.
Serginho gelou. Ser que a me tinha descoberto?
 Mas o que te perturba?
 No sei. Quero que voc seja feliz, meu filho,  s isso.
Abraando a me com muito carinho, ele disse:
 T com medo que o filho aqui cresa, n, me? J t com saudade de quando eu era pequeno? De quando podia controlar minha vida?
 Talvez seja isso mesmo, filho. E difcil pra mim acreditar que voc j tem dezoito anos. Ainda ontem era uma criana, correndo pela casa. E agora... Est quase 
um homem feito.
Lgrimas brotaram nos olhos de dona Eugnia, impedindo-a de continuar. Serginho abraou-a novamente.
 O me, eu te amo, viu? Vou sempre ser seu menino, s que um pouco mais crescido.
Dona Eugnia no respondeu. Apenas abraou Serginho e beijou-o com ternura na face.
Ao terminar seu caf da manh, ele se despediu da me e de Sueli, que acabava de levantar-se. Abraando a me bem apertado, disse:
 Te vejo mais tarde, me. Voc vai para o salo hoje  tarde?
 Talvez no seja necessrio. A Amelinha est organizando a festa e acho que tudo caminha bem. Vou  ligar para alguns amigos e confirmar a presena deles; inclusive 
de sua tia, que dever vir para seu aniversrio.
 Legal, me. Ento nos vemos  noite. Tchau, Sueli. Beijou a irm no rosto, saiu apressado e desceu as escadas
correndo. Depois de pegar a moto, foi direto  casa do Renato. Os amigos estavam todos l, entusiasmados, tentando disfarar a ansiedade. J embalavam os equipamentos 
quando Serginho chegou. Juntando-se aos outros, finalizaram rpido a organizao e duas horas mais tarde estavam desembalando tudo no salo, onde fariam a to sonhada 
estria.
Paula encontrou l os amigos, e Serginho sentiu-se mais aliviado ao v-la:
- Estava preocupado com voc. Tudo bem? No ia encontrar a gente na casa do Renato? Pensei que estivesse passando mal.
 E estava.
 A dor de novo?
  No. Nervoso. No consegui comer nada e pus par fora tudo o que tinha no estmago.
 Mas por qu? O que voc tem?
 Nervoso, j falei. Toda vez que fico tensa deste jeito, me d um n no estmago que no consigo controlar. J estou tomando um calmante natural, pra tentar relaxar.
Serginho respirou aliviado. Aps o almoo, os dois deixaram o grupo e foram buscar os resultados dos exames. Embora Paula no sentisse mais nada, queriam ter certeza 
de que estava realmente bem.
Logo que pegaram os exames, foram ao mdico que os havia pedido. Que alvio! Estava tudo bem! Nenhum problema apareceu. Assim mesmo, ele examinou Paula detidamente, 
concluindo:
 Deve ter sido o susto, muito nervosismo. Voc  bem tensa, no ?
 Se sou, voc nem imagina!
 Imagino, sim. Deve ter sido a tenso que ocasionou a dor. Mas est tudo certo. Agora, cuidem-se. Moto  um perigo!
Deixaram o consultrio ignorando por completo as ltimas palavras do mdico. Aquela sombra de inquietao havia desaparecido por completo e podiam, finalmente, curtir 
como nunca aquele dia especial!
Faltavam apenas algumas horas para o grande evento. Paula e Serginho, depois de deixar o consultrio mdico, saram felizes.
 Isso requer uma comemorao, Serginho.
 Tudo bem, depois do ensaio, Paula.
 No, j! Precisamos comemorar, e eu acho que. beber um pouquinho vai me fazer bem.
 Mas o pessoal est esperando.
 Liga l e fala que estamos indo.  s um pouquinho, vai, Serginho...
Alegre pelos resultados dos exames, Serginho resolveu atender a namorada, que ele nunca conseguia contrariar. E, afinal, que mal haveria em uma ou duas cervejas?
No caminho, pararam em um barzinho que costumavam freqentar.
 Vamos comear com uma cerveja bem gelada! pediu Paula nem bem se acomodou na cadeira.
Comearam, ento, a beber. A princpio Serginho queria apenas uma cerveja, consciente de que iria dirigir. Devagar, porm, sem perceber, foram se deixando dominar 
pela euforia, pela satisfao de constatar que a sade de Paula estava em ordem. O sentimento de que alcanariam o que quer que desejassem tambm era intenso. Tinham 
a sensao de poder tudo! De que o mundo lhes sorria e lhes pertencia. Serginho, que se sentara um pouco tenso, foi relaxando a partir da segunda cerveja e achando 
que tinha tudo sob controle, conforme ele queria.
Descontraram-se mais e mais e uma nova rodada de cerveja foi pedida. Sentiam-se mais do que satisfeitos, e foram bebendo, ignorando o tempo que passava e o perigo 
em que se envolviam. Beberam sem perceber a que ponto estavam sob o efeito do lcool.




Captulo 12
Celebrao inconseqente
Duas horas e algumas cervejas mais tarde, o celular do Serginho tocou:
 Cad vocs, Serginho? Tamos esperando aqui h mais de duas horas! O que aconteceu? Vocs esto bem?
Era Renato, preocupado e irritado com os amigos. Serginho tentou explicar que haviam dado uma paradinha para comemorar, e foi a que Renato se irritou ainda mais:
 Legal, n? Vocs bebendo, enquanto a gente fica aqui no maior calor esperando! Podiam ao menos ter trazido umas geladinhas pra gente, seus egostas!
 Ah...  isso que t pegando, n? No seja por isso, Renato, vamos pra a agora mesmo e levamos umas cervejas bem geladas!
 Mas v se no demoram! T todo mundo ficando cansado de esperar! E a hora t passando, precisamos ensaiar!
Serginho e Paula saram imediatamente, assustados com o tempo que correra sem perceberem. O pior foi que no notaram nem se importaram com o quanto Serginho havia 
bebido. Alis, nem pensaram no assunto; simplesmente pagaram a conta, levantaram-se, subiram na moto e saram.
Continuaram eufricos, sob o forte efeito do lcool Em plena avenida, Paula, insistente, incitava Serginho a corre mais para que chegassem depressa. O que ela queria, 
na verdade, era viver intensamente suas emoes.
Sem pensar nas conseqncias de seus atos, com a mente e o raciocnio entorpecidos, ele acelerou e acelerou... Serginho no atentava para o fato de que sua percepo 
estava sensivelmente reduzida pela ao do lcool sobre o organismo; uma sensao agradvel e relaxante no lhe permitia observar o que se passava  sua volta com 
a mesma preciso de quando no bebia. E ele aumentava a velocidade da moto sem se dar conta de que o cho estava molhado, com o leve sereno que caa...
Ainda em alta velocidade, no percebeu quando o sinal fechou. S teve tempo de ver o nibus que vinha logo adiante parar de repente. Assustado, freou de uma vez, 
mas com o cho molhado a moto no pde parar e bateu com muita fora na traseira do nibus.
De dentro do coletivo o pessoal ouviu o barulho seco do choque da moto com a lataria; e comeou uma gritaria, todos falavam a um s tempo:
 O que foi isso, meu Deus?
 Batemos em alguma coisa!
 Ser que atropelou algum? Enquanto o povo tentava entender o que se passava, o
motorista, que vira a batida pelo espelho retrovisor, sem dizer nada, de um salto, deixou seu lugar e desceu rapidamente as escadas da porta dianteira. Antes que 
algum o visse, j estava gritando, assustado, atrs do nibus.
Instantes depois todos haviam descido e um rapaz ligava para a polcia, pedindo socorro:
 So dois jovens, e acho que... No sei, no...  melhor virem depressa. A coisa foi feia... Muito feia, meu Deus!
Paula foi lanada para o meio da rua e deslizou alguns metros sobre o asfalto. Serginho ficou preso nas ferragens da moto, prensado no nibus.
A garoa que caa transformou-se em chuva fina. Instantaneamente se fez um aglomerado de pessoas ao redor de Paula e de Serginho, que permaneciam desacordados. Havia 
tanta gente curiosa querendo chegar perto dos dois que o resgate do corpo de bombeiros teve dificuldade em se aproximar. Assim que o conseguiram, os bombeiros acionaram 
o hospital informando que o caso era gravssimo. A primeira a ser atendida foi Paula. Estava de bruos quando chegaram, e ao vir-la compreenderam a seriedade do 
acidente. O capacete que ela usava se havia rachado em dois, tamanha a fora do impacto. Imobilizaram-na e colocaram-na no carro de resgate. Foi imediatamente para 
o hospital, recebendo os primeiros socorros.
Veio um segundo carro de resgate. Os bombeiros trabalhavam contra o relgio, lutando para salvar a vida do jovem, ainda preso nos ferros da motocicleta. Serginho 
perdia muito sangue e tentavam estancar a hemorragia enquanto o soltavam.
 Algum encontrou algum documento? Precisamos avisar a famlia! - lembrou o comandante dos bombeiros.
 Ele tem uma mochila. Acho que assim que conseguirmos solt-la poderemos encontrar alguma informao.
Enquanto falavam, um telefone celular comeou a tocar insistentemente. Como ningum atendesse, o comandante se ps a procurar o aparelho, que silenciou e em seguida 
voltou a tocar.
Um jovem bombeiro achou o celular jogado no meio-fio, a poucos metros do local do acidente, e ao atender ouviu:
 P, Serginho, j faz mais de uma hora que nos falamos e nada! Cad vocs, cara? Que falta de respeito!
 Com quem voc quer falar?
 Quem est falando? Serginho?
 Com quem voc est tentando falar?
 Com o Serginho, mas acho que errei o nmero.
 Pode ser que no. O que o Serginho  seu?
  meu amigo, por qu?
 Ele tem uma moto?
 Tem.
 Bem... Pode ser que este seja mesmo o celular do seu amigo.
Houve um silncio do outro lado da linha. Ao ouvir i burburinho e o som de sirenes, Renato gelou. O bombeiro continuou:
 Houve um acidente com dois jovens cujos nomes ainda no sabemos; um homem e uma mulher. Ainda no foram identificados.
 Ser que foi o Serginho?
 No sei dizer. S sei que este celular estava perto do local do acidente, tocando sem parar.
 Meu Deus! Posso falar com o rapaz?
 O acidente foi grave, esto ambos desacordados.
 Onde foi? Estamos indo pra a!
 No creio que seja uma boa idia. Estamos levando os dois para o HC, digo, o Hospital das Clnicas, para o atendimento de emergncia. Acho bom se vocs forem para 
l. Estamos procurando documentos para identificao e para localizar a famlia. Espere um momento, meu superior imediato est me fazendo sinal.
Afastou o fone da boca por um instante, e o superior confirmou:
        O rapaz  Srgio Melo e Silva. Ainda no conseguimos identificar a garota, ela no tem bolsa por perto.
O bombeiro voltou ao celular e no precisou nem confirmar:
  o Serginho mesmo!  meu amigo! Meu Deus do cu!  muito srio?
 No d pra saber o estado dele ainda, porm foi bem grave. Tanto ele como a garota sofreram ferimentos srios, mas esto vivos...
Do outro lado da linha, os jovens entraram em desespero.
 Olha, estamos removendo o rapaz agora. Localizamos o telefone da famlia e vamos entrar em contato. Preciso desligar.
Renato desligou o telefone, atnito. No acreditava no que ouvira. Marcelo pedia maiores informaes, quando dona Eugnia entrou no salo. Ela acabara vindo dar 
os ltimos retoques na decorao, pois queria pessoalmente ter certeza de que tudo estava em perfeita ordem.
Embora tudo corresse bem, ela passara a tarde toda angustiada, com um aperto inexplicvel no peito. Chegou com Amelinha, que a auxiliava na organizao da festa. 
Sueli tambm vinha com elas.
 Oi, meninos, tudo bem? O que foi? Vocs esto brancos! Cad o Serginho?
 Dona Eugnia...
 O que foi, Renato? Cad o Serginho?
  que... - Marcelo tentou balbuciar algumas palavras, sem conseguir.
 O que foi? Aconteceu alguma coisa? O que foi?
 Dona Eugnia... O Serginho...
 O que houve? Cad meu filho?
 Ele sofreu um acidente, dona Eugnia. Acabamos de falar com o bombeiro que o est socorrendo.
 Bombeiro? Meu Deus! O que foi? O que houve? Ele no devia estar aqui com vocs? No vieram juntos?
 No.
 Por qu? Onde ele estava? O que aconteceu?
 Ele estava de moto, dona Eugnia. Ele e a Paula estavam juntos.
 A Paula, de moto?
 No, o Serginho estava de moto.
 De quem?!
 Dele. Ele comprou a moto h alguns dias.
 Ah, meu Deus! Meu Deus, eu sabia, eu sabia. Meu Deus do cu, meu filho! Onde ele est? Onde foi o acidente?
 Ele est sendo levado para o Hospital das Clnicas, junto com Paula.
Sueli chorava. Com o semblante lvido, Amelinha no conseguia falar. O celular de dona Eugnia tocou.
 Al.
 Eugnia,  Felipe.
 Felipe, o Serginho...
 Eu sei, estou indo a te pegar para irmos ao hospital.
 Felipe...
 Reze, Eugnia, reze.
Impossvel descrever a dor de um corao de me. A angstia e o desespero que dona Eugnia sentia naquele momento eram inenarrveis.
Alguns minutos depois, dona Eugnia, seu Felipe, Sueli e Fbio estavam a caminho do hospital. Seguiam mudos. O corao de dona Eugnia batia descompassado e suas 
mos estavam geladas; ningum era capaz de dizer nada. Sentiam muito medo.
Os amigos tambm se dirigiram para l. Embora no quisessem nem pensar, todos temiam o pior. Serginho e Paula tinham sido levados inconscientes, e o estado de ambos 
era muito grave.
Ao se aproximarem do hospital, dona Eugnia sentiu uma dor mais profunda no peito e uma certeza brotou: seu filho no resistiria. Junto com essa suposio insuportvel, 
porm, uma outra fora lhe surgia na alma. Olhou para Sueli e Fbio, sentados no banco de trs, e segurou forte nas mos dos dois filhos.
O movimento no saguo do hospital era intenso. A famlia de Paula j havia chegado. A me dela, ao ver entrar dona Eugnia, iniciou um monte de acusaes:
 A culpa  toda do seu filho. Onde j se viu? Ele  um irresponsvel! Pobre de minha filhinha!
Dona Eugnia no disse palavra. Foram encaminhados  UTI, a famosa unidade de terapia intensiva, e l colheram as primeiras informaes:
 A situao dele  gravssima. Est passando, neste exato momento, por uma cirurgia. Tentamos estancar vrios focos de hemorragia, especialmente na rea do trax. 
Infelizmente no posso dizer nada. Tudo depender do organismo, da forma como ir reagir... Precisamos esperar o final da cirurgia. Se ele resistir, faremos outros 
exames.
 Quanto tempo dura a cirurgia? - perguntou seu Felipe quase sem voz.
 No posso precisar. Depende do que iro encontrar. Dona Eugnia mal conseguia parar em p. Suas pernas
estavam bambas.
 E a Paula? A garota que estava com ele.
 Est pior ainda. Teve traumatismo craniano... Dona Eugnia, agora em lgrimas que escorriam pelo
seu rosto, lamentava:
 Meu Deus! Que tragdia! Que coisa terrvel! Por que, meu Deus, ele tinha de nos desobedecer?
 Ah, meu filho, era isso que temamos, justamente isso! - balbuciou seu Felipe, igualmente aflito.
 A senhora  a me do rapaz? - perguntou o mdico que os atendia.
 Sou.
-  Vou providenciar um remedinho para acalm-la.
Sem foras para responder, dona Eugnia olhou-o apenas. Sueli chorava e Fbio segurava com fora as mos da irm, apavorado Adorava o irmo e sentia que seu mundo 
se despedaava, desconhecia aquelas emoes de medo e dor, mas o aperto em seu peito era to forte que parecia que iria arrebentar.
Os familiares e amigos ficaram longo tempo na sala de espera da cirurgia. Ao chegarem o relgio marcava quase oito da noite. J se haviam passado cerca de cinco 
horas de torturada espera e angustiosas interrogaes.
Perto das onze da noite uma enfermeira pediu que os pais de Serginho e Paula a acompanhassem. Somente os pais. Os quatro seguiram a jovem, que os levou at a ante-sala 
de cirurgia. L, dois mdicos os aguardavam.
-Infelizmente as notcias no so boas. Sentem-se.
A cirurgia de Srgio foi bem. Ele tinha mais de oito focos de hemorragia interna. Suturamos todos, porm ele perdeu muito sangue e, principalmente, teve alguns rgos 
internos afetados. Tem edemas, inchaos internos que nos impedem de avaliar completamente a situao de cada um dos rgos atingidos- Vamos ter de aguardar para 
ver se o
organismo reage.
- Quais so as chances? - perguntou seu Felipe,
hesitante.
- O quadro  muito grave, muito mesmo. Mas ele 
jovem e percebe-se que tem boa sade. Vamos ver se consegue reagir. Precisamos esperar.
- E quanto  minha filha, como est? - indagou, entre lgrimas, a me de Paula.
- O caso dela est mais complicado. Lamentavelmente, devemos dizer que as chances so pequenas.
A me de Paula comeou a chorar, em desespero.
 Eu quero v-la! Quero v-la! No pode ser! No pode!
Tiveram de segur-la e a enfermeira trouxe um comprimido, que ela tomou quase sem notar. Estava totalmente descontrolada.
Renato, Marcelo e Tiago permaneciam mudos, sentados ao lado dos familiares. No podiam crer. Tudo parecia um sonho - no, um pesadelo de terror. Tais coisas s aconteciam 
nos filmes ou com outras pessoas. Eles no acreditavam estar realmente vivendo aquilo.
 Acho melhor vocs irem para casa agora, e retornarem amanh. Eles sero transferidos para a UTI e podero v-los no horrio de visitas.
 No! Vou ficar aqui, perto dele! - disse dona Eugnia, desolada.
 Eugnia, no adianta. Vamos pra casa.
 No, no vou sair daqui, Felipe, e no insista. No h nada que eu possa fazer, eu sei, mas no existe outro lugar na Terra onde possa estar neste momento. Vou 
ficar.
 Vou ficar com a mame! - afirmou Sueli, agarrndose aos braos de dona Eugnia.
 No, filha, voc vai com seu pai.
 Quero ficar, me. No vai ficar aqui sozinha.
 Eu preciso, Sueli.
 Seu Felipe, se quiser levo-os para a casa de algum parente... - interveio Renato, solcito.
 Acho melhor. Aqui est o endereo de meu irmo. Eles j sabem que talvez eu mande os meninos pra l. Agradeo muito, Renato.
 O que  isso, seu Felipe? Se precisar de algo mais, estou  disposio. Quero ajudar no que for preciso!
 Obrigado, meu filho. Leve-os para mim. Eu agradeo muito.
Despediram-se de Sueli e de Fbio, que, apesar de contrariados, obedeceram. Quando sumiram no corredor, seu Felipe sentou-se lentamente ao lado da esposa, que chorava 
baixinho e orava sem parar pelo filho que tanto amava.
L fora o barulho dos carros continuava na agitada sexta-feira  noite. Jovens conversavam e riam, perto da janela onde estavam os pais de Serginho. E dona Eugnia 
chorava e orava sem parar.
De madrugada o mdico veio informar que ambos seriam transferidos  UTI em alguns minutos. Quando a maca passou pelo corredor, transportando Serginho, dona Eugnia 
quase desmaiou. O filho tinha a cabea toda enfaixada e estava repleto de canos saindo por todo o corpo.
Depois foi a vez de Paula, tambm inteiramente envolta em faixas.
Na UTI o horrio de visitas era rigoroso. Portanto, dona Eugnia e seu Felipe resolveram ir at sua casa, para um breve descanso. Retornariam  hora permitida para 
visitas. Ao invs de ir direto, porm, seu Felipe dirigiu-se ao salo onde seria realizada a festa do filho.
 O que voc veio fazer aqui, Felipe?
 Precisamos avisar que a festa est cancelada, Eugnia; no vamos poder ligar para todos os convidados, e sim somente para os familiares mais prximos. Acho melhor 
avisarmos aqui. Por favor, fique no carro. Volto j.
Seu Felipe unha a chave do salo. Entrou, acendeu algumas luzes e foi  procura do vigilante que passava a noite toda no local. Parou no meio do salo. Olhou toda 
a decorao ao seu redor. Viu os equipamentos da banda no palco e no suportou a dor. Sentou-se ali mesmo, no meio do salo, e soluou sentidamente. Alguns minutos 
depois, dona Eugnia entrava no salo e, abraando-se ao marido, choraram por longo tempo.
O segurana observava tudo e no ousava aproximar-se. Ele tambm era pai e sabia do acidente. No conseguia chegar perto do casal... S de pensar na dor daqueles 
pais, ele tambm chorou  distncia.
Quando enfim se recomps, seu Felipe pediu que o vigilante informasse a ocorrncia aos convidados que acaso aparecessem, desse o telefone dele para contato e, obviamente, 
avisasse que no haveria festa.
Ao voltarem ao hospital para a visita, o saguo estava repleto de parentes e amigos que, sabendo do acontecido, quiseram oferecer sua solidariedade ao casal e informar-se 
melhor sobre a situao dos dois jovens.
A visita foi rpida, e apenas seu Felipe e dona Eugnia puderam entrar.
Ao aproximar-se da maca, dona Eugnia orava mais e mais pedindo foras a Deus. Segurou a mo de Serginho, o nico pedacinho do corpo que estava sem faixas. Apertou-a 
e conversou com ele, entre lgrimas que desciam incessantemente pelo seu rosto:
 Meu filho querido, tenha foras. Confie em Deus e pense em Jesus. Ele est sempre perto de voc. Ele te ama, meu filho, nunca se esquea disso!
Nenhuma reao visvel. Ele parecia dormir profundamente. Mas Serginho, como se estivesse no fundo de um abismo, confuso e mal podendo identificar as palavras da 
me, escutava-as ainda que muito distantes. Sua mente estava perturbada. No sentia direito seu corpo, e no sabia bem o que lhe acontecia. Era como se estivesse 
sonhando, sem poder acordar; como quando tinha pesadelos e se esforava para despertar. S que agora, por mais que tentasse, no conseguia acordar.
Aps breve visita, iam descendo o corredor da UTI at a recepo quando ouviram assustados os gritos da me de Paula. Estava sendo retirada da UTI pelo marido, que 
tambm chorava, e por alguns enfermeiros. Gritava desesperada e angustiada. Dona Eugnia e seu Felipe entreolharam-se. O corao acelerou ainda mais. Uma das enfermeiras 
desceu apressada e dona Eugnia perguntou, meio hesitante:
 A menina est pior?
 A garota acabou de falecer. Dona Eugnia ficou muda. Olhou para seu Felipe como
a pedir socorro. Ele abraou-a apertado e ponderou:
 Melhor no conversar com eles agora. Esto sofrendo demais.
Dona Eugnia olhou-o em desespero, e no disse nada.
****
A cada manh em que dona Eugnia se levantava da cama (porque dormir era quase impossvel), tentava recobrar o nimo e a confiana, mas sentia que seu filho no 
conseguiria reagir. Passados dois dias da morte de Paula, Serginho entrou em coma, o que enfraqueceu ainda mais as esperanas dos pais e amigos.
Alguns dias aps o acidente dona Eugnia havia emagrecido a olhos vistos e estava extremamente abatida. Embora buscasse o fortalecimento na orao e na f em Deus 
que sempre nutrira, sentia as esperanas diminurem mais e mais... At que, naquela manh, enquanto tomava o caf ao lado dos filhos e do marido, o telefone tocou, 
quebrando o silncio absoluto em que se mantinham todos, ecoando forte pela casa.
 Deixe que eu atendo - seu Felipe levantou-se rapidamente, correndo at o aparelho.
Entretanto, no demorou nem um segundo e ele voltou para a cozinha com o rosto branco e com lgrimas a lhe descerem pela face.
 Era do hospital - falou por fim, depois de muito esforo para controlar-se diante do olhar desesperado da esposa.
 E...  -  foi a nica coisa que dona Eugnia pde balbuciar.
Seu Felipe movimentou a cabea em sinal negativo e disse:
 Ele se foi.
No estreito abrao em que envolveu a esposa e os filhos, choraram sentida e longamente. Depois seu Felipe respirou fundo. Tinha muitas providncias a tomar.
 Precisamos de algum que fique aqui com voc, Eugnia.
 E de algum que o acompanhe, Felipe. Conheo um casal muito especial l do ncleo esprita, que tem me dado muita fora em todo esse processo. Vou ligar para os 
dois. Pediram que os procurasse se precisssemos de apoio. Vou ligar, precisamos de toda a ajuda agora.
Seu Felipe no disse nada, estava exausto demais. E no se arrependeu. Quando o casal chegou, muito o impressionou a firmeza do apoio oferecido a ele e a seus familiares.
Amparados pela presena fraterna de Eunice e Antunes, e de muitos amigos espirituais da famlia - que permaneciam bem perto deles, apesar de no poderem ser vistos 
com os olhos do corpo -, encontraram foras para passar por aqueles momentos de dor e tristeza to profundas que jamais podero ser traduzidas em palavras. Somente 
aqueles que perdem filhos ou entes muito prximos podem imaginar o sofrimento imenso que se oculta nas palavras.




Do Outro Lado da Vida
Segunda Parte
Captulo 13
Perturbao
Serginho sentia-se confuso e aflito. Durante todo o perodo em que estivera na UTI, ouvia conversas distantes, pessoas falavam sem que compreendesse o que diziam. 
s vezes, reconhecia a voz de dona Eugnia e tinha vontade de falar com ela, porm no conseguia sequer abrir os olhos. Seus sentimentos estavam tumultuados, no 
entendia o que se passava com ele. Seus pensamentos eram tambm perturbados e desconexos. A nica coisa que lembrava com clareza era o instante em que sua moto batera 
no nibus. A sensao terrvel daquele choque estava permanentemente com ele, como se o acidente se repetisse a todo momento.
Algumas vezes percebia vultos ao seu redor, sem possibilidade de identificar ningum. Aos poucos, as vozes foram diminuindo e sumindo, e ele sentiu como se casse 
num fundo abismo. A angstia e o desespero tomaram conta do rapaz, que se esforava intensamente para despertar daquele pesadelo.
Ento, de repente, sentiu-se um pouco mais leve mais solto. E foi a que teve aquela viso terrvel: viu-se dentro de um quarto escuro. Era a primeira vez que distinguia 
algo  sua volta. Algumas pessoas em torno de uma cama cuidavam de algum. Tentava entender o que acontecia, e s quando as pessoas se afastaram e ele conseguiu 
ver foi que percebeu, com pavor, que era ele prprio o ocupante da cama. Sentiu o corao descompassado. Estava petrificado. Queria correr, mas no tinha como se 
afastar dali. Estava preso. Fazia um esforo enorme para sair, e permanecia preso. Ficou observando a si mesmo, imvel, deitado na cama, e se perguntava, com o parco 
raciocnio que lhe restava:
 O que est acontecendo? Por Deus, algum precisa me explicar o que se passa!
O silncio era seu companheiro constante. Silncio e escurido. Aps um tempo que lhe parecia interminvel, sentiu-se de novo meio zonzo, meio atordoado, e quando 
deu por si estava em outro lugar, desta vez com muita gente ao seu redor. Viu a me, que chorava de cabea baixa, abraada a Sueli e a alguns parentes prximos. 
Serginho queria falar com a me. E gritava, desesperado:
 Me, me ajuda! O que acontece? Por que voc est triste?
Viu seu Felipe, que tambm chorava, e reconheceu parentes e amigos, todos ali presentes: Renato, Marcelo, Tiago e outros, muito tristes. Ele pensava, angustiado:
 Afinal, o que se passa? Por que eles no me vem? Por que no conversam comigo? Meu Deus, acho que ainda estou sonhando e no consigo acordar!
Foi ento que algumas pessoas se afastaram e ele pde ver, em aflio, que aquele era seu prprio funeral! Sentiu vertigens e enjo. Precisava acordar daquele pesadelo 
terrvel e desesperador.
E assim Serginho acompanhou todo o cerimonial. O nico momento em que teve certo alvio foi quando Antunes e alguns outros amigos de dona Eugnia, que freqentavam 
o ncleo esprita, fizeram juntos uma orao. Naquele minuto algo o fez sentir ligeira paz. Ouviu que oravam por ele. E! Oravam por ele, Serginho! Pediam a Deus 
por ele, para que tivesse paz e amparo na outra vida que se iniciava. Serginho ouviu tudo atentamente. Logo aps a orao, sentiu-se novamente envolvido pelo desespero 
e pela agonia; e em meio a tudo aquilo que no compreendia, pensava:
 Meu Deus, que brincadeira  esta? O que est ocorrendo comigo? Por que no posso acordar? O que se passa? Este pesadelo no termina nunca? Jamais, em toda a minha 
vida, tive um sonho to real e to terrvel!
Serginho tremia de medo e angstia, pressentindo, ainda que inconscientemente, que talvez tudo aquilo fosse real. Sentia o corpo inteiro gelado e, por mais que se 
esforasse, no despertava daquele pesadelo.
Algum tempo transcorreu at que voltou aquela vertigem estranha. De novo, quando deu por si, ele estava num lugar escuro e fechado. Todos haviam desaparecido e se 
encontrava s, em profundo silncio e terrvel escurido.
Dessa vez, fez um esforo ainda maior para despertar; lutava para se mover e no conseguia. Sentia angstia e desamparo. Estava s, abandonado por todos que amava, 
e no sabia por que aquele pesadelo horrendo no terminava. Estava cansado, cansado demais... E chorando convulsivamente, extenuado, adormeceu.
Os dias foram se sucedendo. Dona Eugnia e seu Felipe sofriam profundamente a perda do filho mais velho. Para Sueli e Fbio aquela fora uma experincia traumtica 
e inesquecvel. A realidade pareceu-lhes excessivamente dura e atravessaram um longo perodo de depresso e ansiedade. Apesar da dor profunda, dona Eugnia precisou 
dar ateno especial aos dois, que, logo aps a tragdia, comearam a dar muito trabalho aos pais.
Sueli no ficava sozinha e queria dormir com a me. Fbio tinha pesadelos e de madrugada acabava igualmente no quarto dos pais. Alm disso, os dois no queriam ir 
 escola, fugiam a encontros com amigos e parentes - enfim, estavam passando por um momento srio de depresso.
Preocupada, dona Eugnia buscava foras para n desamparar os filhos mais novos.
 Eles esto sofrendo muito, Eunice, no sei direito como agir. E muitas vezes me faltam foras. Sei que gostariam de poder falar mais sobre o ocorrido, porm  
doloroso demais para todos ns. Ento nos calamos. E um assunto sobre o qual evitamos conversar.
 Sei que  duro, Eugnia, mas talvez por isso os meninos estejam com maior dificuldade de superar. A dor  grande e para eles, que ainda so to jovens, o impacto 
de uma realidade dessas  bem forte.
 ,  forte e chocante para todos ns... Dona Eugnia no conseguiu terminar. Comeou a chorar.
 Chora, minha amiga, chora que isso vai te aliviar um pouco.
 No creio. Tenho tanta dor em meu corao que poderia chorar a vida inteira, sem parar.
E continuou, procurando enxugar as lgrimas que desciam incontrolveis:
 Evito pensar, sabe, Eunice? S que quando menos espero revejo tudo diante de mim. Todas as noites me pego a esperar pelo Serginho.  terrvel...
Eunice abraou a amiga e no disse nada. Orava baixinho para que Deus a consolasse, pois somente o Pai poderia ajudar aquela famlia. Aps alguns instantes, dona 
Eugnia acalmou-se; e secando as lgrimas novamente, perguntou:
 Como ser que ele est, Eunice? Onde estar meu filho? Ser que est bem, ser que foi amparado? Penso tanto nisso! Como ter chegado ao outro lado? Ele  to 
teimoso...
 Vamos pedir muito a Deus por ele. Serginho est nas oraes em todas as reunies de nossa casa esprita. Vamos pedir a Deus por ele e por vocs. Ele ser amparado, 
Eugnia. Nossos amigos espirituais havero de ouvir as nossas preces e ajud-lo.
Sem dizer mais nada, dona Eugnia despediu-se da amiga e foi para casa. Naquela noite iriam reiniciar o Evangelho no Lar. J fazia mais de dois meses que Serginho 
partira, e ela at agora no encontrara foras para orar. Sentia algum alvio na alma unicamente quando estava no centro esprita que freqentava. Somente l diminua 
sua dor, mesmo que por breves momentos. Ainda assim, esforava-se para retomar o estudo do Evangelho em casa. Nem que fosse apenas com uma orao em favor do filho, 
sabia que precisava faz-lo. E havia os outros dois que necessitavam de amparo.
Por outro lado, Felipe a preocupava sobremodo; estava amargurado e revoltado. Falara at contra Deus por diversas vezes, s se calando ao ser admoestado por ela. 
Sabia que a dor do marido era to intensa quanto a sua; mas se as luzes dos cus no pudessem tocar seu corao, como iriam consolar-se?
Naquela noite, ela retomou o culto do Evangelho apenas com Sueli. Sentaram-se as duas na sala e dona Eugnia ficou longo tempo de cabea baixa, procurando foras 
para iniciar. Ento, ergueu a cabea lentamente e olhou para a filha, que trazia os olhos umedecidos e vermelhos. Tomou nas mos o Evangelho segundo o Espiritismo 
e comeou a leitura. Devagar, bem devagar, conseguiu ler e depois oraram. Foi com muita dificuldade que finalizaram as preces.
Nas semanas seguintes, ela continuou a faz-lo. E a cada nova reunio, apesar da dor que persistia, ficava mais fcil orar. Aos poucos, as duas passaram a sentir-se 
reconfortadas e aliviadas, nos momentos de orao. Fbio decidiu participar tambm e os dois filhos foram gradativamente melhorando e saindo da depresso.
Durante os minutos de estudo, entretanto, dona Eugnia seguia apreensiva quanto s condies do filho que partira. Como Serginho estaria reagindo, por se ver desprovido 
do corpo fsico, to jovem e to cheio de sonhos? Isso a preocupava e ela orava pelo filho todos os dias, todas as horas.
Serginho, ainda ligado ao corpo fsico, despertava e adormecia, atormentado e perturbado. Quando sua conscincia se fazia mais lcida, sentia o corpo bater na lataria 
do nibus e se desesperava. Algumas vezes ouvia vozes, sem nada enxergar. A escurido era total. E assim permaneceu por longo tempo, at que pouco a pouco comeou 
a estar mais desperto do que adormecido. E foi a que o sofrimento se revelou ainda maior; imaginava-se preso a um pesadelo sem fim. Ento a memria foi clareando 
e o raciocnio tornou-se mais coerente.
Ele pensava: "Lembro-me de estar com Paula na moto, saindo de um bar, antes do acidente". Visualizou tudo com lentido e rememorou o tumulto  sua volta; nada viu, 
porm algumas palavras soltas lhe vinham  mente. "Ele est muito mal; depressa! Foi muito grave!"... "Houve um acidente com dois jovens"... "O acidente foi srio. 
Esto ambos desacordados"... "Estamos levando os dois para o Hospital das Clnicas5'... "O rapaz  Srgio Melo e Silva".
E ele refletia,  medida que conseguia: "O que aconteceu comigo? Lembro do acidente, das pessoas  minha volta, mas  tudo to nebuloso... Ser... No, no  possvel! 
Se eu tivesse morrido, estaria em algum lugar e no neste vazio estranho e negro! No, no  possvel que seja isso. Deve haver alguma outra explicao. Devo estar 
doente, sei l!".
O tempo passava e Serginho se mantinha fortemente ligado ao corpo fsico, atravs de finos fios fludicos; por isso repercutiam em seu esprito o vazio, o silncio 
e a escurido que cercavam o corpo que lhe pertencera; por isso no lhe era possvel movimentar-se, nem compreender nada3.
No obstante, sua conscincia ia clareando e a angstia e o tormento que sentia comearam a perturb-lo profundamente. Ele se cobrava: "Eu no devia ter bebido tanto. 
Devia ter sido mais cuidadoso".
Em outras ocasies questionava: "Por que corria tanto!1 Se estivesse mais devagar, teria conseguido parar a moto a tempo"...
Pensava ento na me e, mentalmente, pedia-lhe socorro e ajuda. Quando isso acontecia, dona Eugnia ficava bastante perturbada. Recordava de imediato o filho e sentia 
que ele estava aflito e em desespero. Como isso a afligia muito, passou a ler ainda mais, a aprofundar-se no estudo da Doutrina Esprita, procurando conhecer melhor 
seus princpios. Queria ajudar o filho, e para isso precisava compreender seu estado, saber mais sobre ele.
Compartilhando seus receios e angstias com Eunice e outras amigas da casa esprita com quem estudava, seguia pedindo oraes e ajuda para Serginho. Sabia em seu 
ntimo que ele no estava bem. Em uma dessas conversas, mais de oito meses depois da morte do filho, Eunice lhe sugeriu:
  Por que voc e o Felipe no vo fazer uma visita ao Chico Xavier?
 Ele no iria.
- Por que no? Quem sabe se, participando do trabalho desse nosso missionrio do bem, vocs no obtero a graa de compreender melhor?
E por que no recebemos, em nossos trabalhos, alguma notcia de meu filho?
 Voc sabe que as coisas no so assim, Eugnia. Nem todos podem ou conseguem se comunicar, nem todos tm permisso.
 Est vendo? Ento ele deve estar mesmo muito mal! Se no consegue se comunicar,  porque est mal. Tenho lido muitas mensagens de jovens que se foram, dirigidas 
a seus pais. Eles sempre dizem que so amparados e esto se recobrando, e logo se comunicam. Mas nada do Serginho, nenhuma mensagem... Estou preocupada, angustiada, 
Eunice. Sinto que preciso de ajuda. No vou agentar mais se no tiver uma luz, algo para acalmar meu corao...
 Vamos ao Grupo Esprita da Prece, em Uberaba. Vamos visitar o Chico.
 Mas ele tem ido aos trabalhos? No est adoentado e fraco?
 Embora bem fraco, sei que mesmo assim tem ido aos trabalhos.
3 Inconscincia da morte: mais informaes em notas complementares
 E ele ainda escreve mensagens?
 No sei ao certo, Eugnia, s sinto que devemos ir at l. Pode deixar, eu vou organizar tudo. Vamos aproveitar e montar uma caravana para visit-lo. H alguns 
anos no vamos a Uberaba e muitos esto sentindo falta. Vou me encarregar de tudo. Fale com o Felipe, convena-o. O resto deixe por nossa conta.
Dona Eugnia sorriu, encorajada pelo entusiasmo da amiga. No entendia ao certo o que fariam l, mas sabia que aquele homem era um ser de muito amor e de muita luz. 
E refletiu rapidamente que sem dvida estar em sua presena poderia trazer a ela algum conforto.
Naquela noite, chegou em casa decidida. Iria fazer a viagem com ou sem o marido, e resolveu conversar com ele imediatamente.
 Nem pensar, Eugnia. No me oponho a que voc v ao centro esprita, porm no vejo nenhum benefcio em fazer uma viagem dessas. Para qu? O que iremos fazer l? 
Voc sabe que no gosto de perder tempo. No, Eugnia, nem pensar. Est fora de questo!
 Ento eu vou sozinha, Felipe - ela retrucou com firmeza na voz.
Seu Felipe olhou-a srio. Percebeu que estava decidida e nada respondeu. Deitou-se na cama, virou-se de lado e adormeceu.
Dona Eugnia demorou a conciliar o sono, matutando na deciso j tomada e sentindo-se um pouco insegura. Por fim, depois de muito se remexer, tambm adormeceu.




Captulo 14
Chico Xavier

O dia marcado para a viagem aproximou-se depressa. Dona Eugnia preparou tudo para que a casa funcionasse perfeitamente em sua ausncia. Deixou tudo organizado e 
no dia marcado despediu-se dos filhos e do marido, que mesmo na ltima hora, contrariado, argumentou:
 Continuo achando isso uma perda de tempo e de dinheiro, Eugnia. No entendo o que voc vai fazer l!
 Eu tambm no sei ao certo, Felipe; o que sei  que devo ir, tenho de ir. Por favor, no me questione mais. Ser que voc no v? Qualquer coisa que alivie a minha 
dor e me traga paz em relao a nosso filho vai me ajudar. E o mdium Chico Xavier  algum muito especial. Quem sabe se no contato com ele encontro alguma luz?... 
Quem sabe, Felipe?
 Boa viagem, Eugnia. Espero que encontre o que est procurando.
 No sei bem o que procuro, Felipe. Ou melhor, sei que o que mais desejo so notcias de meu filho. Levo a esperana de saber que a vida dele continua, ainda que 
longe de ns; que sua morte no foi o fim...
Notando as lgrimas que se formavam nos olhos da esposa e sentindo-lhe a angstia e a tristeza, seu Felipe no disse mais nada. Despediu-se de Eugnia, que ao partir 
deixou Sueli e Fbio chorosos.
Durante toda a viagem, ela seguiu calada e pensativa. Orava pedindo ajuda para si e para sua famlia. Pensava no filho e chorava.
A viagem transcorreu tranqila. Chegaram cedo do Grupo Esprita da Prece, o ncleo esprita onde o mdium trabalhava. Muitas pessoas j estavam presentes, em fila. 
L a me de Serginho encontrou outras mulheres que, como ela, sofriam pela perda de filhos. Conversou um pouco com algumas e constatou quanta dor tambm guardavam 
em seus coraes.
Entretanto, apesar do sofrimento, aos poucos ela foi sendo envolvida por suave conforto. A dor diminuiu levemente e ela experimentou uma serenidade que h muito 
tempo lhe faltava.
Esperaram algumas horas e, finalmente, aproximou-se o momento do incio do trabalho: Chico Xavier estava chegando.
 Venha, Eugnia, venha ver nosso amado Chico.
Eugnia acompanhou Eunice e viu chegar, amparada por amigos, aquela figura doce e generosa. Assim que olhou para ele, sentiu sua grandeza e uma luz a invadiu, deixando-a 
ainda mais serena.
As atividades da noite desenvolveram-se como de costume: leitura do Evangelho, comentrios, oraes. Dona Eugnia estava embevecida com tanta claridade que lhe banhava 
a alma. Havia at esquecido, por instantes, o motivo central que a levara at ali, suas dores e preocupaes. Sentia-se aconchegada e amparada, como se mos invisveis 
a tomassem no colo. Sorria pela primeira vez em tantos meses, olhando aquele homem quase etreo, diante dela.
Ao final do trabalho, porm, uma surpresa estava reservada para Eugnia. Chico Xavier recebera algumas mensagens, uma das quais, com poucas palavras, estava endereada 
a ela. Mas, incapaz de sair do lugar, subitamente assustada, parecia colada ao banco. Foi Eunice quem se levantou, ao perceber a dificuldade de Eugnia, e correu 
para pegar a mensagem. Entregou-a  amiga, que agora chorava.
Ela abriu o pequeno pedao de papel com as mos trmulas e leu o singelo recado:
"No se atormente mais com nosso garoto. O socorro vir. Continue orando por ele. 
Lvia."

Dona Eugnia leu e releu a pequena mensagem umas duzentas vezes, sem conseguir despregar os olhos daquele recado.
Ao final, quando todos retornavam, a caminho do hotel, Eunice perguntou  amiga, percebendo-a mais aliviada:
 E a? O que diz a mensagem?  do Serginho?
 No, Eunice,  de Lvia.
 Quem  Lvia?
 Uma sobrinha muito querida que j partiu h algum tempo para a vida espiritual.
 E o que diz a mensagem?
Sem falar, dona Eugnia entregou o papel a Eunice, que depois de ler sorriu, fitando a amiga:
 Est mais tranqila agora?
 Como  possvel que um pequeno pedao de papel possa trazer tanto conforto ao nosso corao?
 No  o pedao de papel, e sim a grandeza da vida que continua sempre, Eugnia.
 Obrigada, Eunice. Vir at aqui renovou minhas foras de urna forma que jamais poderia imaginar. E se no fosse por voc e sua insistncia, no teria vindo.
 Acho que foi a Lvia que me inspirou.
 Deve ter sido! Ao voltar, Eugnia trazia o corao suavizado pela nova
esperana que nele se acendera. Sabia, sim, que sua preocupao era justificvel: o filho no estava bem; mas agora, com aquela mensagem clara da sobrinha, tinha 
certeza de que ele receberia ajuda. Redobrou tambm a coragem para dar seqncia ao Evangelho no Lar e s oraes pelo filho, como o meio de que dispunha para ajud-lo, 
fazendo sua parte.
Ao chegar em casa, era esperada com ansiedade, inclusive por Felipe, que, fingindo no acreditar em nada, guardava no fundo da alma a esperana de que algo pudesse 
atenuar a dor que igualmente sentia.
 Voc deveria ter vindo comigo, Felipe. Com certeza estaria melhor agora.
 O Serginho foi l, me? - perguntou Sueli, que no duvidava da possibilidade de comunicao dos que se foram para a ptria espiritual com aqueles que ainda esto 
aqui.
 No. Ele no veio, porm ns recebemos um grande presente, filha.
 O que foi?
Dessa vez foi Fbio quem perguntou, curioso. Sem dizer nada, dona Eugnia entregou a mensagem ao esposo.
 O que  isso?
 Leia, Felipe. Leia para todos, em voz alta.
Seu Felipe leu a curta mensagem e, quando terminou, seus olhos estavam cheios de lgrimas.
 Me,  aquela prima do papai?
 E, sim, Sueli.
 Aquela com quem voc sonhou, me?
 , Fbio, ela mesma.
Seu Felipe, embora emocionado, no entendia o que significava aquilo. Dona Eugnia ento contou a todos, detalhe por detalhe, o que havia ocorrido: como se sentira 
desde que chegara e tudo o que acontecera naquela noite.
Comeou contando um pouco mais sobre Francisco Cndido Xavier, o querido mdium de Uberaba.
 Enquanto vinha para c, pude ler um livro que fala da vida desse missionrio dos cus. Ele  realmente muito especial e desde pequeno, muito jovem, foi preparado 
para a tarefa que desempenha. E um baluarte do Espiritismo e um servidor fiel de Jesus.
Eugnia narrou a todos dados da histria de Chico Xavier4, transmitindo-lhes uma sntese do que lera sobre ele e que a havia encantado.
Finalizando, afirmou:
 E mesmo fascinante o pouco que li sobre a vida desse mdium. No entanto, o mais impressionante foi a vibrao de energia pura e luminosa que senti emanar dele. 
Parece que quando ele chegou um claro se acendeu onde estvamos.  um verdadeiro missionrio, disso no tenho dvida.
 Voc ficou sabendo de tudo isso no livro que leu, me? - perguntou Sueli, com os olhinhos atentos.
 Alguma coisa eu j sabia, Sueli. E tambm li algumas histrias da vida dele, neste livro - dona Eugnia retirou da bolsa o livro "Lindos Casos de Chico Xavier" 
-, que  impressionante; aprendi muito.
 Deixa-me ver! - Fbio arrancou o livro das mos da me.
 Eu primeiro, Fbio, a me j estava me dando!
 Calma, Sueli, deixa o Fbio olhar, depois voc v. Seu Felipe ouvia tudo em silncio, sem querer expressar a admirao que nele nascia por aquele homem desconhecido.
Dona Eugnia acrescentou ainda que aquela mensagem era uma resposta clara s suas preocupaes. E foi a que residiu a maior dificuldade: explicar ao marido o motivo 
de suas preocupaes em relao ao filho. Ele no compreendeu e ficou ainda com muitas dvidas. Todavia, a mensagem era clara.
Como poderia haver qualquer farsa no que acontecera? Como algum saberia de sua sobrinha? Deveria haver alguma verdade em tudo aquilo, pensou seu Felipe, ao final 
da noite. Ao se deitarem, ele disse  esposa:
 Quando voc vai ao centro?
 Na quarta-feira.
 Vou com voc, quero conhecer um pouco melhor.
 timo! Que bom, Felipe. Sei que ir fazer muito bem a voc.
 Voc sabe que no me deixo enredar por qualquer coisa, Eugnia, no tenha expectativas. S quero entender melhor o que ocorreu com voc nessa viagem. Como  possvel 
algum saber assim de uma pessoa como Lvia,  o que mais me intriga.
 , Felipe... Os mortos no esto mortos, eles vivem. Lvia est viva! E pde mandar essa mensagem carinhosa, para nos consolar.
Seu Felipe matutou muito antes de adormecer, naquela noite. Estava intrigado e curioso, queria conhecer mais. Dona Eugnia tambm demorou a dormir.

4Chico Xavier: mais informaes em notas complementares

 Apesar da dor profunda que insistia em apertar seu corao, sentiu uma suave alegria pela deciso do marido e teve a certeza de que uma nova fase se abriria para 
eles.
Dias mais tarde seu Felipe acompanhou a esposa ao centro esprita, bem como na semana seguinte, e na outra novamente. 
Passou a se interessar e a estudar, tornando-se mais um defensor do Evangelho no Lar. Comeou a participar e no parou. Ao menos esse consolo dona Eugnia tinha: 
agora a famlia estava toda reunida em torno do Evangelho.




Captulo 15
O socorro
O estado de Serginho piorava; j no dormia, mantinha-se constantemente desperto. Ouvia gritos e gemidos, sem ter a menor idia de onde vinham. Quase no podia mover-se, 
sentindo-se preso sem saber onde. Encontrava-se sempre envolvido por uma espessa escurido que o deixava apavorado e desesperado. Pensava na me o tempo todo e pedia 
que ela o ajudasse; no adiantava: sentia-se cada vez pior, no melhorava...
Desconfiava que aquilo no era um sonho, no podia ser, porque sonhos nunca duravam tanto, e por outro lado no compreendia o que de fato estava acontecendo. Perdera 
toda a noo de tempo e espao, apesar de ter plena conscincia de seus pensamentos e emoes. Seu corpo tambm lhe parecia muito estranho: mesmo sem poder mov-lo, 
sentia-o por inteiro e em cada uma de suas partes. Sentia os ps, as mos, sem movimento algum. Queria sair daquele lugar, mas no conseguia. E desesperava-se cada 
vez mais.
Ele no tinha nenhuma noo de quanto tempo transcorrera e sofria profundo cansao, chorando amargurado. Naquele dia, em especial, o desespero foi maior e comeou 
a recordar o culto domstico que a me fazia. Lembrou-se das oraes, de algumas lies que havia escutado, e a saudade da me foi ainda mais forte:
 O que se passa? Me, me ajuda! Onde voc est? Pra onde voc foi? Onde est todo mundo?
Erguia mais e mais a voz em pranto entrecortado de soluos:
 Deus, deve existir um Deus! Me ajuda, meu Deus! Ser que estou enlouquecendo? No entendo o que se passa!
 No, Serginho, voc no est enlouquecendo.
 Quem disse isso? Quem est a? Por favor, me ajude! Estou desesperado e  a primeira vez em muito tempo que consigo falar com algum! No v embora, por favor!
 Calma, voc no est sozinho.
 Quem  voc?
 Por enquanto, s posso pedir que tenha pacincia e conserve a calma. Voc logo estar melhor.
 O que se passa comigo? Por que no consigo ver voc? O que est havendo? Como voc sabe meu nome?
 Serginho, tenha f em Deus, confie nele e voc logo estar livre da priso em que se encontra.
 Priso? Estou em uma priso? Por qu? O que foi que eu fiz? Onde fica esta priso que no consigo nem me mexer?
 No posso explicar mais nada por enquanto. S peo que seja paciente e ore; ore para que possamos tirar voc daqui.
 Orar? Como? No sei orar direito!
 Voc conhece a orao do Pai Nosso?
 Pai nosso que ests nos cus... Essa?
 Essa mesmo. Lembra-se dela inteira?
 Mais ou menos, mas posso tentar; minha me sempre terminava suas preces com essa orao.
 Ento se concentre quanto puder e ore, pensando com vontade e f em cada uma das palavras dessa orao. E pea a Deus que o ajude. Voc logo estar livre. Agora 
ore, Serginho, ore.
 Por favor, diga ao menos onde estou; que lugar  este?
Nenhuma resposta se fez ouvir; silncio absoluto outra vez.
 Ei, voc est a? Para onde foi? - Serginho insistiu, angustiado.
Silncio.
 Por que no responde?
Acabou por aceitar que estava novamente s. Chorou de raiva, depois de angstia e outra vez de raiva. Como algum podia deix-lo assim, sozinho naquelas condies? 
Por fim, lembrou-se da orao que a suave voz lhe sugerira e contendo o pranto se ps a repeti-la.
A princpio orava maquinalmente, at que uma fora surgiu de seu interior, fazendo as palavras adquirirem sentido, e ele compreendeu o significado da prece5. Pensou 
ento no Criador no Universo como nunca o fizera antes. Pensou que se Deus estava em toda parte por certo poderia ajud-lo. Pensou na grandeza do Criador e em seu 
amor, e comeou a acalmar-se. A f em Deus brotava aos poucos em seu jovem corao cansado. Era apenas uma pequena chama, porm estava acesa. Quanto mais repetia 
mentalmente a orao do Pai Nosso, mais aquela nova e boa emoo o envolvia, e ento chorou e orou sem parar.
Muito tempo se passou at que Serginho se acalmasse por completo, e foi a que percebeu um pequeno vulto ao longe. Uma figura indistinta, rodeada por suave luz aproximou-se 
pouco a pouco, at chegar bem perto dele.
 D-me sua mo, vamos. Estenda sua mo.
 Quem  voc?
 D-me sua mo, Serginho, venha comigo. Aquele doce pedido, ele ergueu as mos, e tocou nas
mos delicadas estendidas em sua direo.
3 A prece: mais informaes em notas complementares
 Muito bom. Agora, levante-se.
Sem perguntar nada, e sem maiores esforos, ele se ergueu e em alguns instantes estava ao lado daquela linda garota.
 Mas... Quem  voc? Seu rosto me parece to familiar...
  somos muito familiares, mesmo. Agora vamos, depois conversamos.
 Voc veio me buscar nesta priso pra me levar finalmente pra casa, n?
 De certo modo, Serginho.
 Como assim, de certo modo?
 Quero que confie em mim. Por ora voc precisa descansar, dormir.
 No, estou cansado de dormir! E se eu dormir e voltar pra aquele lugar horrvel? No!
Serginho divisou outros vultos se aproximando, um a um, e vrios deles foram ficando definidos.
 Quem so todas essas pessoas?
 So amigos, vieram me ajudar a lev-lo daqui.
 Isso est muito estranho! Quero saber quem  voc. No vou a lugar algum sem saber quem so vocs!
 Serginho, olhe bem para o meu rosto. Com ateno. Tente lembrar-se de onde nos conhecemos. Faa um esforo.
Serginho olhou-a por instantes, fazendo grande esforo, pois para sua mente confusa e perturbada era difcil funcionar normalmente.
 No consigo. No sei, s me parece familiar.
 Sou Lvia, sua prima. Recorda-se?
 Lvia, minha prima?
Olhou-a firmemente, empenhado em tentar lembrar.
 Claro,  isso mesmo, Lvia! Vi sua foto uma vez,  voc... Mas voc morreu h muito tempo!... Que brincadeira... Pera a, me explica isso... Como estou falando 
com voc?
Lvia permaneceu em silncio por alguns instantes, depois lhe disse:
 Voc est aqui conosco, Serginho, voc veio para c tambm. Antes da hora,  verdade, s que j est aqui e vamos cuidar de voc.
 Voc quer dizer que... Que morri? E isso? Que brincadeira  essa?
 Voc duvida dos seus prprios olhos?
Num breve instante tudo veio  mente do rapaz: o acidente, o velrio, a tristeza dos pais, o silncio absoluto, a angstia e o desespero. E ele compreendeu o que 
ela dizia, compenetrando-se de que era verdade. Estava morto.
 Como isso foi acontecer comigo, meu Deus? Sou muito jovem para morrer!
 Voc tem toda a razo, veio para c antes do que devia...
 Como assim? Meu Deus! E agora? Mas... Como continuo sendo eu mesmo? Estou vendo meu corpo, como sempre foi... No consigo entender...
 Serginho, por favor, acompanhe-nos, viemos para ajud-lo. Acalme-se. Sente-se aqui um pouco e relaxe. Durma. Quando acordar, estar bem melhor, eu prometo.
 Promete? Jura que no vai mais desaparecer? Que no vo me deixar sozinho de novo?
 Claro. Agora que voc est liberto, ser mais fcil.
 Liberto do qu? De onde?
 Mais tarde, quando estiver mais tranqilo, vamos conversar sobre tudo, tudinho. Pode confiar em mim. Responderei tudo o que eu souber, e voc vai entender melhor.
 No pode ser... No posso ter morrido. No  justo, sou muito jovem. Tenho tanta coisa pra fazer... No pode ser, deve haver algum erro.
 ... Voc tem razo. H alguns erros. De qualquer modo o que est feito... Est feito.
 Como assim? Que erros? No quero! No quero morrer... Quer dizer, no posso estar...
Envolvido por energias sutis e serenas, emanadas do grupo que acompanhava Lvia, o rapaz foi induzido ao sono, para que pudesse ser socorrido e auxiliado.
Lvia aconchegou-o ao peito como uma criana, e o grupo partiu.




Captulo 16
Difcil despertar
Sem saber quanto tempo dormira, Serginho despertou lentamente. Olhou  sua volta e viu-se num lugar muito sossegado. O silncio era quase total. Registrava somente 
vozes suaves ao longe, conversas distantes. Observou o teto, e depois as paredes, procurando identificar o local em que se encontrava. Era um quarto com fraca iluminao, 
o que no o impedia de constatar que se tratava de ambiente pequeno, contendo apenas a cama, onde ele estaya, e alguns poucos mveis. O lugar lhe transmitia suavidade 
e calma. O jovem refletiu:
 Puxa, que bom! Finalmente estou despertando daquele sonho horrvel. Eu sabia que era um sonho, s podia ser. Que terrvel! - e suspirando profundamente - Puxa! 
Graas a Deus o pesadelo acabou.
Levantou-se devagar, porm uma forte vertigem o obrigou a sentar-se na beira da cama, tentando recobrar as energias. Enquanto estava ali, a porta abriu-se e uma 
jovem com rosto radiante e familiar entrou alegremente no pequeno quarto.
 Levante-se com cuidado, Serginho. Voc precisa ir se acostumando aos poucos, sem pressa.
 Voc?!
Lvia lhe sorriu amorosamente.
 Sente-se melhor?
 Como melhor? Estava bem at voc entrar aqui! Desculpe, no quero parecer indelicado, mas pensei que tudo havia sido um sonho... Ver voc me fez lembrar de tudo. 
Ento... No foi um sonho?
 No, meu primo, embora tenha parecido um verdadeiro pesadelo. Voc est aqui mesmo, deixou a vida na Terra. Est no mundo onde vivem os espritos.
 Como isso  possvel? No posso crer! No sou um esprito, sou eu mesmo!
 Sim, e voc pensa que quando deixamos o corpo nos tornamos outra coisa? No! Continuamos a ser ns mesmos!
 Eu me recordo de voc ter dito que vim antes da hora. Por que isso foi acontecer? Como pde haver um erro desses? Quero falar com o responsvel por este lugar. 
Ele precisa me dizer como foi que um erro desses pde ocorrer.
 Serginho, o que aconteceu no pode mais ser revertido; voc entender tudo a seu tempo, tenha pacincia.
 Mas eu no quero ficar aqui, Lvia. Tenho muita coisa para fazer, tenho uma vida inteira para viver! Tem uma poro de coisas que quero realizar... Como posso 
fazer isso se estou aqui? Voc no entende? Temos de conversar com o responsvel. Se, como voc disse, houve um erro, ento precisamos descobrir quem foi que errou 
e pedir que reparem o erro, me deixando voltar. Tem de haver um jeito de eu retornar!
Lvia sentou-se na cama ao lado do primo. Sentia sua angstia e desejava auxili-lo. Contudo, temia que a verdade inteira de urna vez o deixasse ainda mais perturbado. 
Segurou com as duas mos o rosto do primo e lhe disse:
 Sei o que voc est sentindo; lembre-se de que j passei por isso e, portanto, sei exatamente como se sente. O que lhe asseguro  que a vida aqui pode ser agradvel. 
Voc poder aprender e realizar muitas coisas. Se se acalmar e encontrar seu caminho, poder renovar propsitos, se desenvolver...
 No, Lvia! No quero! Preciso voltar! - e dizendo isso, num movimento brusco se ps de p, embora titubeante.
Lvia amparou-o na vertigem que sentia e se colocou ao seu lado.
 Vamos caminhar um pouco, para que voc possa conhecer o lugar e acostumar-se.
 No quero me acostumar...
 Serginho, quanto tempo acha que j se passou desde que voc deixou a vida na Terra?
 Sei l! Como vou saber? Nem sabia que no estava mais l!
 Pois vou lhe dizer. Faz mais de um ano e meio que voc desencarnou.
 Desen... o qu?
 Desencarnou6, deixou seu corpo fsico.
 Mesmo? Um ano e meio?! E o que houve com meu corpo... Este aqui no  meu corpo?
 Esse corpo, que  igualzinho ao seu corpo fsico, com as mesmas cicatrizes e tudo,  um corpo mais sutil, mais etreo, que chamamos de perisprito7.
 E onde ele ficava quando eu estava na Terra? Como foi que nunca notei que existia?
Lvia sorriu.
Ele  muito sutil, por isso no se dava conta de sua existncia.
 E como sinto frio, fome, sono, tudo igual?
  que esse corpo tambm  material; s que a matria  mais etrea e por isso  mais leve. D para voc me entender?

6        Desencarnar: mais informaes em notas complementares
7        Perisprito: idem.
 Mais ou menos, no consigo entender direito.
 Mas sabe o que significa ter desencarnado h mais de um ano e meio?
Serginho sentou-se deprimido em um banco do belo jardim por onde seguiam. Ficou acabrunhado.
 Sei. No posso mais voltar pro meu corpo.
 No. E claro que no.
 E onde fiquei todo esse tempo? Onde eu estava? Voc disse que estava preso.
 Estava preso ao seu corpo.
 Qual deles?
 Ao seu corpo mais denso, aquele que usou na Terra.
 O qu? Quer dizer que esse tempo todo eu estava...
 Estava preso ao seu corpo, por isso a escurido.
 Por isso no podia me mover?
 Exatamente. Ficou preso num corpo inerte, que j no tinha vida; e como voc estava fortemente preso a ele e, mais ainda, sem conscincia de sua nova situao, 
no conseguia mover-se.
 Que coisa terrvel! Como algum pde deixar isso acontecer? E muito triste. Deixaram-me l um ano e meio, literalmente apodrecendo?
 Serginho...
O jovem levantou-se de novo.
 Desculpe-me, Lvia, estou indignado! Isso no se faz! Que coisa horrvel! Por que no foram me buscar antes? Quero falar com o responsvel por este lugar, por 
este processo, sei l como vocs chamam isto aqui, mas tenho de me entender com o responsvel!
Lvia, que permanecia sentada calmamente, respondeu:
 Pois bem, j que voc insiste tanto, pode falar. Fale com o responsvel.
Serginho olhou em volta e, no vendo ningum, irritou-se:
 Ento  voc a responsvel?
 No, claro que no. O responsvel  voc mesmo. Ter de se entender com voc.
 Como assim? No brinque com uma coisa to sria, Lvia.
 Eu no estou brincando.
 E como posso ser responsvel?
 Serginho, voc veio realmente antes da hora. Sua vida terminou antes do tempo devido, porque voc cometeu... uma espcie de suicdio.
 Como, suicdio? Foi um acidente de moto, no um suicdio!
 E, mas e a causa do acidente, qual foi?
 Sei l! O cho estava molhado, o nibus freou de repente, no sei ao certo.
 O que voc fazia antes do acidente, consegue lembrar?
 Estava com Paula...
Pela primeira vez Serginho lembrou-se com limpidez da namorada e gelou. Havia pensado nela, durante todo o tempo em que estivera semiconsciente, porm agora que 
conhecia seu verdadeiro estado o fez de modo diferente.
 Onde est Paula? O que aconteceu com ela? Lvia no respondeu. Apenas olhou-o fundo nos olhos.
 Ela tambm...
 Tambm.
 E onde ela est? Vocs foram busc-la?
 Infelizmente ainda no foi possvel, Serginho.
 Por que no?
H muitas coisas que voc desconhece completamente e no posso explicar tudo de uma s vez porque no adiantaria voc no iria compreender. Por isso vamos devagar, 
um pouco de cada vez, para que voc entenda. Isso se quiser, se tiver boa vontade, pois se continuar arredio e rebelde demorar muito mais tempo para assimilar uma 
srie de novos conceitos, de novos conhecimentos. No bastam as informaes,  preciso que seu corao esteja aberto para absorver as verdades.
Serginho se manteve calado por alguns instantes, e depois perguntou:
 Mas que estria  essa de suicdio, Lvia? No  verdade! Existe algum erro de informao a.
 Lembra-se do que fazia horas antes do acidente?
 Estava com Paula, comemorvamos tudo o que vinha acontecendo de bom com a gente...
 E como estavam comemorando?
Serginho olhou-a firme nos olhos, j pressentindo onde ela queria chegar, e se colocou na defensiva, relutante:
 Bebamos uma cervejinha. Qual o problema?
 O problema no foi beber. Foi o que fez na seqncia. Voc dirigia totalmente alterado sob o efeito do lcool, Serginho.
 Mas no estava bbado, s tinha tomado umas duas cervejas.
 Duas? Seja mais honesto. Sabe que foi muito mais do que isso; foram tantas que voc nem sabe quantas.
 E da? Isso no quer dizer que foi suicdio.
 Serginho, voc dirigia aps ter bebido muitas cervejas, ou seja, com o estado de conscincia afetado. E para piorar corria muito, a em alta velocidade. Seus reflexos 
eram lentos; o cho estava molhado, e o nibus parou corretamente, pois havia um farol adiante e ele freou com cuidado, bem antes do sinal. No houve qualquer imprudncia 
do motorista, muito embora at hoje ele se sinta intimamente responsvel pelo que ocorreu a voc.
 Ento foi uma fatalidade! - afirmou ele, carrancudo.
 No, tambm no foi fatalidade. Voc poderia ter evitado tudo; alis, nada teria acontecido se tivesse agido certo.
 No  justo! No foi suicdio! Eu no queria morrer! No quero estar morto! - Serginho chorava de angstia.
Lvia abraou-o com carinho e o deixou chorar at que se acalmasse.
 No  justo, Lvia. Eu no queria isso, de maneira alguma! S queria comemorar, me divertir, estava to feliz com tudo... Por que uma coisa dessas foi acontecer? 
Por que voc no me ajudou, impedindo o acidente?
 Serginho, temos o direito de tomar decises em nossa vida; isso se chama livre-arbtrio8. Decidimos todos os dias, todas as horas, nas mnimas coisas. Esse  o 
nosso direito ao livre pensar,  liberdade. Podemos pensar e agir como melhor nos parecer. No entanto, todas as nossas aes trazem conseqncias; todas, sem exceo. 
Agindo de acordo com a Lei de Deus, as conseqncias so boas, positivas. Se agirmos contra ns prprios ou contra nosso prximo - enfim, contra as leis divinas 
que regem o Universo - as conseqncias sero negativas e colheremos o resultado de nossas decises e aes; do contrrio no seramos verdadeiramente livres. Isso 
se chama lei de ao e reao. A toda ao corresponde uma reao. A escolha foi sua. E voc sabia que dirigir depois de beber era um grande risco. Sabia ou no 
sabia?
Sem coragem de levantar a cabea, ele apenas acenou afirmativamente.
 Ento no h desculpas. Voc tinha conscincia de que aquilo era perigoso e no podia ser feito. E agravou ainda mais a situao estando em alta velocidade; outra 
deciso sua, exclusivamente sua. Voc escolheu as aes, e elas trouxeram conseqncias naturais, das quais no podemos fugir, Serginho. No tem jeito. Percebe por 
que sua morte foi considerada suicdio9?
 Percebo seu raciocnio, mas no concordo! No acho justo! Tinha de haver um jeito.
Ele acrescentou, triste:
 E Paula? Foi minha culpa tambm?
 Tambm houve a participao dela no ocorrido. Serginho calou-se, abatido. As lgrimas desciam pela
sua face. Chorava de angstia e de raiva, pois desejava ardentemente que nada daquilo tivesse acontecido, queria poder voltar no tempo e agir de outro modo. S que 
agora era tarde. Como dissera Lvia, o que estava feito no tinha mais retorno. Aps demorado silncio, dois homens aproximaram-se de Lvia e do primo.
 Como est, Serginho, em seu primeiro passeio pela colnia?
 Nada bem - respondeu ele sem erguer a cabea. Os dois olharam para Lvia e logo compreenderam o
que se passava.
 Estaremos por a quando desejar companhia, seja para conversar ou simplesmente passear.
 Obrigado - respondeu o jovem a contragosto, embora percebesse amizade e carinho naqueles dois homens. - Quem so eles?
 Dois dos cinco amigos que trabalharam ativamente para resgat-lo.
 Foi to difcil assim? Por qu?
 No era sua hora, Serginho. Foi um suicdio, por isso sua energia vital era enorme e no se extinguiu com a morte do corpo. A bem da verdade, no fosse toda a 
ajuda que voce recebeu, especialmente de sua me, e sobretudo a atenuante que tinha pela situao, ainda estaria l.
 Que atenuante?
 Exatamente o fato de que voc no queria morrer, de que no foi algo premeditado, planejado e desejado. O que ocorreu foi resultado de atos inconseqentes de sua 
parte, mas o seu objetivo no era esse, da a atenuante. Nesses casos, a despeito de sofrer as conseqncias de uma morte antecipada - ernfim, de um suicdio -, 
o auxlio tambm chega mais rpido. Compreendeu?
 No muito bem. E como est minha me? Sinto tanta saudade... Senti, e sinto tanta falta dela...
 Sua me sofreu bastante e ainda sofre, porm o amor que sente por voc  um presente divino, Serginho. Ela est se fortalecendo, principalmente agora que sabe 
do amparo que voc tem recebido.
 Ela sabe de tudo o que aconteceu?
 Desconhece os detalhes, apenas sente sua angstia e ora por voc. Teme que sua adaptao na nova vida seja difcil, devido ao seu temperamento, que ela bem conhece.
 Quero ver minha me, minha famlia. No quero ficar aqui, Lvia. Agradeo muito o que voc fez por mim, mas quero voltar, quero estar prximo de minha famlia, 
minha casa, meus amigos, minha vida...
 Sua vida agora  aqui, Serginho. H tanto a aprender, existem infinitas possibilidades que voc ignora... Tantas novas experincias o aguardam... No h mais nada 
a fazer em sua antiga vida; s sofrimento, acredite-me. No ser bom para voc. Aproveite a ajuda enorme que recebeu e comece vida nova.
Lvia apelava com ternura para o bom senso e o raciocnio do primo, porque sabia o que o aguardava caso decidisse retornar. E quanto mais ela argumentava, mais Serginho 
sentia crescer a saudade do antigo lar e o desejo de voltar. As lembranas acentuavam-se, as recordaes lhe traziam imagens claras e podia quase sentir o cheiro 
agradvel do caf que todas as manhs a me preparava.
 Quero voltar, Lvia. Quero estar com eles.
 Mais tarde, quando estiver ambientado  nova vida, voc poder fazer breves incurses pela antiga casa, sem se prejudicar, Serginho. Por enquanto  prematuro; 
ir sentir-se muito fraco, em especial emocionalmente. No est pronto para retornar.
 Mesmo assim,  o que quero fazer. Quero voltar. Quero ficar prximo da minha famlia.
 Voc vai se arrepender.
 No acredito. Meu lugar  l e no aqui.
 Est bem, Serginho. Tenho de conversar com alguns amigos que foram importantes no seu resgate, e trago logo a resposta. De qualquer forma, precisamos da autorizao 
deles.
Enquanto Lvia se dirigia calma e serenamente por uma das vielas ladeadas de pequenas flores coloridas, num imenso parque, Serginho, ansioso, observava o que havia 
ao seu redor, sem, no entanto, atentar para a beleza do lugar, a pureza do ar e a suavidade do ambiente. S tinha um pensamento: regressar ao antigo lar. E a ansiedade 
o dominava por inteiro.
Depois de algum tempo, Lvia retornou com ar srio. J no sorria descontrada como fizera todo o tempo que ficara ao lado do primo. Parecia mais compenetrada e 
preocupada.
Ao v-la e notar-lhe o semblante srio, Serginho levantou-se:
 O que foi? No vo me deixar ir?
 Prepare-se. Estamos a caminho. Esperamos Josu e Antnio, dois amigos que nos acompanharo. Eles estaro aqui em breve e partiremos de imediato.
 Ento por que est to sria, Lvia?
 Voc no entende, no ?
 No entendo o qu?
 Entristeo-me porque sei o que o aguarda.
 No adianta querer me convencer a ficar. Eu quero voltar!
 E vai voltar, no se preocupe.
Em poucos minutos Antnio e Josu juntaram-se a eles e iniciaram o regresso, Serginho amparado por Lvia de um lado e Antnio do outro, com Josu  frente.
 Segure-se em ns dois e ore. Feche os olhos e ore. Logo chegaremos, mas no pare de orar.
 Por qu?
 Serginho, ao menos nisso voc tem de colaborar. Se quer voltar, precisa ajudar.
 Est bem. Pode ser o Pai Nosso?
 Claro que sim.
O rapaz fechou os olhos para melhor concentrar-se e comeou a orar. Repetiu a prece algumas vezes e ento ouviu a voz de Lvia:
 Chegamos.
Serginho, ansioso, abriu os olhos e perguntou: -J?
Estavam em frente  porta de sua casa.
 Aqui estamos, meu primo. Lembre-se de que a orao  forte ligao com Deus. Se tiver problemas, no hesite em orar. No se esquea disso, est bem?
 Claro. Obrigado, Lvia, obrigado por tudo. Obrigado, Antnio; obrigado, Josu. Ficarei bem, no se preocupem.
Lvia olhou para o primo e beijando-o na face despediu-se. Sozinho diante daquela porta, Serginho ficou emocionadssimo. Nunca sentira tanta saudade daquelas escadas 
que tantas vezes subira e descera to alegremente. Ficou ali olhando a porta e as escadas por longo tempo, sem coragem para entrar. Por fim, ao sentir-se preparado, 
procurou abrir a porta, sem sucesso. Tocava-a e era como se ela lhe escorregasse das mos. No conseguia faz-la abrir-se. Tentou com insistncia, e no teve sucesso. 
Pela primeira vez percebeu que realmente estava numa condio diferente. Sentou-se na beira da calada para esperar, enquanto pensava: "Bom, em algum momento, algum 
vai aparecer e entro junto".
Serginho observava outras pessoas que caminhavam pela rua, pelas caladas, algumas com olhar triste, outras totalmente transtornadas. O que estaria ocorrendo com 
elas? Normalmente o lugar onde morava era tranqilo, com gente comum a andar pela calada; j aquelas pessoas, na maioria, lhe pareciam desesperadas, verdadeiras 
almas penadas. Umas passavam por ele como se no o vissem, outras o olhavam e nada diziam. Achou tudo estranho demais...
Muito tempo depois, uma perua escolar estacionou e Sueli e Fbio desceram, conversando despreocupados. Vinham falando sobre algo que acontecera na escola naquele 
dia. Assim que os viu, Serginho levantou-se feliz e saudoso. Queria abraar os irmos e correu ao encontro deles:
 Sueli, que saudade! Fbio, como voc est, garoto?
Eles continuavam conversando, e passaram por Serginho como se fosse por dentro dele. Sem tempo at para demonstrar seu pavor, o irmo os seguiu rapidamente, pois 
tinha de aproveitar e entrar com eles na casa. Quase se colou a Sueli, e atravessou a porta antes que ela a fechasse outra vez.
Quando se viu no antigo lar, o jovem emocionou-se intensamente. A me, como de hbito, estava na cozinha terminando de preparar o almoo. Serginho queria abra-la. 
Aproximou-se e beijou-a na face. Ela nada percebia. Queria que o abraasse tambm, era isso que desejava, porm dona Eugenia ficou conversando com os outros filhos, 
sem notar sua presena. Sentiu-se rejeitado.
Deixou a cozinha e foi ao antigo quarto, desejoso de rever suas coisas. Surpreendeu-se ao encontr-lo totalmente diferente, transformado em um quarto de hspedes. 
Apenas sua bateria estava ali, todinha montada. Decepcionado, pensou: "Eles mudaram tudo! Minhas roupas, minhas coisas, no tem mais nada aqui! S restou a bateria!".
Serginho sentou-se em um canto do quarto e, segurando os joelhos com os braos, chorou sentido. Estava profundamente angustiado. De sbito, ouviu uma voz bem perto:
 Est triste, garoto? Quer ajuda? Serginho levantou-se, espantado.
 Quem  voc?
 De vez em quando ando por aqui. Geralmente no consigo ficar por muito tempo, porque tem uma mulher que fica rezando a toda hora; a casa se enche de luz e tenho 
de sair, ir embora. Mas vejo que voc est muito sozinho, precisando de companhia.
Ao verificar o olhar inquieto e esquisito do homem que lhe falava, Serginho respondeu assustado, enxugando as lgrimas:
 Obrigado, estou bem. Quero ficar sozinho.
 Nunca estamos sozinhos, rapaz. H sempre algum nos observando.
 Como assim?
 Se voc no pode ver a todos, muitos podem v-lo sem que perceba. Alguns sabem fazer isso muito bem. Tome cuidado.
 Vou tomar. Agora quero ver minha me. Serginho ergueu-se e voltou para a cozinha. Quando
entrou, percebeu que aquele homem que encontrara continuava ao seu lado.
 O que quer aqui? Pode ir embora!
 O, rapaz, fao o que quero, vou para onde quero, voc no pode me dar ordens, no. Se quiser, passo a morar aqui e pronto. Voc no pode fazer nada.
Serginho calou-se. Tentou participar da conversa da me com os irmos, mas no conseguia tirar a ateno daquele homem que insistia em ficar por perto. Subitamente 
angustiado e fraco, sentou-se no cho da cozinha, a fitar a me e os irmos que tanto amava... Tinha vontade de gritar que os amava, em alto e bom som. Entretanto, 
nada podia fazer... Eles no o ouviriam.




Captulo 17
O Evangelho no Lar
Alguns dias se passaram. Serginho sentia fome e sede; estava fraco. Ainda que junto da famlia, como havia desejado, via-se invadido por aflio e tristeza. E havia 
aquele homem estranho sempre prximo, incomodando-o, e muitas vezes vinha acompanhado por outros.
Naquela noite, aps o jantar, viu chegarem outras pessoas. Todas tinham aparncia de doentes, e na grande maioria no viam Serginho. Pareciam conduzidas por outras, 
que por sua vez no eram vistas pelo rapaz. Este notou que a sala onde sua famlia se reunia foi tomada por nova claridade. Todos participavam, inclusive seu pai.
O homem que constantemente perambulava por ali disse a Serginho:
 Bom, vou dar umas voltas. Hoje  dia do Evangelho no Lar, aqui. Eles so espritas e cismam de realizar esse tal de Evangelho todas as semanas. E um horror. Quase 
sempre tenho de sair, como hoje, e s vezes  difcil voltar...
O homem disse aquilo e saiu atravs da parede da sala, diante do olhar surpreso de Serginho.
 Ser que  assim que a gente se movimenta por aqui? -indagou a si prprio.
No mesmo instante, viu dois homens que lhe sorriam.
 Como vai, Serginho?
 Vocs me conhecem?
 Sim, bastante. Somos assduos freqentadores do Evangelho na casa de seus pais. Temos participado desde quando sua me comeou sozinha a estud-lo. Ver agora a 
famlia toda unida em torno do Evangelho  motivo de muita alegria, pois certamente tero suas foras redobradas.
 Quem so vocs?
 Somos amigos.
 Sim, mas quem so?
 Somos amigos de sua famlia e, quando estamos em trabalho por perto, sempre participamos. Soubemos do seu resgate e ficamos felizes. Pena que voc decidiu voltar. 
No tem mais nada a fazer aqui, Serginho, no percebe?
 J sei, foi a Lvia que pediu que vocs viessem me obrigar a ir embora.
 De forma alguma! Ningum vai obrig-lo a nada, pode ficar tranqilo. Voc sempre far suas escolhas.
 L vm vocs de novo com essa conversa d escolhas...
Serginho ia questionar os dois homens, quando eles pediram silncio. O Evangelho ia comear.
Serginho sentiu-se um pouco mais leve e reconfortado naquela noite, como se tivesse sido alimentado.
Ao final, os dois homens, que haviam permanecido o tempo todo com os olhos fechados e os braos estendidos sobre cada pessoa da famlia, alternadamente, dirigiram-se 
ao jovem mais uma vez:

 Tem certeza de que no quer voltar para junto de Lvia? Podemos ajud-lo.
 Certeza absoluta. Estou bem aqui.
Sem dizer mais nada, os dois partiram, bem como aqueles que pareciam doentes. Serginho sentou-se no sof, ao lado da me, com a impresso de estar absolutamente 
s. Dona Eugnia sentiu um aperto no peito e pensou no filho.
Ao deitar-se, orou por ele com pleno sentimento de amor.
***
Os dias se sucediam e a vida na casa do jovem transcorria normalmente. Por diversas vezes, viu a me chorando com sua foto nas mos, escondida dos outros filhos 
e do marido. No restante, contudo, a vida deles continuava. Via que todos tinham seus afazeres e seus interesses. Ele observava a si prprio, triste e acabrunhado, 
fraco, quase sem poder andar direito e completamente desanimado. Sentia-se sem esperanas, sem nada. Apenas as lembranas de sua antiga vida estavam sempre com ele; 
daquela vida para a qual no poderia mais regressar. Abatido ao extremo, percebeu que os nicos momentos de maior alvio eram os que tinha no dia do Evangelho. Naqueles 
cinqenta minutos, ficava mais disposto e com a sensao de que ainda poderia ser feliz. Quando o Evangelho terminava, via-se novamente entristecido e sem foras.
Foi a que os estudos realizados na casa passaram a despertar-lhe maior ateno e compreenso. Devagar, e sem dar-se conta, o rapaz comeava a captar as verdades 
espirituais, com as quais lutara to teimosamente. Dona Eugnia, intuda pelos espritos amigos, passou a fazer comentrios mais extensos sobre a vida espiritual, 
apoiada nas coisas que vinha aprendendo nos livros. Serginho, apesar

de ainda resistir a aceitar a realidade, percebia que no mais poderia ignor-la. Dia aps dia, foi entendendo alguns fatos que lhe pareciam muito estranhos a princpio, 
e ficava ansioso para que a noite de Evangelho chegasse.
A medida que compreendia um pouco mais, tomava conscincia de sua situao e de como deixara para trs, junto de Lvia, algo importante que desconhecia. Sua condio 
comeou a causar-lhe grande aflio.
Ento uma noite, logo aps o Evangelho, totalmente esgotado ele orou: "Meu Deus, estou desesperado! No tenho mais lugar nesta vida, e no quero outra! Me ajude 
a aceitar o que me aconteceu! Meu Deus, me ajude! Pai Nosso que ests nos cu, santificado seja teu bendito nome"...
Sua splica era sincera e estava dominado por forte emoo, enquanto copioso pranto lhe banhava o rosto. Ao final da orao, sentiu algum tocar sua face:
 Finalmente, est comeando a compreender, Serginho. H algo muito melhor aguardando voc. S precisa querer!
 Lvia! Voc! No est chateada comigo por no ter ouvido o que me dizia!1 Estou envergonhado...
 No se entristea por isso. Sei que muitas vezes precisamos ver com nossos prprios olhos para acreditar. Acho que j chega de sofrer, no! Podemos ir?
Serginho levantou-se, auxiliado pela prima. Olhou uma vez mais tudo ao seu redor com carinho e saudade indescritveis. Era difcil para ele a partida. Ainda desejava 
ficar.
Foi at o quarto da me, que se preparava para dormir. Olhou-a com ternura, e envolveu-a em forte e suave abrao. Depois fitou o pai, que lia, acomodado  cabeceira 
da cama. Percebeu que uma luz branda banhava aquele quarto. Pela primeira vez, desde que retornara ao lar, enxergava aquela luz suave, que no dependia da lmpada 
nem da claridade do sol. Era uma luz que emanava da prpria casa.
Em seguida, foi at o quarto dos irmos. Achegou-se a Sueli, que dormia calmamente. Beijou-a na face, e ela remexeu-se na cama balbuciando as palavras:
 Eu amo voc, Serginho, e sinto saudade. Serginho, que se fazia acompanhar por Lvia, interrogou-a:
 Ela pode me ver?
 No. Mas como Sueli  sensitiva, percebe-lhe intensamente a presena, mesmo sem ter conscincia disso. Voc notou como ela se tornou mais triste nos ltimos meses?
 E verdade. A me ainda comentou isso dias atrs. Vi que estava preocupada com Sueli.
 Pois , Serginho, essa tristeza  sua.
 Como assim?
 No  um sentimento propriamente da Sueli, e sim seu. Ela apenas absorve sua tristeza, como um rdio capta ondas magnticas. A mente dela, especial e preparada 
para captar as ondas de outras mentes, e afinada como estava com voc, apreendeu imediatamente suas emoes. Sueli est adoecendo lentamente. Ser muito bom para 
ela que voc se afaste agora, para que possa se recuperar.
Sem dizer nada, ele olhou-a mais uma vez e, afagando seu rosto com delicadeza, disse-lhe:
 Desculpe, Sueli, no queria te deixar triste. Sueli remexeu-se na cama e sorriu, serena.
Depois foi a vez de Fbio. Serginho entrou no quarto e contemplou algumas fotos suas pregadas  parede do quarto do irmo. Quanta admirao nutria por ele! Percebeu 
o carinho que tinha de toda a famlia e seu desejo de ficar cresceu ainda mais. Lvia, observando-lhe a dificuldade, abraou-o e disse:
 Algo muito melhor o aguarda, acredite em mim. Voc ir compreender. Depois, no futuro, poder estar sempre perto deles, voc ver!
 Queria falar com minha me, dizer quanto a amo... E como sinto por lhe causar tanta tristeza...Queria dizer a todos eles quanto os amo tambm...E que continuo 
vivo!
 Voc poder faz-lo, no momento certo.
 Promete?
 Prometo. Agora, segure-se em mim e vamos. Serginho deixou-se por fim conduzir pelos braos
firmes da prima e, fechando os olhos, comeou a orar enquanto partiam. As lgrimas corriam pelo seu rosto, porm ele no tinha mais foras para resistir. Sabia que 
precisava aceitar.




O Aprendiz
Terceira Parte

Captulo 18
Novas lies
A partida foi extremamente dolorosa. Agora que Serginho tinha conscincia da sua condio atual, a separao daqueles que tanto amava lhe dilacerava a alma; era 
como se um grande machado tivesse feito um buraco em seu corao e retirado dele um pedao. Que dor no peito, no corpo inteiro!
Ao chegarem na colnia, Lvia levou-o novamente ao pequeno quarto, onde despertara aps o socorro inicial, e falando-lhe com ternura pediu:
 Descanse, voc precisa recobrar as foras. Descanse, durma. Voc se sentir bem melhor mais tarde, e ento poderemos conversar. Temos tempo para falar. Deve recuperar 
as energias para que possa compreender o que o espera.
 No tenho vontade de nada, Lvia; queria que a morte fosse um silncio profundo, que no houvesse nada...
 No diga isso, Serginho. Voc no sabe o que esta falando. H vida aguardando por voc; novas alegrias, muitas coisas boas...No se deixe abater dessa forma. Agradea 
a Deus por estar aqui, Serginho, entre amigos. Agradea e no desanime.
Com o olhar cansado e quase sem foras ele balanou a cabea, envergonhado. Sabia que ela estava certa, e queria confiar no que dizia. Enfiou-se na cama e fechou 
os olhos, tentando dormir. Seus pensamentos eram confusos e sentia o corao agitado e aflito. Porm, aos poucos, envolvido na suavidade e na serenidade indefinveis 
do lugar em que se encontrava, deixou seus olhos pesarem mais e mais e, finalmente, entregou-se ao sono reparador.
***
Dias mais tarde despertou refeito, recebendo os raios de sol que entravam suaves no pequeno quarto. Levantou-se e procurou gua. Ao ver um pequeno jarro com gua 
fresca notou que algum havia cuidado dele enquanto repousava. Minutos depois Lvia entrou animada:
 Puxa! Que bom que acordou! Esteve dormindo por longo perodo!
 Quanto tempo? Ser que foi por mais um ano e meio?
 No, claro que no. Dormiu por trs dias.
 Menos mal.
 Vejo que j est mais refeito.
 Um pouco, mas ainda sinto uma estranha dor no peito. Quando retornvamos, julguei ser a dor da separao; hoje percebo que  como se meu peito se partisse... Di 
muito.
 Precisar de pacincia para se recuperar completamente. Isso que voc sente ainda  reflexo da forma como desencarnou.
 Como, se este aqui  um corpo diferente, espiritual? Como posso ter a mesma sensao de quando morri?
 Exatamente por isso. A leso que houve em seu corpo fsico afetou seu corpo espiritual, porque ele  matria, apesar de menos densa.
 D pra explicar melhor?
 O perisprito, esse corpo que mantemos quando desencarnados,  semelhante ao corpo fsico, s que mais leve, menos material. Ele fica entre o corpo fsico e o 
esprito, fazendo como que uma ponte entre ambos, e completa a composio do nosso ser integral. Tudo que fazemos com o corpo fsico deixa marcas no perisprito. 
Se cuidarmos mal do nosso fsico, se, por exemplo, nos entregarmos a vcios que o danifiquem, estes deixaro igualmente marcas profundas em nosso perisprito.
 Quer dizer que ainda tem o esprito?
 Sim, e esse  o mais importante.
 E por que nosso esprito no pode ficar livre de uma vez?
 Porque no podemos viver sem algo de material, ao menos por enquanto.
 Por qual motivo?
 Precisamos nos elevar, nos espiritualizar, adaptando-nos a cada nova condio. Um dia, porm, quando estivermos totalmente purificados, seremos luz. A matria 
nos imobiliza, nos protege de nossa prpria inconsequncia.
 Como assim?
 Nosso pensamento cria, Serginho. Se o homem encarnado promove tanta destruio com o pouco que consegue usar do seu poder mental, como seria se no tivesse a matria 
a dificultar-lhe a manifestao e a movimentao do pensamento? A medida que evolumos, que nos purificamos, vamos nos tornando mais e mais aptos a utilizar a mente 
para o bem. Deus  sbio, Serginho! Quanto mais compreendemos suas leis, mais percebemos que infinita  sua sabedoria.
 Como tudo isso  complexo, difcil de entender!
 V por que precisamos crescer aos poucos? At as coisas boas nos causam sofrimentos quando no estamos preparados para elas. Por isso voc deve ir com calma. Essa 
dor ser tratada devagar.
 No d pra resolver logo? No tem um remdio que me cure por completo? Ela me incomoda...
 Pacincia e trabalho, estudo e compreenso, so algumas ferramentas. Alm disso, voc passar por alguns tratamentos aqui, recebendo apoio para que possa superar 
esse sofrimento, que  mais moral do que no prprio perisprito.
 Pera a, primeiro voc me diz que  na matria, depois que  moral? O que , afinal?
 Voc causou sua morte, lembre-se. Dever libertar-se da culpa gradualmente. Muitos reencarnam e levam consigo a dor, que no futuro aparece outra vez em seus corpos 
fsicos.
Serginho olhou-a confuso e contrariado. Detestava ouvi-la dizer que fora ele prprio o responsvel pelo que sofria, e a dor no peito o afligia ainda mais. Todavia, 
tentando mudar de assunto, tocou em outro ponto que o intrigava:
 O, Lvia, voc t me deixando confuso, me explica esse negcio de reencarnar, o que significa? E viver outra vez? Como  isso?
 Temos uma reunio agora e  importante que venha. Amigos que o ajudaram o aguardam; ser um momento de alegria e bem-estar para voc, quando receber tambm tratamento 
para a dor que o aflige. Tenha calma.  necessrio que voc estude muito para poder entender as verdades espirituais.
 Pensei que ao morrer a gente descobria tudo, sabia tudo... No pensei que morrer fosse desse jeito...
Lvia sorriu e abraou o jovem com extremado carinho:
 Voc ir se adaptar. Agora vamos. Temos irmos queridos  nossa espera.
Seguiram ambos para um grande salo onde eram aguardados com ansiedade. Ao percorrer na companhia de Lvia as alamedas floridas em que estivera tempos atrs, percebia 
como aquele lugar era lindo e agradvel. A despeito disso, a dor no peito ainda o importunava.
Na reduzida assemblia que os esperava, Serginho recebeu o apoio de amigos e de alguns instrutores da colnia que o auxiliariam em sua adaptao. Aps elevada explanao 
do Evangelho de Jesus e sentida orao que envolveu a todos em luzes suaves e equilibrantes, Serginho foi convidado a conhecer algumas reas de estudo, onde poderia 
esclarecer dvidas com um orientador e desenvolver nova conscincia espiritual.
 H muito que estudar aqui, Serginho, para que voc possa realmente se adaptar, retirando o melhor desta experincia. Antes de retornar  Terra, ter a oportunidade 
de preparar-se melhor, para que sua prxima experincia -isto , sua prxima encarnao - seja bem-sucedida.
 Vou voltar logo para a Terra?!
  cedo para saber. Organizar uma reencarnao implica um processo longo e complexo de que participam muitos trabalhadores, bem como altos instrutores da vida espiritual, 
em particular quando j existe certa lucidez espiritual e o ser que vai encarnar o faz conscientemente.
 Alguns voltam sem querer?
 Muitos.  a reencarnao compulsria.
 E o tal do livre-arbtrio de que a Lvia me falou?
 Todos estamos submetidos  Lei Divina, queiramos ou no, e essa lei prevalece sobre nossos caprichos. Muitas vezes, no conseguimos escolher o que  melhor para 
ns. E a reencarnao  sempre uma grande bno. Muitos no conseguem compreender e tm de voltar, por ser o melhor para eles em determinado momento.
Serginho manteve-se em silncio, refletindo nas palavras do instrutor quanto a ter maior sucesso da prxima vez, e tambm em tudo o que abrangia um processo reencarnatrio. 
Em uma pausa do instrutor, arriscou perguntar:
 Ento eu falhei na minha vida, na minha encarnao?
 Todas as vezes em que deixamos a Terra antes da hora, sem ser para o bem geral da Humanidade, ns falhamos.
 Mas isso que vocs dizem no  justo! Eu no tenho culpa do que aconteceu!
 Serginho, voc falhou principalmente pela teimosia. Precisa reconhecer o quanto  teimoso! Precisa aprender a admitir suas falhas!
 Eu j estive aqui?
 Antes de reencarnar esteve em outra colnia.
 Existem outras?!
 Sim, existem muitas colnias e outros lugares onde os espritos se demoram nos intervalos de suas experincias na carne.
 Por que, ento, no consigo lembrar-me de nada?
 Porque no lhe  permitido, para o seu prprio bem. O mais importante agora, Serginho,  voc aproveitar a oportunidade que lhe  oferecida. Muitos que desencarnam 
em situao semelhante  sua sofrem por tempo prolongado at receberem o socorro. Concentre-se em aprender e agradea a Deus por essa oportunidade - fruto,  claro, 
daquilo que j conquistou e da ajuda constante daqueles que o amam e o sustentam com suas oraes. Procure trabalhar sua teimosia, comeando por aceitar plenamente 
a nova condio.
Serginho no tinha o que responder, diante da firmeza com que o amigo o orientava. Ainda que envolvesse aquela orientao em amorosa doura, no lhe subtraa de 
forma alguma a seriedade com que era pronunciada.

Ao regressarem, Lvia os esperava  porta.
 Por ora, aceite s mais um conselho: aproveite enquanto tem Lvia ao seu lado, pois ela ficar conosco por pouco tempo.
Serginho agradeceu e despediu-se do amigo que o alertava, apesar de se sentir entristecido pelas palavras que dele ouvira. Entristecido e contrariado.
 Voc vai embora, Lvia? Para onde? No mora aqui?
 No, Serginho. Moro em outra colnia espiritual, mas tenho ainda algum tempo para estar com voc. Vamos aproveitar.
 E onde mora?
 Como voc  curioso, no ? Quer saber tudo de uma s vez! Calma!
Seguiram os dois pela alameda que levava ao quarto de Serginho. Ao retornarem, ele se deu conta de que o lugar era uma espcie de ambulatrio, com muitos quartos 
e inmeras pessoas que pareciam mdicos e enfermeiros a entrar e sair do prdio.
Vejo voc mais tarde.
Serginho abraou a prima sem dizer nada e entrou no quarto que o abrigava.



Captulo 19
Uma inspirao
Entrou lento e cabisbaixo. Sentou-se na cama e ficou observando as paredes, os poucos mveis e objetos que havia no quarto. Pensou nas palavras que h pouco escutara 
sobre ter falhado em sua vida. Sentia-se trado por algo que desconhecia. No conseguia aceitar que fora responsvel pela prpria morte. Mesmo entendendo, no aceitava. 
Relutava contra a nova situao e saber-se criador dessa realidade lhe doa profundamente: "Como pode ser isso? Que coisa terrvel! Ento eu fui o culpado?".
Subitamente, lembrou-se de Paula e a dor no peito aumentou. "Onde ser que a Paula est? Puxa, coitada... Ser que ela tem recebido ajuda como eu?".
Por alguma razo ignorada, temia que Paula estivesse sofrendo tanto ou mais do que ele. Pensou longamente na namorada e no quanto gostava dela, ficando ainda mais 
entristecido.
Depois de muito meditar, sentado em sua cama, resolveu sair para um breve passeio. Embora fraco, caminhou at um banco do jardim ao lado de seu quarto. Contemplou 
o cu que escurecia aos poucos, anunciando o anoitecer. Uma brisa suave soprava. Serginho recordou-se de casa, da famlia, enfim, da vida que deixara, e chorou amargamente, 
quase arrependido pelas atitudes que acabaram por lev-lo quela situao. Depois de muito chorar, retornou ao quarto, pois as dores no peito se haviam intensificado.
No obstante o bem-estar que o ambiente em redor lhe proporcionava, sua alma estava em conflito e dolorida. O despertar da conscincia no tocante s conseqncias 
dos prprios atos impensados fazia brotar em sua alma a culpa, e uma nova dor surgia.
Depois que a noite desceu por completo, exaurido, voltou ao quarto. Estava exausto e sabia que precisava repousar. A noite lhe pareceu mais longa e angustiante. 
Durante o repouso, cenas do acidente se repetiam diante de seus olhos. Revia sua famlia e outras lembranas misturavam-se s imagens.
Ao acordar na manh seguinte, sua angstia no havia diminudo, nem era menor a dor que lhe dilacerava o peito.
Lvia encontrou-o muito abatido. Preocupou-se de imediato. Sabia que o primo necessitava despertar, abrir sua mente, mas que junto com o despertar vinha tambm a 
conscincia dos prprios atos, e isso era, com freqncia, por demais doloroso.
        No vai levantar-se hoje?
 No tenho vontade. Sinto-me to angustiado que nao d vontade de nada. Acho que estou deprimido...
 Quem diria!? Voc, deprimido?
 Por que diz isso?
Ora, voc sempre foi to alegre, to otimista! Precisa encontrar foras para lutar com esses sentimentos, Serginho! Precisa reagir.
  que tudo me parece to difcil, Lvia! No sei ao certo lidar com esta nova vida, a falta da vida que deixei me pesa, no sinto foras para vencer esta dor, 
e tenho tanta saudade de todos, de Paula... Tudo me parece dor e sofrimento...
 Depende de como voc encara essa nova vida. Se puder vislumbrar quanto tem para aprender, para descobrir, dentro de um novo universo de possibilidades que se descortina 
para voc...
 No sei onde est esse universo de possibilidades de que fala... E ainda por cima voc vai embora, vai me deixar aqui sozinho... O que vai ser de mim, meu Deus?
 Calma, no vou imediatamente, ainda temos algum tempo. Por isso quero que se anime, para que possamos conversar, para que voc possa aprender e descubra esse novo 
mundo de oportunidades...
 No consigo...
Lvia olhou pensativa para o primo. O que fazer para auxili-lo? Teve ento uma idia.
 Serginho, talvez uma viagem lhe faa bem. O que acha?
 Uma viagem?
 Sim! Que tal conhecer um lugar muito bom?
 Sei l! Que lugar  esse?
 Existe uma colnia muito linda, um lugar interessante, que creio que voc gostaria de conhecer. E h uma pessoa com quem eu queria muito que voc conversasse.
Lvia levantou-se e foi at a porta.
 Volto em um instante.
De fato, alguns minutos depois ela reaparecia satisfeita.
 Est aprovada. Nossa viagem est aprovada. Vamos! Levante-se, vai conhecer um lugar maravilhoso!
 No sinto vontade.
Lvia sentou-se calmamente ao lado do primo e, colocando a mo em sua testa, orou em silncio por algum tempo. A medida que orava, luzes partiam de seu corao e 
envolviam o primo, que atnito observava o fenmeno. Ele ameaou perguntar algo, e ela, num gesto, pediu que ficasse quieto. Ao final daquela curta sesso de passes 
fludicos, Serginho j se sentia mais animado.
 O que foi que fez comigo, Lvia? Que luzes foram aquelas?
 Foi s uma transmisso de energias de amor e carinho, para fortalec-lo.
 Mas que lindo! Tantas luzes...
 O lugar para onde estamos indo  muito mais iluminado. Voc vai gostar, pode ter certeza!
Mais animado, Serginho levantou-se.
 Ento vamos, estou curioso para conhecer esse lugar!
Lvia pediu que segurasse em seus braos, porque iriam volitar at a outra colnia; flutuariam pelo ar, como haviam feito da Terra at o local onde se encontravam. 
E concluiu:
 Precisa tambm se manter em orao o tempo todo. Pensar somente em Jesus e orar para que nos ampare nesta viagem. Do contrrio, no conseguiremos chegar.
Serginho, srio e compenetrado, concordou e iniciaram a viagem.







Captulo 20
Morada luminosa
Ao se aproximarem da colnia, Serginho surpreendeu-se com a luminosidade que dela emanava. Ao tocarem o solo, ele se assustou: Lvia igualmente resplandecia aos 
seus olhos; quase no podia olhar para ela.
 Lvia, o que aconteceu com voc? Como brilha!
A jovem apenas sorriu e continuou caminhando. A beleza da cidade era algo inacreditvel para Serginho. Ele nunca poderia imaginar que houvesse um lugar to lindo 
e inexplicavelmente elevado. Tinha um brilho intenso, cores fortes, tudo ali era cheio de vida, cheio de energia.
Lvia caminhou com o primo, apresentando-lhe a colnia. Mostrou-lhe lagos, rios, parques e cachoeiras. O ambiente era agradvel, com arquitetura harmoniosa e organizada, 
vibrante de atividades e pessoas que transitavam para todos os locais. Os semblantes eram invariavelmente suaves e alegres. Lvia conhecia muita gente, pois todos 
a cumprimentavam  medida que caminhavam. Alguns se demoravam um pouco mais, querendo notcias:
 Ento, esse  o Serginho?
 Sim, Marcos,  meu primo.
 Que bom v-lo recuperar-se! Estamos todos orando muito por voc, para que brevemente esteja bem.
Serginho olhou srio para os dois homens que acompanhavam Marcos. Seus rostos lhe pareciam conhecidos. Fitou-os tentando lembrar. Adivinhando seus pensamentos, um 
deles lhe disse:
 Voc realmente nos conhece. Encontramo-nos vrias vezes em sua casa, durante o Evangelho no Lar que sua me realiza.
 E verdade!
 Eu sou Marcos e este  Antnio.
 Aqui vocs brilham ainda mais do que l! Como Lvia. Nunca a vira to brilhante! Por qu?
Todos sorriram sem responder. Pela segunda vez, ningum lhe explicava o estranho fenmeno.
Despediram-se. Lvia e Serginho prosseguiram com a visita. O jovem se mostrava fascinado por tudo que via. A dor em seu peito havia desaparecido. O bem-estar e a 
leveza que sentia naquele ambiente eram absolutamente novos para ele. Jamais imaginara existir tal lugar.
 Isto aqui  o cu, Lvia?
 No, longe disso. Muito longe disso! E uma colnia onde moram espritos um pouco mais esclarecidos do que os que esto no posto de resgate onde voc se encontra. 
Aqui j temos maior conscincia das verdades espirituais e uma predisposio constante de ajudar, de trazer mais criaturas para perto de Deus. O amor tambm e mais 
puro, por isso nos sentimos to felizes neste ambiente.
        Ento, se isto no  o cu... como ser ele?!
 Serginho, h inmeras outras cidades onde residem seres mais evoludos, onde o bem-estar e a beleza so nitidamente maiores. Onde s h alegria, paz e... muito, 
muito trabalho. O trabalho em favor da Humanidade no cessa nunca; pelo contrrio,  mais intenso  medida que os mundos so mais esclarecidos no amor a Deus. Nos 
mundos evoludos, a Lei Divina  vivida por todas as criaturas. E por isso neles no h dor, nem egosmo, nem orgulho, nenhum sofrimento proveniente dessas falhas 
humanas. A Lei Divina governa todas as mentes e todos os coraes; por conseguinte todos so felizes e teis, realizando importantes tarefas no sentido do progresso 
geral do Universo. E seguem cada vez para mais perto do Pai. "Na casa de meu Pai h muitas moradas", disse-nos Jesus. Essas colnias10 e cidades espirituais so 
todas moradas do Pai, abrigando almas em diferentes estgios de evoluo.
Serginho ouvia tudo atentamente, fascinado pelas palavras de Lvia. J podia imaginar a beleza de tais lugares, e sua curiosidade se agigantava.
 No podemos ir a um desses lugares?
 No, ainda no.
 Por que no? No  s irmos voando para essas outras cidades?
 No, Serginho, no  assim que funciona. Nosso passaporte para essas cidades evoludas  nosso progresso moral, o progresso da nossa alma11. S crescendo no bem, 
no amor, no servio a Deus e ao prximo, poderemos, um dia, empreender a viagem por ns mesmos.
 Mas no conseguimos vir at aqui?
 Eu moro aqui, Serginho, portanto posso chegar a esta colnia sem maiores dificuldades. Esta  minha casa. Mas para ir a lugares elevados necessitode preparo adequado 
e da ajuda dos que j conquistaram o direito de viver acima daqui.
Serginho olhou-a, pensativo. Ento ela vivia naquele lugar maravilhoso! E irradiava aquela luz suave e doce... Pela primeira vez deu-se conta de quanto Lvia era 
especial e suspeitou do tamanho dos benefcios que recebia. Lvia concordou:
- Sim meu querido, voc recebeu muita ajuda. Compreende agora porque no deve deixar a oportunidade escapar? Precisa aproveitar para crescer, e para ser til! Precisa 
aprender a ajudar, a doar um pouco de voc aos outros. Assim e somente assim, vai crescer interiormente e comear a entender com o corao aquilo que no pode ser 
ensinado apenas com palavras. Precisa amadurecer...
- E como posso fazer isso, Lvia? Eu gostaria tanto de viver aqui com voc! Mas sinto que no seria capaz de viver em um lugar to equilibrado.
- Voc poder , um dia , elevar suas vibraes, purificar seus sentimentos e fazer do amor desinteressado ao prximo o seu sentimento dominante. Nesse dia, quando 
vibrar em seu intmo o amor a Deus e aos nossos irmos de humanidade, voc estar preparado para viver em moradas mais abenoadas.
- E como fazer isso? Como melhorar? O que preciso fazer? Quero melhorar, Lvia, para viver em um lugar maravilhoso como este e conhecer outros mais legais ainda! 
Puxa, como ser o cu ento?
- No temos capacidade sequer de imaginar como so os mundos em grau evolutivo imediatamente superior ao nosso, quanto menos recursos para supor, de longe, como 
pode ser a morada de Deusa e dos seres perfeitos que gravitam  sua volta. Temos muito que trabalhar para nos aprimorarmos, estamos muito, muito longe...
E o que devo fazer Lvia? O que posso fazer para melhorar, para crescer?
- Est disposto a pr a mo na massa? A trabalhar para o bem do prximo? De verdade?
- Estou. Quero vir logo para este lugar e viver aqui com voc! Quero fazer o que for preciso!
- Pois bem. Vamos conversar com algum que tambm reside aqui. Ele  meu instrutor, mentor de meu desenvolvimento. Vamos procur-lo. Por certo nos auxiliar com 
alguma idia do que voc poder fazer para se aperfeioar, do tipo de trabalho que poder ajud-lo nessa nova experincia.
Os dois seguiram por larga alameda cercada de rvores frondosas.

10        Colnias espirituais: mais informaes em notas complementares
11        Ascenso do esprito a mundos superiores: idem.

Captulo 20
Uma nova chance
Enquanto caminhavam, Serginho ficava mais ansioso. Decidira fazer tudo que lhe dissessem desde que pudesse ir logo para aquele lugar maravilhoso. Encantava-se a 
cada paisagem, a cada novo prdio que via e a cada semblante que divisava. Ele percebia que eram todos ocupados e compenetrados, diferentemente das pessoas que encontrava 
nos arredores do ambulatrio onde se recuperava. L observava dor e angstia em muitas faces. Na colnia que ora visitavam todos lhe pareciam felizes e entusiasmados.
Ao se aproximarem de grande edifcio, Lvia olhou firme para o primo e alertou-o:
 Serginho, voc tem contado com muita ajuda. Agora busque dentro de voc toda a fora de que sua alma dispe para aproveitar essa oportunidade da melhor maneira 
possvel. No sabemos qual ser a orientao que receber; pode ser uma instruo de que no goste, ou de que discorde. Mas ao invs de retrucar e recusar, fique 
calado, medite e tente entender. Aqui queremos somente o seu bem, mesmo que parea um tanto incompreensvel em um primeiro momento. Prometa que vai controlar seu 
temperamento, vai procurar ouvir atentamente e agir com cautela. Serginho abraou a prima, agradecido:
 No se preocupe, Lvia. Vou aceitar o que me oferecerem, seja o que for. Fao o que for preciso para melhorar.
Lvia sorriu e entraram em busca do seu mentor. Clarncio os aguardava em uma sala, cercado de muitos livros. Eram ttulos e mais ttulos enfileirados em prateleiras, 
como em uma biblioteca. Serginho notou que alguns livros brilhavam como se tivessem luz prpria. Foram recebidos calorosamente:
 Lvia, que bom v-la! E esse  Serginho?
 Serginho - disse ela, em tom de respeito e quase cerimnia -, este  meu amigo e mentor, Clarncio, que tem orientado minha trajetria.
 Prazer, seu Clarncio.
 No precisa me tratar de senhor, no. Pode me chamar s pelo nome.
 Est bem.  que Lvia fala em voc com tanto respeito...
 Lvia  um doce. E ento, como vamos ajudar? Lvia ajeitou-se em uma cadeira, Serginho em outra, e
os trs iniciaram uma conversa que durou longo tempo. Lvia contou em detalhes tudo que o primo estava experimentando e mencionou seu desejo de progredir depressa, 
de crescer, descobrindo como poderia colaborar para o bem comum.
Clarncio, que j conhecia a histria do rapaz, seguia atentamente as experincias narradas por Lvia. Serginho reafirmou seu intento:
Sabe, Clarncio? Quero vir morar junto com Lvia. Este lugar  especial, nunca vi nada semelhante, e quero vir
para c. Sinto-me to bem aqui que at as dores no peito, que tanto me incomodam, desapareceram.
 Compreendo, Serginho.
 Quero vir logo, entende? Desejo muito morar em um lugar lindo assim!
Lvia e Clarncio se entreolharam em silncio, ouvindo Serginho discorrer sobre sua vontade de mudar-se em breve para aquela colnia encantadora. Aps terminar seu 
pequeno discurso, ele olhou com ansiedade para Clarncio, que permaneceu quieto alguns minutos. Depois se levantou calmamente, foi at a janela de sua sala, que 
dava para um grande lago, e continuou em silncio, meditando. Serginho, cada vez mais ansioso, olhou para Lvia e cochichou:
 Qual  o problema?
 Espere, Serginho! Mas...
Clarncio voltou-se para o rapaz e lhe perguntou:
 Voc tem certeza de que quer fazer qualquer coisa, submeter-se a qualquer aprendizado para melhorar?
 Sem dvida! Aquilo que me fizer chegar aqui mais rpido,  o que mais quero.
 Pois bem, creio que temos um trabalho apropriado, que ir exigir muito de voc, Serginho. Inicialmente, receber um treinamento detalhado, um preparo para exercer 
sua nova atividade. Depois passar por alguns estgios, sendo acompanhado por Lvia em suas primeiras atividades, e se for diligente e obtiver bons resultados poder 
enfim assumir sua nova funo. Entretanto, se durante o treinamento e a preparao no se empenhar o bastante, no ser considerado apto a realizar essa tarefa.
 No tem problema, eu me preparo, fao o que for exigido. Qual  a atividade, afinal?
Clarncio fitou Lvia, que sorriu satisfeita, compreendendo sem necessidade de palavras o que Clarncio pretendia.
 Voc ser um aprendiz de anjo da guarda.
 Um anjo da guarda12? Que mximo! De quem?
 Um aprendiz, Serginho, por enquanto s aprendiz; vai exercitar e aprender para um dia, dependendo do seu desenvolvimento espiritual, se tornar um verdadeiro anjo 
da guarda.
 Tudo bem, um aprendiz, mas para cuidar de quem?
 Quando estiver em treinamento dever dedicar-se a diferentes pessoas. Muitos so os que precisam de ajuda, e assim voc ir exercitando antes de assumir um protegido 
com exclusividade.
 Tudo bem! Para mim est timo! Quando comeo?
 Logo que retornarem ao seu ncleo de recuperao, amanh mesmo, comear o seu treinamento. E o resto depender de sua aplicao. Quanto mais se dedicar, estudar, 
procurar aprender, mais cedo estar preparado para comear suas atividades.
 Puxa, Clarncio, como posso agradecer? Aceito de todo o corao a excelente oportunidade. Tenho certeza de que conseguirei aprender rpido e logo estarei aqui, 
vivendo neste lugar magnfico com voc e Lvia.
Clarncio abraou o rapaz, desejando-lhe muita fora, e j saam quando enfatizou:
 Seja paciente, Serginho, pois o processo  longo. Seja paciente e perseverante.
Despediram-se e iniciaram a viagem de regresso. Crescia em Serginho o anseio por comear o treinamento.
 Lvia, o que faz exatamente um anjo da guarda?
 Ajuda as pessoas, Serginho.
 Ajuda como?
 Voc ir descobrir tudo atravs de seu treinamento.
 Voc j fez esse curso?
 J, e aprendi muito.
 medida que se afastavam da colnia onde Lvia vivia ressurgiam as dores no peito de Serginho. Quando chegaran ao ncleo de recuperao, as dores j incomodavam 
o rapaz como antes.
 A dor voltou, Lvia.
 Eu sei. Tenha pacincia, com calma e determinao voc superar isso. Ore, Serginho, dedique algum tempo  orao, para colher os benefcios maravilhosos da prece.
 Vou tentar.
 Precisa exercitar a orao para que possa ser um bom aprendiz. Sem orar, no realizamos nada.
Serginho olhou-a srio. Comeava a desconfiar, ainda que ligeiramente, de que aquela atividade iria exigir dele mais do que gostaria.
 Amanh comea seu curso. Venho cedo para acompanh-lo. Descanse, precisa se refazer.

12 Anjos da guarda e espritos protetores: mais informaes em notas complementares
 Obrigado por tudo, Lvia, voc  um anjo. Sorrindo Lvia lhe disse, espirituosa:
 Agora voc tambm ser um! Ainda que, por enquanto, aprendiz...
Ele sorriu contente e entrou em seu pequeno quarto. No dia seguinte estava em p bem antes de Lvia chegar. Imaginava como seria o curso e o que iria aprender. A 
prima o encontrou ansioso e aflito:
 Lvia, o que vou aprender nesse curso, como ele ?
 Tenha calma, voc ver.
Foram juntos at o prdio onde acontecia o treinamento. L se dirigiram a uma pequena sala na qual algumas pessoas, sentadas, aguardavam o incio da aula. Lvia 
despediu-se do primo, desejando-lhe sucesso na nova tarefa.
Serginho ajeitou-se inquieto na cadeira, observando todos  sua volta. Eram pessoas de idades diferentes. Algumas aparentavam dor e angstia; outras, uma resignao 
aptica. Supunha que num curso como aquele os participantes estariam mais animados e alegres. Afinal, seriam anjos da guarda!
O instrutor do curso apresentou Serginho a todos os membros daquela turma, que j estava em pleno andamento, e orientou-o:
 Para acompanhar os outros, precisar estudar os assuntos pelos quais eles j passaram. Ao final da aula, ficamos um pouco mais e lhe dou a bibliografia que dever 
estudar, pesquisar, para alcanar a turma. Tudo bem?
Serginho balanou a cabea concordando, embora um tanto assustado. Quanto teria de estudar?
Naquele dia, saiu dali carregado de livros. Deveria l-los e meditar sobre as lies. Alguns seriam de vital importncia em suas tarefas, como por exemplo "Os Mensageiros", 
de Andr Luiz. Ele deveria estudar, anotar todas as suas dvidas e tir-las ao trmino de cada aula. O instrutor se oferecera para ficar todos os dias at mais tarde, 
ajudando-o at que alcanasse o restante da turma.
J em seu quarto, fechou a porta, sentou-se em uma cadeira e suspirou:
 Puxa vida, que trabalheira!
Olhou desanimado para a pilha de livros sobre a mesa e procurou decidir qual seria o primeiro. Caminhou at a janela e ao voltar viu sobre a cama outro livro e um 
bilhete:
"Comece por este. Lvia."
Serginho pegou o livro e folheou-o. Ele o conhecia: era "O Evangelho segundo o Espiritismo". Sentou-se na beira da cama e recordou o carinho da me, estudando aquele 
livro em sua casa, nas noites de Evangelho. Abriu-o no princpio e leu o resto da tarde.
Ao anoitecer, Lvia apareceu e saram para um passeio. Serginho estava de novo abatido e cansado.
 Quando irei melhorar, Lvia? Quando?
 Seja paciente. Precisa ler, meditar e, acima de tudo, orar. Busque Deus de todo o seu corao, Serginho. Ele vai te ajudar, como j est ajudando.
 Eu sei.  que queria melhorar mais rpido!
 Fique calmo, o importante  estar no caminho certo.
***
Os dias tornaram-se uma rotina de estudos, leituras e longas caminhadas ao lado de Lvia. Serginho sentia-se freqentemente desmotivado. Queria fazer coisas diferentes, 
conhecer lugares, queria novidades! E muitas vezes ameaou desistir. Aquela histria de ficar estudando e estudando era cansativa. Tudo bem que aprendia coisas interessantes, 
mas...
Lvia procurava estimul-lo, incentiv-lo para que no desistisse:
 No so apenas coisas interessantes, Serginho, so extremamente necessrias para que possa auxiliar as pessoas e saiba cuidar de voc ao mesmo tempo. Estar num 
ambiente mais denso e pesado do que aqui. Precisa aprender a se proteger. No desanime, voc prometeu ser paciente.
 T bom! Vou continuar tentando.
Para Serginho os dias se arrastavam. Ele estudava, meio a contragosto, pois desejava mesmo emoo, aventura e ao! O estudo lhe parecia cansativo e chato; porm, 
como no tinha outro jeito, lia e assistia s aulas com maior ou menor ateno, conforme o dia.
Dois meses depois Serginho alcanou a turma e gradativamente seu interesse se acentuou. J era capaz de concentrar-se um pouco mais nas aulas, quando o instrutor 
anunciou que comearia uma nova fase no curso. Passariam metade do tempo estudando a parte terica, como j vinham fazendo, e a outra metade seria dedicada  prtica.
Serginho vibrou! Finalmente alguma ao!
Encerrada a aula, vrios servidores mais experientes juntaram-se aos que principiavam os passos na tarefa de doar-se.
Lvia acompanharia Serginho em seus primeiros exerccios prticos. Ele ficou radiante!




Captulo 22
Experimentando
Aps algumas instrues e recomendaes, Serginho e Lvia deixaram a sala de aula, preparando-se para o primeiro exerccio prtico. Caberia a Lvia avaliar o desempenho 
do primo.
 E qual ser a misso, voc j sabe? - perguntou Serginho, curioso.
 Sim.
  importante? O que vamos fazer?
 Todas as aes de auxlio ao prximo, grandes ou pequenas, so importantes, Serginho. Pequenas aes somadas vo construindo um grande processo. Lio nmero um: 
nunca despreze uma oportunidade de auxlio, seja do tamanho que for.
 Certo, j entendi. E qual ser nossa misso?
 Lembra-se do motorista do nibus em que voc bateu com a moto?
 Claro que no! Como vou lembrar?
 No lhe falei que ele trazia na alma uma culpa oculta, achando-se responsvel pelo que aconteceu a voc e a Paula?
 Sim, e a?
 Vamos ajud-lo. Ser sua primeira misso.
 Ajud-lo em qu?
 A libertar-se de uma culpa que no necessita nem deve carregar.
 E quanto a Paula? Pensei que fssemos ajud-la. Voc disse que ela no est bem...
 No est, porm o momento adequado no chegou.
 Por que no?
Lvia fitou-o quase zangada e disse:
 Voc estudou muitos casos e sabe que cada coisa tem sua hora. Levaremos o auxlio a Paula, quando ela estiver em condies de receb-lo.
Serginho calou-se, relembrando exemplos e mais exemplos estudados. Sabia que Lvia estava certa. Ento, esboou um sorriso e afirmou:
 Tudo bem, Lvia, tem razo. Como se chama mesmo o motorista?
 Adalberto. Por hoje, descanse. Partimos pela manh. Serginho beijou-a carinhosamente no rosto ao se despedirem.
J deitado, ficou a pensar no motorista, tentando recordar o acidente. Aquelas lembranas lhe causavam dor e angstia; buscou afast-las da mente e adormeceu. Em 
sonho, reviu o acidente e o semblante do motorista lhe apareceu ntido, como se o conhecesse.
Bem cedo, Lvia e Serginho partiram. No demorou muito e entravam em pequena casa na periferia de So Paulo. Tratava-se de uma casa modesta, mas cuidada com carinho. 
Uma jovem preparava o caf da manh para duas crianas.
 Venha at o quarto. Adalberto est dormindo. Ele trabalha a noite toda e dorme durante o dia.
Quando se aproximaram, Serginho assustou-se ao perceber a ansiedade e a opresso energtica na regio do peito do homem.
 V essa rea escura no peito e envolvendo toda a cabea dele?
 Sim. Ele est angustiado.
 No conversa com ningum, no consegue externar seu sentimento de culpa pelo que ocorreu a voc e a Paula, e isso est prejudicando a vida dele. A culpa reprimida 
e dissimulada faz com que se sinta inseguro para dirigir e j lhe ocasionou vrios problemas. Instala-se lentamente uma sndrome do pnico que poder, se no for 
tratada, comprometer sua vida. Agora entende por que precisamos ajud-lo?
Serginho comoveu-se. Em seus olhos brotaram lgrimas que no controlou. "Pobre homem - pensava -, no teve culpa alguma e cobra-se...".
Lvia notou a compaixo que crescia no corao do rapaz e ficou feliz.
 Como vamos ajud-lo? - foi a pergunta que ouviu.
 Voc vai conversar com ele.
 Eu? Como?
 Vamos conduzi-lo a um ncleo esprita srio, onde este tipo de tarefa se desenvolve, e l voc lhe enviar uma mensagem. Devidamente preparado, a mensagem cair 
nele como um blsamo reconfortador e limpar toda a dor que sente. Por outro lado, receber auxlio magntico, atravs dos passes, para restaurar completamente a 
energia em seu campo perispiritual.
Por meio da intuio de uma amiga do casal, a esposa de Adalberto foi orientada a lev-lo a um ncleo esprita. A princpio ela relutou um pouco, pois no conhecia 
nada sobre o Espiritismo e tinha medo; alm do mais, no tinha idia alguma do que se passava no ntimo do marido. Para ela, tudo estava normal. Ainda assim, cedendo 
 orientao da amiga em quem confiava muito, e por quem j havia sido amparada em outros momentos, conversou com o marido.
Adalberto, apesar de estar sendo envolvido pelas energias de Lvia e pelo carinho de Serginho, relutava. No aceitou o que a mulher lhe sugeriu.
 Imagina se tem cabimento, Matilde, eu ir a um centro esprita. Deus me livre! Fazer o qu?
 A Alice falou que alguma coisa insistente lhe diz que devemos ir. Ela garante que isso  sempre sinal de que algo diferente est acontecendo. Acho que deveramos 
ir, Adalberto.
 No, de jeito nenhum! No gosto disso. E pra qu? No vamos, no.
Lvia e Serginho intensificaram seus esforos. Oravam constantemente ao lado da cama de Adalberto, buscando fixar-lhe na mente a idia, sem sucesso.
 Puxa, Lvia, que dificuldade! E se ele no quiser mesmo ir?
 Teremos de respeit-lo.
 E desistir?
No. Poderemos tentar outras alternativas, que talvez no tragam os melhores resultados.
Felizmente a esposa de Adalberto no desistiu. Continuou falando no assunto com o marido, que algumas semanas depois, para livrar-se da chateao insistente dela, 
acabou cedendo. Serginho e Lvia ficaram plenamente satisfeitos. Serginho poderia, afinal, transmitir quele homem o que era necessrio.
Na mesma noite, Serginho e Lvia dirigiram-se ao ncleo esprita, onde j haviam estado diversas vezes em atividades de preparao. L passaram a noite e o dia seguinte 
trabalhando, junto com os demais colaboradores da casa.
Matilde e Adalberto chegaram no horrio, com a amiga. Uma ansiedade inexplicvel tomou conta dele. Sentia uma expectativa por algo que no sabia definir. Sentou-se 
e permaneceu calado. Profundamente influenciado por Lvia e Serginho, e tambm por seu protetor espiritual, que cooperava com os dois jovens, pensou com insistncia 
na noite do acidente e viu claro, pela primeira vez, como a culpa o estava angustiando. Argumentava consigo prprio que no tivera culpa alguma, mas sentia que ela 
estava l.
Em determinado ponto do trabalho Serginho acercou-se do mdium que recebia mensagens e envolveu-o com carinho, da forma que aprendera. Havia treinado muito, no decorrer 
de todas as semanas em que vinham trabalhando, pois lhe parecia demasiado difcil passar suas idias quele mdium, no obstante ser ele to experiente e dedicado. 
Serginho tinha dificuldade em lhe transmitir seus pensamentos; sabia que era dele o problema, no do mdium.
No desejo sincero de auxiliar Adalberto, a quem se afeioara, esforou-se o mximo que pde e finalmente a comunicao aconteceu.
'Adalberto
No se torture inutilmente. Voc no teve nenhuma culpa. A responsabilidade foi minha e o que houve foi uma fatalidade. No se torture mais. Estou me recuperando 
e voc vai me deixar muito feliz se esquecer de vez aquele acidente e libertar seu corao dessa culpa intil. Cuide de seus familiares com amor, conforme eles merecem.
Muita paz. Serginho."
Quando Adalberto ouviu a mensagem, sentiu uma exploso de alvio em sua alma. Compreendeu que o jovem acidentado estava presente, oferecendo a ele compaixo e amparo. 
Chorava como criana, vendo-se liberto de um pesado fardo. Matilde suspeitou do que se tratava, enquanto Alice, que desconhecia por completo o ocorrido, quis saber 
maiores detalhes.

12 Anjos da guarda e espritos protetores: mais informaes em notas complementares
Terminado o trabalho da noite, Adalberto contou a todos o que vinha sofrendo e afirmou que aquela mensagem lhe havia trazido 
alvio e alegria novamente; livrara seu corao daquele peso que sentia desde que soubera da morte do rapaz no acidente.
Nas semanas seguintes, Lvia e Serginho assistiram o motorista de perto, at constatarem sua completa recuperao e seu reequilbrio psquico e emocional. A tarefa 
estava concluda.
 Bem, Serginho, hora de retornarmos. Como se sente?
 Estou bem. Embora as dores no peito ainda me incomodem bastante, sinto-me feliz.
        Vai melhorar cada vez mais, pode acreditar. Lvia e Serginho deixaram a crosta da Terra e
retornaram  colnia de recuperao onde o rapaz se preparava. Satisfeita, Lvia cumprimentou o primo:
 Parabns, saiu-se bem em sua primeira experincia.
 Voc acha mesmo?
 Acho. Um pouco impaciente s vezes, mas foi bem. Acho que conseguiu ter noo das dificuldades que vai encontrar. Sabe que, no caso de Adalberto e Matilde, seus 
coraes simples e amorosos nos permitiram ajud-los prontamente. No ser assim com todos. S os que tm corao puro e f sincera nos possibilitam uma ligao 
rpida, e a os resultados so mais eficazes. H situaes em que a nossa assistncia, infelizmente, sequer se faz percebida.
 , estudamos casos assim nas aulas. No entanto, verifico que aqui, em contato direto com as emoes das pessoas, tudo pode ficar mais difcil.
Sim, voc compreendeu. Depende muito deles, da disposio de cada um para receber ajuda, de como deixam a f crescer em seus coraes e mantm a esperana acesa. 
De qualquer modo, no se preocupe. Seu aprendizado est apenas comeando. Esse foi um exerccio pequeno e simples. Sua primeira tarefa como aprendiz de anjo da guarda 
est sendo planejada.
 Vamos poder socorrer Paula?
 Acredito que ainda no... O que no impede que a ajude desde j, orando por ela.
 J estou fazendo isso.
 timo, ento persevere. O momento chegar e voc precisa estar bem preparado.




Captulo 23
A primeira misso
Na sala, grande expectativa pairava no ar. Os aprendizes ansiavam por ouvir seus acompanhantes e, sobretudo, por saber o que viria a seguir.
Lvia fez uma avaliao detalhada da experincia e do desempenho do primo, que ficou surpreso ao ouvi-la. Suas deficincias e dificuldades, apontadas com gentileza 
e carinho, foram relatadas para que ele pudesse aprimorar-se. Serginho se chateou ligeiramente; contudo, notou a ternura de Lvia, e entendeu que era para seu bem.
No final, feitas as avaliaes, todos iriam prosseguir com as aulas tericas. Em algumas semanas, a primeira tarefa seria entregue a cada um. Serginho ficou frustrado. 
Gostara de sua experincia, e queria mais ao. Acabrunhou-se na cadeira e ficou srio. "Quando poderei voltar a agir?" - pensava, aborrecido. Lvia, que deixava 
a sala, censurou-o com o olhar. Ele compreendeu e disse baixinho:
 Eu sei. Pacincia... Pacincia!
Lvia saiu e deixou-o com suas aulas.
Sucediam-se as semanas e a expectativa de Serginho aumentava. Depois de vivenciar algumas dificuldades que suas novas tarefas lhe apresentavam, estudava com mais 
afinco. A despeito disso, sentia-se desgostoso. O tempo passava e nada de chegar o momento de agir.
Certa manh, resoluto, foi falar com o instrutor. Considerava que deveriam comear logo, que j estavam prontos.
 Sei quanto apreciou sua experincia; o que precisa entender  que ela se deu sob condies fortemente controladas e num caso bem simples. Nem todas sero assim. 
Voc enfrentar situaes muito mais complexas e precisa estar bem preparado; do contrrio poder haver prejuzo tanto para voc como para aqueles a quem ir auxiliar. 
Ainda no est pronto. Deve estudar mais, instruir-se melhor.
 Mas no ser uma tarefa acompanhada pela Lvia?
 Amparada, no totalmente acompanhada.
 Como assim?
 Lvia estar presente parte do tempo, dando as orientaes e as instrues, porm a tarefa ser realizada por voc. E creia-me, voc sentir a diferena.
 Eu sei. Lvia  experiente e tem luz prpria.
 , voc captou o que eu quis dizer. Tenha pacincia. Continue estudando com calma, o momento certo se aproxima.
 Ao menos d para saber qual ser a tarefa?
 Ainda no. Voc saber quando chegar a hora. Serginho continuava acabrunhado e contrariado.
Apesar do gosto que vinha pegando pelo estudo, fazer as coisas, estar em contato com as pessoas, era muito mais interessante e estimulante. Por outro lado, sabia 
que naquele curso a disciplina era fundamental. Messias, sempre atencioso e afetuoso, era ao mesmo tempo extremamente disciplinado e rigoroso, levando tudo a srio.
Dias, semanas se passaram, repletos de aulas e mais aulas, livros e mais livros. Complementarmente, algumas viagens  Terra para observao e aprendizagem, rpidas 
incurses com a turma toda para estudar alguns exemplos prticos. Serginho era o mais animado nessas viagens. Para ele, ainda que fossem curtas, j eram alguma coisa. 
O grupo tirava importante aprendizado dos processos examinados.
Enfim, para entusiasmo e alegria gerais, o grande momento foi anunciado. Teriam as aulas temporariamente interrompidas para estgio prtico. Receberiam a primeira 
incumbncia individual.
Serginho continuava desejando com fervor que fosse Paula a escolhida para ser ajudada por ele.
Todos estavam ansiosos. O instrutor comeou a informar cada um sobre sua misso: alguns iriam auxiliar pessoas prximas, familiares, amigos ou conhecidos; outros 
atuariam junto a desconhecidos.
Chegou finalmente a vez de Serginho. Ele ouvia com ateno, quase sem respirar, esperando ouvir o nome da namorada. Qual nada! Nova frustrao. Mais uma vez iria 
auxiliar algum que no conhecia! Por que as coisas nunca eram do jeito que ele queria?
 As coisas vm sempre para o nosso bem, mesmo que no sejam como gostaramos que fossem. Pode ter certeza, Serginho: nosso Pai jamais nos d algo que no vise ao 
nosso bem, tenhamos ou no capacidade de compreender seus desgnios. Nosso entendimento  muito pequeno e nossa viso muito limitada. Precisamos confiar em Deus 
e nos entregar a Ele sem reservas. Quando assim procedemos, o Pai nos guia invariavelmente pelos caminhos que nos trazem o melhor. Vamos, anime-se! Voc ir gostar 
de Paulinho; alm disso, ele necessita muito de ajuda!
Serginho tentou elevar um pouco o nimo e perguntou:
 Lvia vai me acompanhar?
 Sim. Ela j sabe tudo em detalhes. Vai chegar em breve para iniciarem a programao da tarefa. Aqui est um dossi completo do caso do Paulinho. Deve estud-lo 
cuidadosamente para poder conhec-lo e s circunstncias que o envolvem.
Serginho pegou das mos do instrutor um calhamao com as informaes que teria de conhecer sobre o garoto. Suspirou resignado e comentou:
 Ento  melhor comear logo.
 isso mesmo. Quanto antes, melhor!




Captulo 24
Paulo
Com o punhado de folhas de papel nas mos, despediu-se dos colegas e dirigiu-se para o quarto, encafifado. "Por que ser que as coisas tm de ser assim? Por que 
tudo  diferente do que esperamos?" - questionava. Seguia imerso em seus pensamentos, buscando sinceramente apreender as primeiras lies de sua nova atividade, 
quando ouviu uma voz conhecida s suas costas:
  isso que far voc crescer, Serginho. Discutir, pensar, refletir.
 J est por a, Lvia?!
 Temos urgncia em comear nossa tarefa. Muitos so os necessitados de ajuda e poucos os que se dispem seriamente a ajudar da forma correta. Muitos at pensam 
que querem ajudar, mas teimam em fazer as coisas ao seu prprio modo e, na maioria dos casos, os resultados acabam sendo comprometidos para ambos.
 Para ambos?
 Sim, quem  auxiliado e quem auxilia. Todos estamos aprendendo, Serginho; onde quer que estejamos, a vida nos traz novas lies a cada dia. Basta estarmos atentos 
para compreend-las. Exatamente como voc fazia h pouco. Para crescer, devemos refletir e questionar, estudar e meditar.
 Estou com as informaes do meu protegido aqui. Messias disse que voc sabe de todos os detalhes.
 Sim, j tomei conhecimento dos fatos. O dossi  completo, e inclusive estive junto a ele diversas vezes para acompanhar a situao.
 E como iremos fazer? Quando partiremos?
 Creio que voc precisa de dois ou trs dias para assimilar todas as informaes. A teremos mais algum tempo para discutir e planejar, e ento poderemos ir.
 Quanto tempo?
 Creio que uns quatro dias sejam suficientes.
 Quatro dias?! Tudo isso?
 No tenha pressa. Prepare-se adequadamente. Ser mais produtivo para todos.
Chegaram ao quarto do rapaz. Lvia abraou-o carinhosamente e combinaram encontrar-se em trs dias para acertar os pormenores da empreitada.
Serginho entrou resignado. Puxou para perto da janela um sof confortvel que ficava ao lado da cama. Queria comear a estudar o caso. Estava curioso para saber 
do que se tratava. Ajeitando-se de modo a aproveitar a luz natural, disps-se a ler o dossi, que constava de trs grandes livros. Abrindo o primeiro, ps-se a estudar 
com ateno as informaes que diziam respeito  vida do jovem Paulo.
****
Distante dali, Paulinho no imaginava o que estava para acontecer em sua vida. Com pouco mais de nove anos, era vima criana quase adulta. Morava em uma favela em 
So Paulo e no conhecia vida diferente daquela. Pobreza e sofrimento faziam parte do seu dia-a-dia.
A me criava sozinha Paulinho e os irmos, pois o pai, traficante de drogas, fora morto em um confronto com a polcia. Ela, embora simples e humilde, carente de 
tudo, nunca havia concordado com as atividades do marido. Desde que ele morrera, ela vivia com medo. Lavava roupas para fora e fazia limpeza em residncias para 
sustentar os sete filhos, o mais novo com oito meses. E pedia aos filhos que nunca se afastassem sozinhos da pequena casa em que viviam.
Paulinho era o mais velho, um garoto de bom corao. Para ele, no entanto, a vida era aquilo que havia  sua volta. As casas bonitas, os lugares agradveis que sabia 
espalhados pela cidade, s vezes lhe pareciam to distantes quanto as estrelas que raramente via no cu: existiam, mas eram inatingveis.
Ainda assim, todas as noites ao se deitar pedia baixinho que Deus o ajudasse. Algo em seu corao lhe dizia que, apesar de tudo o que sofria, algum maior que tudo 
aquilo iria cuidar dele e de sua famlia. Sofria ao ver a me depois do labor pesado, todas as noites, deitar tarde e exausta. As vezes a ouvia chorar baixinho, 
quando pensava que todos j estivessem dormindo. E seu corao de criana, impotente, desesperava-se diante da impossibilidade de ajud-la. Chorava tambm e adormecia 
entre lgrimas de dor e agonia.
Aps uma dessas noites, Paulinho disse enquanto tomava aquela que seria sua nica refeio at a hora do almoo - um copo de caf puro:
 Me, a venda de balas no farol no t resolvendo, n? T faltando tudo! E se a gente for procurar o Cacau (era o antigo companheiro do pai) e pedir ajuda?
 Nada disso. No quero voc e seus irmos mortos por a. Leve o Lindomar com voc, pra vender mais.
 Ele s tem cinco anos!
 E da? Tem criana menor que ele pedindo dinheiro por a, no tem?
 Tem, mas...
 Ele no vai pedir, vai trabalhar...
 , mas o Luizo  bravo pra caramba, me. Se o Lindomar vacilar, toma tapa!
 Ele bate em voc?
 No bate porque sou esperto! Mas o Lindomar, pequeno como , vai acabar apanhando; e eu no vou conseguir ver ele apanhar sem fazer nada!
Jacira pensou um pouco, olhou o filho e suspirou fundo. Depois disse:
 Deixa pra l, Paulinho. Deus vai ajudar a gente. Vamos dar um jeito. Continua vendendo as balas. Uma hora as coisas vo melhorar.
Paulinho sorriu ao ver a me mostrando alguma esperana. Era o nico recurso que tinham: esperana de que algum dia as coisas iriam melhorar.
Saiu um pouco mais animado para enfrentar seu rduo e desgastante dia de trabalho.
Entretanto, ao findar aquele dia, estranho ardor percorria seu corpo, como se algo o queimasse por dentro. Sentia todo o corpo esquisito. No disse nada  me para 
no preocup-la. Talvez fosse uma gripe ou coisa assim, e logo estaria bom. Deitou-se cedo e a me estranhou, pois Paulinho era sempre o ltimo a ir dormir. Devia 
estar indisposto, pensou.
Com o passar dos dias, Paulinho ficava cada vez mais indisposto e incomodado; alguma coisa no ia bem em seu corpo. Ainda assim ele permanecia calado. No queria 
preocupar a me e no tinha ningum mais com quem conversar.
s vezes, olhando pela janela de um carro, via dentro me e filhos no banco de trs. Pareciam sempre to alegres e felizes!... Tinha vontade de pedir ajuda, de contar 
o que sentia e ver se algum poderia ampar-lo, mas qual! Quase nunca havia um olhar complacente. Eram todos duros e rudes. Ele voltava cabisbaixo para a calada, 
sem poder nem desanimar. O Luizo ficava de olho em todo mundo, e Paulinho no queria tomar bronca do grandalho. Tinha medo, muito medo dele.
O tempo passava e Paulinho continuava sentindo o estranho ardor, especialmente no peito e nos ombros. Como a sensao persistisse, naquela noite, antes de dormir, 
ele foi at a casa de dona Maria, vizinha de longa data. Ela possua um espelho grande e o menino queria ver melhor seu peito, prximo ao pescoo, que ardia e onde 
sentia fortes ondas de calor, como se algo o queimasse. As costas comeavam igualmente a arder e ele queria saber o motivo. Em sua casa havia apenas um pequeno espelho, 
do tamanho do rosto, que no lhe permitia ver todo o corpo.
 Oi, dona Maria, posso ir ao seu espelho grando?
 Oi, Paulinho, pode. Qual  o problema?
 Sei no, s quero olhar.
 Tudo bem, vai l.
Paulinho aproximou-se do espelho em que dava para se ver quase todinho. Tirou a camiseta e assustou-se. Seu peito, prximo ao pescoo e mais abaixo, estava coberto 
de manchas vermelhas, e em algumas delas comeavam a se formar pequenas bolhas. Olhou os ombros e notou que estavam com a mesma vermelhido. Virou-se e observou 
que suas costas, mais ou menos na altura do pescoo, tinham as tais manchas vermelhas, em que tambm j apareciam pequenas bolhas. Ficou espantado: por isso sentia 
tanto ardor. Que coisa horrvel era aquela? O que estaria acontecendo com seu corpo? Apavorado, colocou a camiseta antes que dona Maria se aproximasse.
 E a? Qual o problema? - ela indagou.
Paulinho pensou rpido e respondeu:
 Tava querendo ver se engordei, dona Maria. T tentando, a senhora sabe. Minha me vive dizendo que t magro, que preciso engordar. Queria ver se tinha engordado 
um bocadinho.
Dona Maria sorriu e passou afetuosamente a mo na cabea do menino.
 Obrigado, dona Maria. Volto depois. Quer umas balas?
 Pode trazer algumas. Meus netos vm na outra semana e t sem nenhuma.
 T bom. Trago amanh sem falta. Despediu-se e voltou como um raio para casa. Estava apavorado. O que fazer? Foi direto para a cama, enfiou-se debaixo das cobertas, 
passando as mos sem parar nos ombros, nas costas e no peito. E ps-se a pensar no que poderia ter. No queria contar para a me e deix-la mais preocupada. J tinha 
problemas demais com todos os filhos, com a casa, com tudo; no queria que ela ficasse triste. De repente, pensou: "E se eu estiver doente? E se for alguma coisa 
sria?". No, no devia ser. Mas j fazia algum tempo que vinha sentindo aquela coisa ardendo, que coisa feia! Como j tomava banho sozinho, a me quase no o via 
sem camiseta. E sendo poca de inverno j no tirava a camiseta, nem mesmo ao brincar com os amigos - o que, alis, era raro.
Paulinho estremeceu. No sabia o que fazer nem a quem pedir ajuda. Chorou baixinho, pedindo a Deus que se pudesse ouvi-lo, se existisse de verdade, o ajudasse. S 
mais tarde e a muito custo adormeceu.




Captulo 25
ltimos preparativos
Serginho no conseguia desgrudar os olhos dos papis. S parava para se alimentar, para meditar e orar, pois estava assustado com o que lia. A histria do jovem 
Paulo e de sua famlia o comovia. No imaginara quanto havia de dor e sofrimento na vida das pessoas. Era freqente, enquanto lia, seus olhos se encherem de lgrimas. 
Ele as enxugava e sentia crescer em seu ntimo a vontade de ajudar. Por outro lado, percebia que tambm precisaria de ajuda.
Mal havia finalizado a leitura do dossi quando Lvia apareceu.
 Como sabe que terminei? No combinamos trs dias?
 Sabia que leria mais depressa. O caso  comovente e o desejo de ajudar nos impulsiona a acelerar a leitura.
  verdade.
Teremos muito que fazer e aprender. Acima de tudo,  essencial amar nossos semelhantes, para poder auxiliar. Esta pronto para fazer os ltimos preparativos?
 Estou.
Lvia e Serginho, empenhados em viabilizar a primeira grande incurso do rapaz como aprendiz, comearam por um longo perodo de orao. O amor, ingrediente mais 
importante, tinha de ser fortalecido no corao de Serginho. Sem o amor seria impossvel colher resultados efetivos, mesmo que o desejo de colaborar fosse grande. 
A boa vontade era indispensvel somar o amor para fazer o trabalho florescer e frutificar.
Enquanto oravam, luz radiante se derramava sobre os dois. Eram banhados por fluidos revitalizantes e o amor que sentiam se intensificava. Naquele impulso sincero 
de servir, energias vigorosas os uniam a elevados benfeitores espirituais.
Ainda oravam quando uma entidade cercada de muita luz se fez presente no quarto:
 Que a paz de Jesus os envolva e fortalea seus propsitos de auxiliar.
Lvia estava comovida; Serginho nem podia erguer os olhos, frente  luminosidade e  pureza que emanavam da entidade, e lgrimas de emoo desciam pela sua face 
ao ouvir:
 A tarefa que est prestes a iniciar ser de grande importncia em seu aprendizado, Srgio. Os apelos constantes do jovem Paulo e de sua me tm chegado at ns 
como suspiros de desespero. Seus protetores os envolvem em amparo constante, porm a famlia carece agora de interveno e apoio maiores. Avizinha-se um momento 
por demais grave em suas vidas, e eles esto despreparados para o que h de vir. Carecem de sustentao. Que Deus os abenoe na tarefa que iro empreender. Contaro 
sempre com o nosso apoio. Vo com a beno de Jesus.
E aos poucos, diante dos dois jovens, a entidade luminosa desapareceu.
Lvia e Serginho trocaram impresses sobre aquela experincia, e deram prosseguimento aos detalhes para se entregarem  empreitada.
De sbito, a ansiedade de Serginho sumira, substituda pelo medo. Medo de no cumprir sua misso, medo de no saber o que fazer, como fazer. Sentindo-lhe as emoes 
e percebendo seus temores, Lvia procurou acalm-lo:
 Tenha f, Serginho. Voc no estar sozinho.
 E se falharmos? E se no conseguirmos ajudar? O que ser desta criana e de sua famlia?
 No estaremos ss.
 Sim, mas... Sei l, se no formos capazes de transmitir corretamente o que precisamos... Se as pessoas no nos ouvirem?
 Sem dvida, muitas vezes nosso maior obstculo  o direito sagrado do livre-arbtrio das pessoas. De todo modo, contaremos com coraes caridosos, que sintonizam 
com a necessidade de auxiliar ao prximo, e que sero nossos aliados.
 E se as pessoas no quiserem fazer o que sugerimos?
  um direito delas, Serginho.
 Da vo sofrer...
  um direito delas.
 S que precisam de ajuda!
 O tempo sempre contribui. Cedo ou tarde, todos se rendem e aprendem. No obstante, jamais poderemos violar o livre-arbtrio de quem quer que seja. Nem Deus assim 
procede. Ele respeita as criaturas e est sempre presente, pronto a socorrer. Tenha f e controle seus temores; eles s atrapalham. Domine seus pensamentos e lembre-se 
de todos os exemplos que estudou.
Serginho concentrou-se e permaneceu silencioso, buscando relembrar o aprendizado adquirido ao longo de seu treinamento. Procurou serenar a mente e, pela primeira 
vez, rememorou a nfase com que Lvia lhe falara da orao e de quanto ela seria relevante em suas tarefas. Ento orou em pensamento, pedindo ajuda do Mais Alto. 
Lvia sorriu satisfeita observando os progressos realizados pelo primo.
Serginho acalmou-se e puderam seguir com os preparativos.
No final da noite seguinte estava tudo pronto. Partiriam de manh, aps a ltima reunio com Messias, o orientador do curso de Serginho.
Antes de se despedirem para o descanso necessrio, o rapaz disse  prima:
 Lvia, no imaginava que existisse uma doena como essa que acomete Paulinho, muito menos a origem dela, neste caso especfico. Nunca supus que o passado pudesse 
refletir-se dessa forma na vida presente. Que coisa!
  a lei de causa e efeito13, Serginho. Tudo que plantamos, colhemos. Nada escapa a essa regra da Justia de Deus. Por isso tentamos conscientizar nossos amigos, 
ainda na Terra, para que sejam realmente responsveis pelos seus atos e saibam que ns criamos nosso futuro, nossa vida, nossos destinos, na medida em que a toda 
hora fazemos escolhas.
 Como  difcil perceber isso, sobretudo enquanto estamos por l! Muito difcil.
 , em especial em casos como o de Paulinho e de sua famlia. Eles pouco ou quase nada conhecem das questes espirituais. Tm um longo caminho a percorrer. Mas 
com certeza essa doena que acomete Paulinho poder ser transformada numa beno para toda a famlia.
 E como, Lvia? Como uma doena dessas, numa famlia j to sofrida, poder ajud-los? Como podero ser beneficiados por uma doena como o fogo selvagem? Sei de 
tudo o que j conversamos, e fico pensando nas dificuldades que eles enfrentaro para aceitar tudo isso.
 Serginho, eles tero a oportunidade de descobrir coisas, que abriro novos horizontes para suas almas doloridas poderem crescer e evoluir. Faremos tudo para apoi-los 
nessa etapa difcil, para encontrarem a paz e a fora que os faro superar esse aprendizado em suas existncias. Ser este seu trabalho: auxili-los e encontrar 
a luz em meio s trevas, a acreditar no amanhecer, apesar da noite escura, a enxergar o sol, em meio  tempestade que se aproxima. Que Deus o sustente, Serginho, 
na abenoada tarefa que ir executar.
Serginho suspirou, resoluto. Tinha no corao o sincero desejo de ajudar aquelas pessoas.
 Bom, Lvia, temos de comear por algum lugar, no  mesmo? Sei que vai dar tudo certo. Espero que d, pois o que mais desejo - alm de ajudar as pessoas,  claro 
-  ir logo morar com voc naquela colnia maravilhosa... E deixar de sentir esta dor que insiste em me incomodar.
 Serginho, nosso futuro pertence a Deus. Ele sabe o que  melhor para ns, como no caso de Paulinho. Tudo parece perdido, e  justamente a que surge a soluo, 
que vem a transformao para melhor. Embora possa parecer contraditrio, no final, se perseverarem, eles compreendero; e voc tambm. Nem sempre as coisas so como 
imaginamos, e precisamos ter f, confiana em Deus e em seu amor, acima de tudo.
 O que est querendo me dizer, Lvia?
 Nada, a no ser que nos cabe confiar em Deus, sempre, haja o que houver.
Lvia interrompeu propositadamente o dilogo:
 Agora tenho de ir. Voc precisa descansar. Vai comear uma nova experincia e deve estar preparado. At amanh. Venho busc-lo bem cedo.
 At amanh.
Lvia saiu do quarto, deixando Serginho encafifado. J conhecia a prima o bastante para saber que ela no dizia nada sem motivo. O que haveria por trs de suas palavras? 
Ser que ele no poderia ir viver naquela colnia, junto dela, mesmo que fizesse tudo o que estava pretendendo? "No, no  possvel!" - pensou, afinal. "Se me esforar 
e fizer tudo certo, sem dvida terei direito quele lugar lindo!".
Naquela noite custou a adormecer, meditando demoradamente em tudo que lhe acontecera desde sua partida, desde que deixara a Terra. Pensou em dona Eugnia e seu Felipe, 
em Fbio e Sueli, sentindo tanta saudade apertar o corao que seu peito doeu ainda mais. Era enorme a vontade de v-los. Freqentemente recebia, sobretudo atravs 
de Lvia, notcias de que iam bem, mas desejava intensamente estar com eles. Entretanto, as atividades e responsabilidades que abraara o impediam, por ora, de um 
contato maior com a famlia.
A saudade era imensa. Contudo, ele guardava no corao a esperana de que no futuro estaria junto deles. E resignado acabou por adormecer. Seu sono foi povoado de 
lembranas de sua recente encarnao, s quais misturavam-se recordaes mais antigas, de um passado que se perdia completamente em seu inconsciente.






Captulo 26
Pedi e obtereis, buscai e achareis...
Amanheceu, finalmente. Serginho despertou um tanto confuso e continuava imerso nas lembranas quando Lvia veio busc-lo para a nova jornada.
 E ento, como se sente? Animado?
 Tive uma noite estranha. Imagens distantes se confundiam com as lembranas de minha famlia. Eram eles, e ao mesmo tempo eram outras pessoas, no sei dizer ao 
certo. Ficou tudo incompreensvel.
  natural que isso acontea, Serginho.
 Como assim?
 Aproxima-se um momento novo e significativo em sua existncia. Sempre que temos de enfrentar mudanas, nossos medos, nossas imperfeies, nossos fracassos aparecem 
como nuvens a nos amedrontar. Jamais devemos nos deter diante de emoes como essas. Elas nos indicam que um importante recomeo est despontando. No fique preocupado. 
Isso  um bom sinal, quer dizer que est no caminho certo.
Sem entender bem sobre o que Lvia falava, Serginho apenas sorriu e perguntou:
 Bom, e ento, podemos ir?
 Sim. Messias nos espera para as ltimas instrues. Dali partiremos imediatamente.
Ao fechar a porta, Serginho olhou com carinho para o quarto acolhedor que lhe proporcionara momentos de quietude e reflexo.  medida que caminhavam, contemplava 
a natureza  sua volta com novo sentimento, e percebeu que teria saudade daquele lar provisrio.
O instrutor os aguardava. A reunio foi curta e objetiva. Messias reforou alguns pontos cruciais que Serginho deveria observar, particularmente em relao  sua 
conduta e tambm no tocante a algumas ferramentas que precisaria utilizar com destreza, para receber ajuda sempre que necessitasse e igualmente para ajudar com eficcia.
Notando os receios e inseguranas que rondavam a mente do rapaz, Messias finalizou:
 No tenha medo. Tudo dar certo, desde que voc conserve sempre atitude positiva. Jamais tome qualquer providncia sem antes consultar o protetor que acompanha 
cada uma das pessoas encarnadas de quem voc estar perto. Tenha respeito por todos; respeite cada deciso, cada vida, nunca forando suas idias ou impondo-se a 
quem quer que seja.
 , o livre-arbtrio...
 Exatamente. Devemos respeitar nossos irmos, assim como Deus respeita nossas decises. No tenha ansiedade, seja paciente, e saiba compreender seus irmos. Isso 
 fundamental em suas novas atividades. E quando tiver dvidas ou dificuldades, no tome deciso alguma sem pedir cooperao. Lvia estar com voc durante o primeiro 
perodo de adaptao; portanto, seu treinamento ainda no acabou. E inclusive depois que o deixar conduzir sozinho o trabalho, ela o acompanhar de longe. Voc jamais 
ficar s.
 E terei um anjo da guarda?
 O que acha que Lvia tem sido para voc? Serginho olhou surpreso para a prima. Ele no
percebera essa verdade! Ela vinha sendo seu anjo da guarda! Como no havia pensado nisso? Quando fez meno de expressar as perguntas que vinham  sua mente, Lvia 
pediu silncio:
 Depois conversamos sobre isso.
Encerraram aquela reunio rogando a Deus que abenoasse a todos na tarefa que se iniciava e oraram tambm, com profundo amor, por Paulinho e toda a sua famlia, 
para que pudessem receber de fato toda a ajuda de que careciam.
Ao terminarem, envolvidos por forte emoo e entre lgrimas, Lvia e Serginho despediram-se de Messias e de outros amigos, partindo sem demora para a tarefa que 
os aguardava.
Levavam em seus coraes, cheios de esperana, o desejo de ajudar e a f, cientes de que da Lei de Amor fazem parte o socorro e o amparo a todos aqueles que buscam 
com sinceridade a proteo do Pai.
Serginho e Lvia desciam como resposta dos benfeitores espirituais aos pedidos de Paulinho e de sua me. Deus ouvira suas oraes e enviava reforos.




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